“As lesões no Corpo são símbolos da Linguagem”

25 de Abril de 2018 | Artigos | Sem comentários

“As lesões no Corpo são símbolos da Linguagem”

“As lesões no corpo são os símbolos da linguagem”

PSICOSSOMÁTICA

 

No humano, as doenças rotuladas de “psicossomáticas” resultam do conflito (ISC), como uma psicose transitória.

Psicose temporária – Não há rompimento com o principio da realidade, não deixa de ter sentimentos como: remorso culpa pecado, fracasso, ou perdas, mas nega o sentir, entrando em um estado conflituoso, ao negar tais sentimentos.

Essa fuga momentânea ao dar algum alivio ao sofrimento neurótico, também oferece um ganho secundário. Tanto que pacientes temerosos, conflituosos, convertem esses sentimentos e pensamentos num processo de somatização, por não conseguirem simbolizar e por evitar senti-los.

As lesões no corpo são os símbolos da linguagem não decodificada, pela não compreensão do discurso do desejo ou prazer que deveria ter sido realizado no âmbito da neurose.

Algumas pessoas comuns e de bem com a vida adoecem e se recuperam mesmo sem análise, reorganizando, resignificando a vida pela fé, caridade, prática do bem; sem querer retorno e compensação recuperam a saúde e sanidade.

Somatizando ao invés de sentir vai simbolizar corporeamente, com isso ainda obtém um ganho secundário. Muitas pessoas adoecem sem ir a óbito e sem seqüelas clinicas estão em pleno exercício narcísico e seu  Édipo está em constante conflito não resolvido. Ao não realizar aquilo que desejo, resisto e me defendo desse desejo.

Durante o tratamento a transferência entre o analista e o analisando, permitirá a reconstrução do discurso do inconsciente do paciente, sendo quase certo o desaparecimento dos sintomas psicossomáticos, ou, abrandamento das lesões estruturais psíquicas.

Porém, cabe uma advertência na investigação do doente psicossomático.  Não existe relação de objeto nos transtornos psicossomático, pelo bloqueio existente no inconsciente, impedindo a filtragem de seus produtos. Por uma regressão que se estende até p corpo, há uma ilusão de comunicação direta com o inconsciente, o que é falso.

Como conseqüência a transferência supostamente proporcionada pelo paciente é uma armadilha para o analista. Esse paciente que melhora em apenas uma sessão, que ouve palavras de simpatia, amor, aversão, ódio, rejeições, etc., mas não trás nada de conteúdo inconsciente, que se explica pelas falhas do paciente na elaboração psíquica, e a semelhança de um actin, traduzem essa lacuna do psiquismo.

 

                                 Dimensão do funcionamento Mental

Para entendimento dos fenômenos psicossomáticos, cabem noções do funcionamento mental, considerando a prática clinica do processo analítico em duas visões: de globalização e de diferenciação.

O processo global realiza-se em função da relação de objeto com mecanismos de transferência e contra transferência, que vai diminuindo o papel da pulsão. O cliente é tomado como um todo e traduzido em termos de ansiedade, angustia, fantasias e mecanismos de defesa. Perde-se ai a dimensão do funcionamento mental pelo não aproveitamento de pormenores  do mecanismo psíquico.

Na diferenciação inclui-se o conceito de pulsão, tendo o afeto como o componente de descarga, podendo estar ligado a uma representação como no exemplo a seguir: Um bebê ficava muito ansioso quando a mãe entrava no quarto. Após três anos ela pode falar sobre o episódio quando encontrou no armário de sua mãe um sapato com a sola solta, dando impressão que a mãe iria comê-la. Tem-se nesse relato o conceito de energia, de representação e da palavra.

Freud reconhece a importância de uma só palavra, fazer análise em torno dela e concluir que o inconsciente em certo momento sofre modificações por um só vocábulo. O valor da comunicação pela linguagem, pois a cadeia de linguagem é que nos dá acesso ao inconsciente.

A idéia é acoplar a visão globalizada da relação de objeto com a teoria da diferenciação mental.

 

                                                Representação

Uma excitação parte da esfera somática indo de encontro a barreira somato/ psíquica penetrando no psiquismo, encontrando excitação que chega derivadas da pulsão. A pulsão surge como representante psíquico das excitações que nascem no interior do corpo e chega ao psiquismo.

O primeiro sinal psíquico da pulsão pode-se manifestar sob a forma de tensão, mas sem representação. O representante-representação face às relações com a repressão é reprimida e obrigada a trabalhar, porque uma representação não permanece no inconsciente como estava no inicio.

Há um grande dinamismo, pois se transforma, disfarça-se, condensa-se, desloca-se por ser o único modo de ter êxito de atravessar a fronteira. Toda representação em estado bruto não passa pela barreira, ela será reprimida e só ultrapassa com nome falso.

Todo potencial interior do inconsciente encontram-se na linguagem, o analista deve servir-se de todas as ambigüidades possíveis, pois encontrará o acesso ao inconsciente pela linguagem.

A representação da coisa é o único elemento comum entre o sistema inconsciente e o consciente. Nesse espaço, encontramos o acesso aos conflitos inconscientes.

