A RELIGIÃO E O NARCISISMO: Suas Relações à Luz da Psicanálise de Freud

21 de dezembro de 2016 | Artigos | Sem comentários

A RELIGIÃO E O NARCISISMO: Suas Relações à Luz da Psicanálise de Freud

RELIGIÃO E NARCISISMO:

SUAS RELAÇÕES À LUZ DA PSICANÁLISE DE FREUD.

Estevão S. Sá – é Psicanalista e Psicólogo – Brasília – DF 

O objetivo deste trabalho é compreender, segundo a psicanálise freudiana, qual a relação entre religião e narcisismo e, consequentemente, como estes fenômenos influenciam na constituição do indivíduo religioso.

Ciccarelli (2012) comenta sobre possíveis motivações para pesquisas psicanalíticas:

O primeiro passo para a elaboração de um projeto de pesquisa é o tema da pesquisa. Na maioria das vezes, este tema vem de uma das várias indagações que o pesquisador se faz ao longo de seu trabalho teórico-clínico. Neste momento o futuro pesquisador, busca ajuda na teoria, o que pode até levar a um questionamento desta última. Muitas vezes, o trabalho da pesquisa é uma tentativa de resposta ao profundo desconforto entre o que a teoria diz, e aquilo que a clínica informa. (CICCARELLI, 2012, p. 141-142)

Sobre a importância da religião na unificação social, Harari (2016) faz considerações.

Hoje a religião é, muitas vezes, considerada uma fonte de discriminação, desavença e desunião. Mas, na verdade, a religião foi o terceiro maior unificador da humanidade, junto com o dinheiro e os impérios. Uma vez que todas as hierarquias e ordens sociais são imaginadas, elas são todas frágeis, e, quanto maior a sociedade, mais frágil ela é. O papel histórico crucial da religião foi dar legitimidade sobre-humana a essas estruturas frágeis. As religiões afirmam que nossas leis não são resultado de capricho humano, e sim determinadas por uma autoridade suprema e absoluta. Isso ajuda a tornar inquestionáveis pelo menos algumas leis fundamentais, garantindo, desse modo, a estabilidade social. (HARARI, 2016, p. 218).

As religiões, desde o início, eram constituintes da moral humana, onde estabeleciam regras de convivência. Inicialmente as religiões não eram universais e missionárias, diferentes das grandes religiões que conhecemos hoje em dia, como o Cristianismo, Islamismo e Budismo, em que nas quais se vê um grande desejo de propagação dos seus dogmas.Para tanto, financiam missionários para irem a regiões longínquas para disseminar suas crenças e converterem os infiéis.Cada uma das pequenas religiões estavam localizadas em uma região específica e seus seguidores não buscavam propagar sua referida crença, e sim, somente viver conforme seu conjunto de regras e crenças. O animismo, por exemplo, tinha um conjunto de crenças em que se levava em consideração os interesses de uma infinidade de seres, como animais, plantas e espíritos, assim caçadores e agricultores limitavam suas práticas conforme o respeito com a natureza. Este exemplo mostra a tendência das religiões serem locais, enquadrando-se às características e demandas da região. (HARARI, 2016, p. 219).

Com o desenvolvimento da sociedade e o surgimento da revolução agrícola, o animismo perdeu força, pois animais e plantas que antes eram respeitados e portadores de espíritos que instituíam regras de cultivo, agora não o são mais. Nesse momento o surgimento dos deuses é algo importante, pois as plantas e os animais perdem sua voz. Portanto, alguémpoderia ponderar: então os deuses faziam a mediação entre os seres humanos e a natureza, dando fala a ela. Isto foi melhor observado na mitologia grega em que o culto aos deuses garantia domínio sobre a natureza. (HARARI, 2016, p. 220).

É possível observar então a característica presente no surgimento das religiões no seio da humanidade, onde a religião sempre se vincula à necessidade humana de controlar seres e fenômenos que não são passíveis de controle natural. O politeísmo, por exemplo, ganhou força quando os impérios começaram a se expandir. Com a expansão não era mais possível um deus local e particular de uma região governar uma grande quantidade de regiões, comércios e práticas, daí a necessidade de ter vários deuses para realizar as tarefas. (HARARI, 2016, p. 220-221).

