A Criança Sintoma dos Pais

14 de junho de 2018 | Artigos | Sem comentários

A Criança Sintoma dos Pais

Psicanálise dos pais

A criança sintoma dos pais

 

O paciente é mero sintoma dos problemas dos pais, e, para se compreender a psicose é necessário situar como o sujeito (desde antes do nascimento) foi preso a um conjunto de palavras parentais.

Crianças que, muito cedo, submetem-se a palavras “maléficas,” podem desenvolver transtornos psicóticos graves.

Porém teremos ai dois princípios básicos em que de verdade um cobre o outro. Nenhum louco se faz em uma única geração, exceto diante de traumatismos graves, senão são necessários varias gerações para surgir um doente psíquico na família.

Para Mannoni, a doença é um sintoma que denuncia o estado psíquico em que o sujeito foi concebido, gerado e “alimentado” em seu desenvolvimento psíquico (ICS).

Bem antes de vir ao mundo, antes mesmo dos pais se conhecerem, a base da trama Edípica está pronta, pois, à medida que os pais tecem seus projetos, inclusive a dos filhos, estes estão com a sorte lançada. Certo “feixe” de palavras é o discurso repetitivo sintomático, que alimenta a estrutura neurótica e que possibilita, faculta a psicose.

Na medida em que se consegue desarticular o discurso parental, que mantém os votos, os oráculos ou os juramentos que sustentam a alienação do desejo do filho, é que este começara a ter acesso ao próprio desejo, essa alienação funciona como espécie de remendo do Édipo dos pais que projetam sobre seus filhos.

Como o filho pode querer desejar, se o desejo dos pais ou de um deles é tão imperativo, que só lhe resta uma saída; a) da conformidade, b) da cópia ou c) de se opor. O desejo dos “Pais” interdita anula a palavra e o  desejo do (sujeito/Filho).

Há palavras que são realmente mal-ditas, no sentido como entendemos de maldição. Maldição essa que não vem de Deus, e sim da força da palavra do pai e da mãe.

O filho sob essa palavra mal-dita tem pouca chance de acessar seu próprio desejo, porém, à medida que tal palavra “maldita” for detectada no discurso que representa o desejo dos pais, ou de um deles, (genitor patogênico), proporcionalmente, ocorrerá uma desimpressão dessa “marca ao nível do corpo da criança” e o acesso a um corpo simbólico será permitido.

O desejo constitui o sujeito, porém, para se ter acesso ao mesmo é necessário que a palavra seja liberada, pois, ela está bloqueada por um “feixe de palavras parentais”, que ao exprimir o desejo dos pais encobrem o desejo do filho, assim estamos diante de crianças / filhos que quando “adultos” serão insatisfeitos e angustiados.

Alguns filhos (as) são meros prisioneiros dos desejos de seus pais ou de parentes. Diante disso, única saída que resta sob essa intrusão parcial ou maciça, é responder como sendo um sintoma dela.

Entre ter que responder ao desejo parental, e o vislumbre de poder despertar o seu próprio desejo, estão os geradores de conflitos, de onde brotam uma cascata infinita de patologias possíveis.

 

Mannonni (1967:177) reduz esse discurso parental em duas chaves:

1º Um discurso fechado

2º Um discurso dramático.

            Discurso fechado: Compreende-se discurso fechado como o “mito familiar”, ou, como Lacan descrevia os “complexos familiares”. O mito é a forma mais primitiva de se fazer “ciência”. No caso é como a família concebe sua história independente do real. É a leitura que a família faz para poder se adaptar as angústias do retorno do recalcado.

“Discurso fechado” porque é sempre o retorno do mesmo e a única leitura através das gerações. A criança doente é o representante ou o suporte do mal estar parental, mal estar este que se mantém fechado, (oculto). (Ibid.: 116).

A análise permite romper essa seqüência, impedindo que as novas gerações sejam vistas sob os mesmos ângulos e taras familiares.