 

                                           Necessidade de ajuda

            Não tendo emoções (internas) dinâmicas o doente psicossomático foge do mundo interno, fazendo novas adaptações em posição distante da realidade externa. Ilude-se em relação ao principio da realidade, não suporta as frustrações, não agüenta a dor mental, fugindo da

Ele não percebe, não sente, não ouve, e por não usar a mente, tudo é percebido, sentido e falado pelo analista. Esse paciente perdeu tudo, só tem o corpo, necessita de ajuda, pois se encontra sem palavras, a partir dai o corpo simboliza por ele.

Quer recuperar o que o corpo tomou conta, a representação; porem não sabe recuperar sozinho, o analista serve de ponte ou instrumento. Cabe ao analista entrar em sintonia com ele, e procurar fazê-lo sentir, recuperar a expressão facial, amor, ódio, fantasia, etc.

O analista, em sintonia, vai abrir espaço para o psiquismo, onde só havia corpo. Substitui a mãe que falhou na função de pensar, usando o filho como sua extensão, característica narcísica. O analista vai recriar dentro do paciente o que está morto dentro dele, organizando sua memória, abrindo espaço para novas representações. Um pai possivelmente desqualificado e ausente em seu mundo de representação.

 

                              Estratégia dos distúrbios psicossomáticos

            O doente psicossomático posiciona-se distante da realidade externa. Sem contato emocional evita o sentir (mundo interno). Não ouve seu inconsciente, foge da dor emocional. O que falado ou lido e sentido não é dele é do analista. O somático tomou conta na criação da representação.

Para que possa se perceber e preencher a realidade o analista deve servir de instrumento para fazê-lo sentir, fantasiar e ter afetos.

A chave dos distúrbios psicossomáticos deve ser procurada também na fase pré–natal e também no trauma do nascimento. O bebe intra-uterino é muito sensível ao desprazer e ao sofrimento imputado a gestante.

Os estados mentais pré-natais e as proto-emoções podem romper barreiras, cisões, e produzir manifestação de doenças psicossomáticas e psicóticas na futura vida adulta / velhice já dizia Winnicoot.

Forças hostis ao crescimento mental: falta de nutrientes a gestante, sem pré-natal, sem pré-enxoval, e a gestante sem a presença do pai e familiares, dando uma representação de amor e acolhimento.

 

Sofrimento proporcionando simbolização

            A mente ao enfrentar o sofrimento ganha o poder de simbolizar (neurótico), ao não fazê-lo e sem estrutura edipiana pode avançar para a psicose. A oposição entre amor e ódio, o conhecimento e o pensar acerca da experiência emocional permitem a construção de símbolos.

Os símbolos despojados de significados e da emoção, criam a desmentalização e a mentira. O encontro da mente do bebê e a mente da mãe propiciam a capacidade de devaneio, levando a operação mental ao pensamento.

A simbolização é uma capacidade inata (neonatal e da infância), que vira a se desenvolver adequadamente, num vinculo humano fraterno e positivo, pela estabilidade e maturidade emocional dos pais, avós e cuidadores.

Na experiência inter pessoal, núcleos afetivos são compartilhados, que se renova constantemente pelos códigos de processamentos sub-simbólicos, simbólico não verbal e simbólico verbal, do corpo ao psíquico.

O alivio do sofrimento seria desligar, do corpo alterado o sintoma e conectá-lo ao símbolo não verbal, em ultima instância tirando do soma e conduzindo ao psíquico. Retirar o signo da concretude corporal e através das emoções, para a abstração simbólica onde há significação.

            Catarros, pus, gripes e resfriados, é o ódio que se transformou liquido. É o momento de chorar algumas emoções liquidas, (ódio, raiva, frustrações, solidão e incertezas de existir). É a expulsão elaborada pelo bio/psíquico de material indesejado, reprimido ou sobra de uma crise emocional.

Crises alérgicas (pele) são crises de fronteira entre pais e filhos, crises de individualidade no complexo de Édipo, também por crises de rejeição, por exigência demasiada de perfeccionismo por parte dos pais e educadores. A crise alérgica serve para testar ser amado, tocado e reconhecido. É um mecanismo de defesa da atenção por aproximação ou desaproximação de familiares ou do mundo.

As cardiopatias representam crises de território e expectativas de conquistas afetivas frustradas com relação ao campo profissional ou familiar. Dificuldade de declarar amos e aceitar a vida como ela é. Aceitar as pessoas, grandes mudanças no meio familiar, segredos nunca revelados ou falados, amor narcísico não correspondido (Édipo).

                                          Conclusão

O grande desafio da Medicina Psicossomática é descobrir conexões sinápticas que articulem as emoções geradas pelos sistemas neurais não registradas pela nossa percepção profunda, com as mesmas emoções profundas de nossas constelações psíquicas, que utilizamos nos cuidados bi-pessoais ou grupais dos transtornos psicossomáticos (?).

Não usa a mente, e como tal foge de toda experiência emocional, como se tudo o que percebe, sente, ouve não pertencessem a ele.

 

Dr. José Carlos Martins Mendes de Carvalho MD.

Dentista e Psicanalista

Trabalho Apresentado Percurso de Psicanálise da ABMP-DF

www.abmpdf.com

 

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