Quanto ao desenvolvimento do monoteísmo, Harari (2016) cita que:

Com o tempo alguns seguidores de divindades politeístas apegaram-se tanto a seu deus que acabaram por se afastar da ideia politeísta básica. Eles começaram a acreditar que seu deus era o único Deus, e que Ele era, na verdade, o poder supremo do universo. Porém, ao mesmo tempo, continuaram a vê-Lo como tendo interesses e inclinações, e acreditaram que poderiam chegar a acordos com Ele. Assim nasceram as religiões monoteístas, cujos seguidores rogam ao poder supremo do universo auxilio para se recuperar de uma doença, ganhar na loteria e vencer uma guerra. (HARARI, 2016, p. 225).

A religião é um fenômeno social e individual importante na constituição da cultura e da civilização humana, auxiliando os indivíduos a darem significado a fatores que não entendem, que se sentem ignorantes a respeito e desamparados devido ao medo do desconhecido. Como diz Sanshes (2008):

A religião teria, então, a ver com a cultura? Dir-se-ia: tudo a ver. E tudo o que se acabou de dizer da cultura, inclusive a mudança contemporânea na sua situação real e na sua apreensão teórica, poderia analógica –ou metonimicamente – aplicar-se à religião. A religião também pretende fornecer ao ser social uma visão do mundo – uma representação particular, com suas categorias próprias, que torna o mundo intelectual e emocionalmente apreensível (Deus, deuses, orixás, anjos, santos, criação, congregação, igreja, autoridade, verdade…). Tudo isso compõe um mundo particular e o organiza e tudo isso, para o fiel, faz do mundo genérico o seu mundo. Como o faz a cultura. Mas, além disso, a religião maneja categorias que atingem a subjetividade do fiel neste mundo, impulsionam sua ação, orientam e qualificam o seu comportamento externo e suas atitudes profundas (dependência, oração, louvor, sacramento, magia, pecado ou simplesmente erro, o sentido, afinal, do comportamento): um motivo para viver e um modelo para a vida. (SANSHES, 2008,p. 76-77).

A religião auxilia o indivíduo a ter um sentido de existência humana, de mundo e de uma cosmo visão, é neste aspecto que a religião se constitui como cultura. Coloca em jogo uma totalidade do mundo, dá um certo dinamismo para viver e também a um jeito de viver ético. (SANSHES, 2008).

A religião não está vinculada somente à subjetividade do indivíduo em que o ajuda a compreender a realidade de maneira diferente, portanto, tendo apenas utilidade individual, a religião vai além das fronteiras individuais, trazendo diversas contribuições na formação da sociedade e da cultura de um povo. A cultura social pode modificar-se conforme a religião proferida, e também de acordo com o momento histórico vivido pela sociedade, assim podendo modificar, reciprocamente, o sentido da religião para o povo, e consequentemente suas influências e ensinamentos. (XAVIER, 2007, p. 14).

Na Antiguidade por exemplo, a religião estava presente nas manifestações de uma religiosidade mitológica, eram os mitos que explicavam os desafios da realidade. Já na Idade Média, com o advento do Cristianismo, os 14 desafios da vida eram entendidos a partir da ótica da Teologia, motivo pelo qual este período é chamado de Teocêntrico.(XAVIER, 2007, p. 14-15).

Por sua vez, Freud também contribui para a discussão que engloba a mente humana, religião e civilização. O primeiro texto do autor sobre o assunto foi escrito em 1907 e chama-se ‘‘Atos obsessivos e práticas religiosas’’ onde Freud irá falar sobre às semelhanças entre os atos obsessivos presentes na neurose obsessiva e as práticas religiosas presentes na religião. Conforme o texto, o autor buscará esclarecer sua percepção que, na verdade, a religião seria uma neurose obsessiva universal, em que suas práticas obsessivas, diferentes na neurose obsessiva comum, será compartilhada e dotada de sentido religioso,evidenciando não somente as semelhanças, mas também as diferenças, pois, para o neurótico obsessivo, os atos obsessivos geralmente têm origem nas pulsões sexuais reprimidas, e para o religioso teria origem nas estruturas egóicas.