A análise / psicanálise permite a ruptura dessa continuidade, possibilitando aos pais, aos filhos, na interpretação desse mito, uma nova leitura, que irá permitir um rearranjo do que se está inconsciente, levando a uma desarticulação dos núcleos patogênicos, favorecendo a estruturação de novas cadeias não patogênicas, assim o surgimento de novos significantes

Tudo que se impõe pela linguagem dos pais, selam o passado, impedindo o filho de ser portador do seu próprio desejo. Frases “mal-ditas”:

            – “‘Meu filho não dorme”.

– “Ele é nervoso porque toda a minha família é nervosa”.

-”Ele faz xixi na cama com oito anos porque eu também fiz”.

-“Vou ter câncer porque as mulheres da minha família morrem de câncer”.

            É por não poder se situar em relação aos pais que a criança desenvolve seus sintomas. É na interdição do incesto, que separando a criança da lei da mãe, permitindo o acesso a lei do pai, que consiste o advento da ordem, da cultura e da linguagem. Freud insiste sobre o Edipo, que nada pode ser articulado sobre a sexualidade do homem, se não passar pela lei da simbolização. (O que é rejeitado no simbólico reaparece no mundo exterior, real, sob forma de alucinação).

Ao receber os pais na terapia, é importante discriminar qual a demanda dos pais e qual a demanda do filho. Como a demanda se articula com o significante, sempre será a demanda de outra coisa, sendo que o desejo aparece como suporte daquilo que quer dizer a demanda, além daquilo que ela formula.

O traquejo do analista o conduzirá a escutar o que o discurso dos pais ou de ambos transmitem. Qual o genitor é patogênico, e, verificar com o tempo que lugar a criança ocupa na estrutura edípica dos pais, e  de si mesma  onde faz a representação no Édipo não resolvido dos “pais” .

 

            Sintomas que são sempre e invariavelmente sintomas de um discurso fechado: Estar mal na escola, irrequieto, hipercinético, dorminhoco, preguiçoso, agressivo, mordedor, alheio a tudo, desligado, incapacidade de concentração, escrupuloso, lavar as mãos sem parar, trocar de letra, dificuldade em se alfabetizar, problemas com a matemática, indisciplina na escola, inibições, inseguranças, insociabilidades, sexualidade hipertrofiada, masturbação continua, droga, fumo e outros sintomas.

A criança nasce na absoluta indiferenciação, são os pais que lhes fornecem significantes que estruturam e fixam a diferença sexual subjetiva.

A posição do psicótico tem a haver, face ao desejo, uma relação, com a maneira de como ele é chamado a ocupar uma posição na constelação familiar. Basta um louco para expiar e assim preservar o “equilíbrio” da família e dos pais. O doente instalando-se no não desejo cumpre de fato o voto profundo da família. (Ibid.: 127, 128).

Isto é tão verdade que quando a análise alcança uma mudança nesse quadro, e, o filho doente se recupera, outro membro da família adoece.

Pelas constatações clinica, o quadro, depositário do mundo fantasístico do paciente, deve tornar-se objeto de análise, permitindo que se desatem os laços psicóticos e se estabeleça a palavra do paciente  (criança) com a instituição da psicanálise, onde se inscreve o território  (?) ou social do sujeito. (Mannoni).

Analisar o quadro e expor o que na imagem corporal do paciente ficou espedaçado. (Ibid.: 139)

Discurso dramático: Esse discurso estará sempre ligado ao tema do abandono, de morrer e da condenação. O drama a que estamos submetidos não é o da doença da criança, e sim o drama de se existir para os pais.

Trata-se de um episódio real ou imaginário, mas de qualquer modo violento, disruptivo, que irá implantar no inconsciente um núcleo patógeno, qual um vulcão adormecido que diante de situações precisas, retornará com a angústia suficiente para abalar o sujeito.

O discurso dramático toma a forma de ameaças, catástrofes, fim do mundo, violentação e morte. Drama sempre ligado ao trauma, que consiste de que a criança tem que se separar da mãe.  Esse trauma será mais aberto para uma solução, quanto mais à mãe se abrir aos efeitos da função paterna. É o caso em que o que a mãe ao faz do discurso do pai, diz Lacan, que vai permitir que a criança passe por esse trauma de maneira equilibrada ou desastrosa.