Tais práticas seriam de grande utilidade para os indivíduos, pois geralmente as práticas se constituem em ritualização de práticas cotidianas e privações durante seu dia-a-dia. Mesmo que essas práticas não são dotadas de sentido consciente, demonstram uma realização inconsciente por meio da renúncia, pois quando não é realizada a renúncia o indivíduo é invadido por uma ansiedade expectante que está intimamente ligada com a culpa que o indivíduo carrega por sentir tais pulsões moralmente não aceitas.

Freud retomou o tema da religião em “O Futuro de uma Ilusão” (1927). Neste texto, Freud discutirá que a religião, na verdade, é uma ilusão. O homem, para se constituir em civilização, tendo que conviver em conjunto, viu-se na necessidade de reprimir suas pulsões instintuais. A sociedade espera que o homem abstenha-se de tais pulsões, com a finalidade de tornar-se possível a vida comunitária, onde as instituições e as ordens auxiliam nesta tarefa, protegendo-o dos seus impulsos hostis. A função da identificação para o homem civilizado é importante, pois, por meio da identificação com um líder que tem a capacidade de abandonar suas pulsões, fica mais fácil de o conseguir também.

Neste momento da obra de Freud é importante compreender o que seria o conceito de ‘‘identificação’’. Segundo Laplanche e Pontalis (2001 p. 226), a identificação seria o ‘‘Processo psicológico pelo qual o sujeito assimila um aspecto, uma propriedade, um atributo do outro e se transforma, total ou parcialmente, segundo o modelo desse outro. A personalidade constitui e diferencia-se por uma série de identificações. ’’.

Há a necessidade de o indivíduo conseguir internalizar tais regras civilizatórias em sua constituição como sujeito social. Quem realiza a internalização seria o superego, formando-se ao final do Complexo de Édipo, que teria a função de constituir intimamente a moral e as regras sociais que o indivíduo irá tomar para si. Abster-se de suas pulsões também tem função narcísica, pois desta maneira a civilização mais moral e capaz de se manter civilizada será tida como superior. Existem dois tipos de narcisismo:o primário e o secundário. Segundo Laplanche e Pontalis (2001 p. 290) os narcisismos seriam ‘‘O narcisismo primário designa um estado precoce em que a criança investe toda a sua libido em si mesma. O narcisismo secundário designa um retorno ao ego da libido retirada dos seus investimentos objetais. ’’.

A religião vem pela necessidade do homem em se constituir no mundo com todos os medos e incertezas que são experimentadas em sua existência, e com a impossibilidade de controlar fenômenos naturais como a morte e desastres naturais. Nesta impossibilidade de controle, o homem se vê em uma posição infantil em que precisa de um pai que consiga controlar essas forças para ele. A devoção aos deuses ganha sentido quando o homem vê que essas forças, antes imprevisíveis e incontroláveis, ganham uma personificação e humanização, podendo assim se aproximar de seus deuses e convencê-los a usar seus poderes para beneficiar os seus devotos. Com esta possibilidade, o homem consegue conviver melhor com seu narcisismo ferido, e ganha um pai eterno e poderoso,que o fará bem se for um bom filho, obedecendo as regras instituídas pela religião e renunciando suas pulsões instintuais.

Nos textos, é possível perceber a relação desenvolvida por Freud entre a religião e o narcisismo do indivíduo praticante, visto que a religião teria uma função narcísica em sua estrutura e prática. Freud evidencia o porquê da necessidade e da importância da prática religiosa para seus devotos, e faz seus leitores entenderem, com mais clareza, qual o sentido e a influência da religião no aparelho psíquico do indivíduo,e qual a importância dela na constituição civilizatória e a sua função social.

No Brasil, por exemplo, as religiões predominantes são as cristãs, sem prejuízo de uma infinidade de outras religiões presentes no país,onde todas elas, com suas crenças, dogmas, regras e normas morais, ajudam, de forma significativa, na construção do controle através das crenças, leis, normais sociais e regras de convivência em geral adotadas pela sociedade.

1.    OBJETIVOS

1.1 GERAL

Investigar, nos textos freudianos, a concepção de Freud quanto à religião e sua possível relação com o conceito de narcisismo.

1.2 ESPECÍFICO

  1. Investigar os textos freudianos, em especial em ‘‘Atos obsessivos e Práticas Religiosas’’ e “O Futuro de uma Ilusão”em busca da concepção freudiana de religião;
  2. Investigar a relação entre o conceito de narcisismo e as ideias de Freud sobre a religião presentes nestes textos.

METODOLOGIA

 

Para Ciccarelli (2012) a metodologia tem um papel especifico dentro do projeto de pesquisa.

 Dentre as diversas partes que compõem o Projeto de Pesquisa, a Metodologia é aquela que especifica que esclarece os procedimentos que o pesquisador utilizará para alcançar seus objetivos. Ou seja, a metodologia descreve a maneira, o método, a ser utilizado para que a pesquisa seja levada a cabo a contento: trata-se então de definir o método.

Método vem do latim tardio MÉTHODOS, palavra composta de META eHODÓS: “via, caminho”, já indicando o sentido – a direção e o propósito – de uma investigação. Podemos dizer que ao falar de método estamos falando, implicitamente, de um caminho a seguir, a ser atravessado, para se chegar a um lugar que está mais ou menos indicado, pelo ponto de partida no início da jornada. (CICCARELLI, 2012, p. 137).

Este trabalho é caracterizado como uma pesquisa qualitativa, pois há um aprofundamento nas questões abordadas, não enfatizando estatísticas. Dentro de uma abordagem psicanalítica é imprescindível a abordagem qualitativa, pois se lida com casos e características comuns a todos os sujeitos, tendo a intenção de estudar a fundo um caso em que há certa característica ou sintoma.Ao analisar este caso, é possível formular teorias comuns a outros indivíduos que têm os mesmos sintomas e características. (SAMPAIO, 2006, p. 249).

Para auxiliar na compreensão do método da pesquisa qualitativa, Sampaio (2006, p. 249), faz-se uma pergunta ‘‘Como Freud produziu/criou conhecimento? ’’e cita Mezan (1993, p. 115 apud SAMPAIO, 2006, p. 250):

(…) é possível descrever e compreender a maneira pela qual se constitui a elaboração teórica de um psicanalista e que estas elaborações apresentam características que as aparentam às formulações científicas: coesão interna, comunicabilidade, verificabilidade e cumulatividade (1993, p. 115).

O método de pesquisa em psicanálise visa a interpretação de um sentido ou conjunto de significações que se dá entre o pesquisador e o pesquisado (SAMPAIO, 2006, p. 250).

Este trabalho é caracterizado também como um estudo teórico exploratório, sendo uma pesquisa bibliográfica de alguns textos de Freud, e tem o objetivo de explorar, com maior clareza, as opiniões que Freud levanta em seus textos vinculados com a religiosidade. Conforme este objetivo, o trabalho ganha o caráter de pesquisa exploratória.

Segundo Gil (2008, p. 41), esse tipo de pesquisa tem o intuito de proporcionar maior familiaridade com o tema pesquisado, torná-lo mais explícito e construir possíveis hipóteses. Na maioria dos casos, esse tipo de pesquisa envolve levam tanto bibliográfico; entrevistas com pessoas que tiveram experiências práticas com o problema pesquisado; e análise de exemplos que ‘‘estimulem a compreensão’’. O conteúdo deste trabalho está adstrito ao levantamento bibliográfico e também análises que auxiliam na compreensão do tema pesquisado.

A pesquisa bibliográfica,conforme Gil (2008, p. 44), é construída com base em materiais já elaborados, usando principalmente livros e artigos científicos. No presente trabalho são usados alguns textos de Freud extraídos em alguns dos seus livros visando analisar as posições do autor frente ao tema abordado.