O analista deve saber esquadrinhar o quadro da concepção, do nascimento e o desenvolvimento da criança. O trauma é inevitável e o que a clínica demonstra é que ele no mínimo deixa sua marca, para uns mortíferos e para outros menos dramáticos. (Pela psicanálise isso pode diferenciar neurose da psicose).

O trauma forma o chamado núcleo patogênico. Como todo patógeno gera infecções. Esse núcleo consiste em concentrações endurecidas, cristalizadas de significantes que não circulam livremente nas redes inconscientes e chegando a nós pelas manifestações sintomáticas.

Esse núcleo patogênico, precisa de intervenções adequadas, desfolhando aos poucos, para que possa circular livremente suas redes de significantes.

 

A prática da analise dos pais

            Receberemos os pais e não a criança em análise; em casos extremos, casos avançados de crianças francamente psicóticas, ou casos de limitações físicas, como a criança que nasceu sem o centro do controle do sono após excessiva intervenção médica, não tendo uma imagem unificada do corpo aos cinco anos, e, por conseqüência não conseguir alcançar a formação do Eu.

Reconhecemos os pais como os formadores e educadores da subjetividade dos filhos. Quando surgem os sintomas, percebe-se que algo na trama de significantes parentais está emperrada, e, desde que esses pais não sejam perversos ou extremamente rebaixados intelectualmente, a análise dos mesmos deve ser tentada.

A pulsão está em busca da satisfação, porém, devido sua plasticidade e indeterminação quanto ao fim, é necessário a condução das mesmas pelos pais. Quando isso não ocorre não teremos a hominização (aquisição de caráter ou atributos humanos), ficando assim sem oportunidade de sublimação.

            Freud não hesita em afirmar que a civilização é fruto da repressão. Isto psicanaliticamente quer dizer que a castração é o único instrumento de normativização da pulsão, e é ela que permite que o sujeito seja sujeito, e, usufrua de um estado psíquico o menos neurótico possível.

 

Na escuta dos pais é importante detectar como a função paterna agiu ou está agindo.

  • Qual a posição da criança no Édipo?
  • Onde falha a triangulação: Do lado do pai, do lado da mãe ou de ambos? Ou representantes simbólicos: avós, babas ou empregada doméstica
  • Qual o genitor patogênico?
  • Haveria uma inversão na relação triangular, pendendo para o lado do pai ou da mãe? Ou do representante simbólico no Édipo aberto.
  • Que posição ocupa a mãe em relação à função paterna? Há casos que a mãe não existe com sua função (simbólica) e apresenta ou nomeia o pai ou (outros  ou terceiros) mesmo sem vínculos parentais.

Nunca nos esqueçamos de que tudo depende da mãe “… é o caso que ela faz da palavra do pai”. No fundo as patologias dependem do posicionamento da mãe em relação à função paterna.

No caso de uma mãe solteira (teoricamente) ou produção independente, a função paterna pode-se fazer valer introduzindo uma figura masculina, seja um parente, amigo ou conhecido. Lembrar que a função paterna é da ordem do simbólico, e, vai estar presente sempre que a diferença sexual for respeitada.

O gozo é determinante no desvelamento do sintoma. Ao saber desmontar o gozo onde ele se apresenta, o sintoma pode vir a desaparecer pelo efeito posteriore.

Na briga entre irmãos, que é algo saudável, sempre vem acompanhado do gozo de ver os pais a tomar partido por um deles.

As intervenções do analista serão sempre e exclusivamente no discurso dos pais. Por mais que os pais insistam, não se preocupar com a queixa, e sim com os sintomas que serão os guias, significantes que remetem a criança a outros sintomas e significantes.

A análise busca sempre o sentido da retificação das relações edípicas, que permite integrar as relações subjetivas. Tanto é verdade que o efeito sobre o filho acontece a partir da mudança subjetiva dos pais, sem que se tenha de agir no “real”, isso talvez evitaria a maldição a gerações futuras.

Só ocorre trabalho no inconsciente, quando trabalhamos suas manifestações, ou, o rearranjo de suas redes de significante só acontece pela intervenção na transferência, cuja conseqüência nos escapa. Só a posteriore poderemos constatar se a intervenção foi capaz.

Lacan dizia que quando o paciente se cura é apesar dos analistas, pois, no retorno do paciente que percebemos que a eficácia simbólica agiu onde nos nem pensamos que agiria.

 

Três sinais que constatam que a análise caminha bem.

  • Primeiro, a agravação do sintoma.
  • Segundo, é o aparecimento da agressividade.
  • Terceiro, quando a ‘“criança problema” deixa de ocupar o lugar de doente, ou de “bode expiatório” da família e outro membro adoece.

(A cura em psicanálise não é cura clinica médica, cura alopática, e nem promessa de cura, é a resignificação do sintoma ou da neurose do sujeito em análise no seu inconsciente, e, sua estrutura no complexo de Édipo).

      A análise desaloja a criança do lugar que ela ocupa no real, onde ela é (objeto) da fantasia da mãe, e assim ela tampa a angústia, ou enche a falta da mãe. O que se pode fazer é ajudar o genitor patogênico a quem a criança está ligado.

A função da palavra é revelar (re-velar), trazer a verdade do sintoma à luz, descobrindo o núcleo patógeno que o sintoma encobre.

      A palavra certa na hora certa da transferência dissipa o núcleo patógeno, a rede de significantes se destrava do discurso fechado, e a verdade libertadora passa a circular

      O processo analítico deve ter em conta que a demanda é a demanda de outra coisa. Na verdade é a demanda de uma ordenação subjetiva, que os pais não acessam. (objeto)

Na análise dos pais, além da retificação edípica, função paterna, deve-se levar em conta que a retificação só será possível se formos à busca da Lei.

O homem se faz pela lei da fala, pois sem ela a pulsão fica desatada, enlouquece, não há desejo, não humaniza. Sem Lei o humano degenera e não se socializa.

Só a castração garante a ética do desejo (não cederás ao desejo uma vez que o conhece), o acesso a ele ou sua renuncia consciente, sublimante, é a sua possível realização.

Todo o casal que procura a análise por causa dos filhos, após algumas sessões passa a tratar dos verdadeiros problemas, os problemas de relacionamento conjugal. Escutar o casal onde ele não consegue mais se escutar. Descobrir na escuta dos pais quais são os significantes o mito familiar, quais ao os significantes que organizam e movimentam a família, aqueles que freiam a criança em seu desenvolvimento psíquico, é uma descoberta preciosa. Tudo pode mudar a partir dai na vida da criança sem que sequer o vejamos.

A função paterna é o eixo ao redor da qual toda a análise gira. É a função paterna que opera a separação da criança do desejo da mãe, e, ipso facto, lhe possibilita que seu desejo se constitua no inconsciente, e a partir daí nasce o (sujeito) assim para que ele possa se tornar por sua vez um ser desejante (individual) , isto é, um sujeito de posse do seu desejo sem o sintoma dos “Pais” e que possa discernir seu desejo pela sua palavra.

Toda a análise se baseia no principio da castração, que Lacan colocou lucidamente na articulação da função paterna.

O sintoma da criança colmata (tapa fendas, brechas, aterra), no discurso familiar, o vazio onde a verdade que não é dita é criada, fantasiada. Assim o sintoma é necessário àqueles que têm que se proteger contra o saber da verdade em questão.

 

Ai a autora conclui dentro da mais pura lógica da sua concepção “… a querer tratar o sintoma, é a criança que se rejeita”. (Ibid. 184)

Módulo Nº 15 CURSO MD – Psicanálise dos pais-criança sintoma dos pais

 

Dr. José Carlos M. M. de Carvalho

 Dentista e Psicanalista do Percurso da ABMP-DF

 

www.abmpdf.com

 

 

 

 

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