Ciccarelli (2012) fala sobre a diferença do método de pesquisa psicanalítico comparado a outros métodos mais conhecidos.

Diferentemente de outras áreas do conhecimento, o objeto de pesquisa em psicanálise, a hipótese a ser verificada, não é algo que poderá ser trabalhado através de uma observação direta. Não faz sentido, dentro da visão psicanalítica, propor um experimento onde se fará uma observação de um determinado fenômeno para se comprovar a hipótese. Não podemos submeter alguém a uma experiência traumática para comprovar a veracidade da teoria do trauma. Tal procedimento é impensável, não apenas por óbvias razões éticas, mas por ser impossível prever a dinâmica psíquica responsável pela causalidade inconsciente. Tampouco podemos trabalhar com uma extensa pesquisa feita a partir de um questionário previamente elaborado o qual, após cuidadosa análise e comparação dos dados revelados dentre de critérios previamente estabelecidos, chegar-se-ia à uma conclusão que confirmaria, ou não, a hipótese enunciada.(CICCARELLI, 2012. p. 140).

A fonte bibliográfica em questão está vinculada à classificação que Gil (2008, p. 44) propõe. Dentro das categorias de fontes bibliográficas, o presente trabalho usará, principalmente, textos de Freud publicados em uma edição brasileira das obras psicológicas de Sigmund Freud, sendo esses livros de referência informativos, que se constitui como livros de consulta, onde estão localizadas as obras que contêm informações sobre o tema trabalhado.

A principal vantagem da pesquisa bibliográfica, segundo Gil (2008, p. 45),é a cobertura de uma gama de fenômenos e informações muito amplas, possibilitando ao leitor cobrir o assunto com mais facilidade do que pesquisar diretamente sobre o tema da pesquisa. Sendo de grande extensão as obras de Sigmund Freud, é vantajosa tal metodologia de pesquisa por possibilitar uma discussão sobre esses dados que são, de certa forma, dispersos em sua obra.

Segundo Gil (2008, p.45), uma das desvantagens deste tipo de pesquisa é a qualidade dos dados obtidos, pois é necessário maior cuidado ao selecionar e usá-los para não comprometer a qualidade do trabalho reproduzindo erros cometidos nas pesquisas anteriores.Então faz-se necessário uma rigorosa verificação na qualidade dos textos pesquisados, e análise se a fonte e os dados são seguros. Ter cuidado também se fontes diversas não contradizem as informações fornecidas.

Esta pesquisa constitui-se numa investigação psicanalítica, qualitativa e exploratória. Investiga a possível relação entre as visões freudianas sobre a religião e o narcisismo. Para isto serão analisados os principais textos religiosos de Freud ‘‘Atos obsessivos e práticas religiosas’’ escrito em 1907 e ‘‘O Futuro de uma Ilusão’’ de 1927.

RESULTADO E DISCUSSÃO

       4.1. Atos obsessivos e práticas religiosas

Freud (1907), em sua obra Atos Obsessivos e Práticas Religiosas, faz uma comparação da neurose obsessiva e as práticas que consistem em atos religiosos, discursando sobre as diferenças e semelhanças de tais elementos. É um texto importante para a compreensão da leitura de Freud em relação à religiosidade, onde é possível perceber a presença da religiosidade nas pessoas neuróticas, perceber as diferenças importantes na compreensão de sentido diferenciando como o neurótico vivencia a obsessão e o religioso vivencia as práticas religiosas.

Freud, neste texto, explicita sua ideia sobre os sintomas presentes na neurose obsessiva, suas motivações e a forma que o neurótico lida com ela. O autor explica que o neurótico obsessivo é caracterizado por realizar certas alterações em suas ações durante seu dia, podendo acrescentar práticas ou restringi-las. Importante também é manter sempre a mesma ordem em sua realização, podendo haver modificações regulares conforme o ritual obsessivo.

Inicialmente os atos obsessivos e as práticas ritualizadas podem parecer sem sentido, tanto para quem observa quanto para o próprio neurótico. Porém mesmo com esta característica de falta de sentido o neurótico não consegue renunciá-la, pois se o fizer é tomado por uma ansiedade expectante, assim obrigando-o a voltar às suas práticas obsessivas. Tal ansiedade provém de uma culpa inconsciente alojada no indivíduo e que pode ter origens desconhecidas. O neurótico acredita que algo ruim irá acontecer caso não faça a prática ritualizada e sente alívio da cruel ansiedade somente quando realiza a referida prática ritualística. (FREUD, 1907, p. 109-110).

Para que a vida em civilização seja possível, é necessária a repressão de impulsos instintuais na formação dos indivíduos,embora essa repressão do instinto nem sempre é bem-sucedida tendo como resultado a neurose obsessiva, quando então surge o mal-estar, o desequilíbrio e conflito psíquico, por que o instinto ou desejo reprimido não desaparece ou perde força no inconsciente, mas ao contrário, continua a exercer pressão à consciência para nela retornar e se satisfazer na sua realização. O resultado é que o indivíduo se vê constantemente ameaçado, pois há o desejo real de realização do instinto reprimido. Essa insegurança proveniente da possibilidade de ceder a esta pressão instintual traz grande mal-estar para o sujeito civilizado. A ansiedade é proveniente da pressão do instinto reprimido sobre a consciência do neurótico, assim tomando conta do futuro por uma ansiedade expectante. (FREUD, 1907, p. 114).

No caso das neuroses, o conflito entre a repressão e a pulsão está sempre presente.

O aparelho psíquico do indivíduo necessitará sempre reprimir os instintos inconscientes. Deste modo, surge a necessidade dos atos obsessivos que ajudariam o indivíduo a se defender da pressão instintual, protegendo-se da ansiedade que surge pela não realização dos atos obsessivos. Esta ansiedade é danosa ao indivíduo, pois surge a sensação que algo ruim ocorrerá se tais práticas obsessivas forem renunciadas. (FREUD, 1907, p. 114-115).

Freud, ao falar das obsessões vividas pelos neuróticos, ressalta a importância de poder conviver com ansiedade que aparece durante seu dia a dia, e que é controlada pelos sintomas, por meio de modificações, acréscimos, restrições ou arranjos de atos e comportamentos, onde é importante a ritualização de tais atos para serem mantidos em uma ordem especifica ou sua modificação regulada. O curioso é que muitas vezes, para o indivíduo, aquela ação está destituída de sentido, porém a presença da ansiedade faz com que a ritualização seja importante, já que a realização correta e controlada do ritual diminui a ansiedade, auxiliando o neurótico a conseguir viver consigo mesmo. (FREUD, 1907, p. 109).

Geralmente o ritual do neurótico é particular e específico, não sendo compartilhado com outra pessoa. A interrupção de tal prática pode ser desastrosa para o seu realizador, aumentando sua ansiedade e sintomas provenientes da abstinência. (FREUD, 1907, p. 110). Mais à frente, será diferenciada a característica da particularidade do ritual do neurótico obsessivo e do ritual do religioso. Diferenciação essa muito importante para entender as semelhanças e diferenças que existem entre a neurose obsessiva e as práticas religiosas.

Vários rituais presentes no dia a dia do neurótico obsessivo têm características de proibição e impedimentos. Alguns atos são completamente proibidos para o sujeito, e outros somente serão permitidos depois de realizar seus rituais (FREUD, 1907, p. 110). Essas proibições seriam formas de autopunição por uma culpa incrustada em seu superego? Surge-se a ansiedade quando o sujeito, culpado pela moralidade do superego, depara-se com a impossibilidade de realizar a idealização de si mesmo proveniente do ideal do ego.Para que possa conviver melhor com seus erros, seria necessário realizar tais atos sem falhas?

É fácil perceber onde se encontram as semelhanças entre cerimoniais neuróticos e atos sagrados do ritual religioso: nos escrúpulos de consciência que a negligência dos mesmos acarreta, na completa exclusão de todos os outros atos (revelada na proibição de interrupção) e na extrema consciência com que são executados em todas as minúcias. Mas as diferenças são igualmente obvias, e algumas tão gritantes que tornam qualquer comparação um sacrilégio: a grande diversidade individual dos atos cerimoniais [neuróticos] em oposição ao caráter estereotipado dos rituais (as orações, o curvar-se para o leste, etc.), o caráter privado dos primeiros em oposição ao caráter público e comunitário das práticas religiosas, e acima de tudo o fato de que, enquanto todas as minúcias do cerimonial religioso são significativas e possuem um sentido simbólico, as dos neuróticos parecem todas e absurdas. (FREUD,1907, p. 110-111).

Ao tratar dos rituais religiosos, Freud evidencia as semelhanças entre os rituais obsessivos do neurótico e das práticas religiosas devido à necessidade de expressar motivos e ideias inconscientes. Porém há diferenças, enquanto o cerimonial religioso possui símbolos públicos e compartilhado que legitima a prática religiosa, para os neuróticos obsessivos o simbolismo não tem legitimidade pública, pois os símbolos neuróticos não são compartilhados e sim privados, portanto tornando as práticas absurdas e tendo sentido somente para o indivíduo praticante.

Mesmo com o símbolo compartilhado e público no seio da religião, não é suficiente para constituir motivos que façam com que a ritualização seja justificável. Os motivos da ritualização dentro da religião do neurótico ainda são destituídos de sentido, então é possível que outros possam elaborar o sentido para o crente.É possível essa formulação de terceiros nas práticas religiosas porque tais práticas não são privadas, e sim públicas e compartilhadas, muitas vezes sendo realizadas em conjunto, como orações, campanhas, jejuns e etc. (FREUD, 1907, p. 113). Esta aquisição de sentido para o ritual religioso proveniente do outro é possível pela identificação que o religioso tem com este outro? Instituir poder a alguém, como autoridades espirituais, pastores ou bispos fazem referência à necessidade de um líder que consegue reprimir impulsos instintuais que Freud fala anos à frente em seu texto Futuro de uma Ilusão?

Podemos dizer que aquele que sofre de compulsões e proibições comporta-se como se estivesse dominado por um sentimento de culpa, do qual, entretanto, nada sabe, de modo que podemos denominá-lo de sentimento inconsciente de culpa, apesar de aparente contradição dos termos. Esse sentimento de culpa origina-se de certos eventos mentais primitivos, mas é constantemente revivido pelas repetidas tentações que resultavam de cada nova provocação. Além disso, acarreta um furtivo sentimento de ansiedade expectante, uma expectativa de infortúnio ligada, atrás da ideia de punição, à percepção interna da tentação. Quando o cerimonial é formado, o paciente ainda tem consciência de que deve fazer isso ou aquilo para evitar algum mal, e em geral à natureza desse mal que é esperado ainda é conhecida em sua consciência. Contudo, o que já está oculto dele é a conexão – sempre demonstrável – entre a ocasião em que essa ansiedade expectante surge e o perigo que ela provoca. Assim o cerimonial surge com um ato de defesa ou de segurança, uma medida protetora. (FREUD, 1907, p. 113-114).

Para Freud,a formação dos atos obsessivos tanto quanto às práticas religiosas tem suas semelhanças devido à necessidade de proteger-se do sentimento ruim advindo da ansiedade que surge quando tais práticas são rejeitadas. A elaboração dessas práticas serve para proteger o indivíduo quanto ao dano à consciência. Ambos têm a necessidade da não interrupção do ato obsessivo ou religioso e da certeza que são realizados com todos os detalhes.

É possível também perceber a semelhança no motivo inconsciente da formação e realização dos atos e das práticas religiosas. Ambos são provenientes de uma culpa acalantada pelo indivíduo.No neurótico obsessivo esta culpa está relacionada à sexualidade, mas para o religioso a culpa está ligada ao ego. A culpa está adstrita à repressão de impulsos instintuais devido à pressão que a consciência sofre, com isso, quando o instinto tenta se realizar, gera uma ansiedade expectante, que, para o neurótico obsessivo e o religioso, se não realizar seus atos obsessivos ou sua religiosidade, algo ruim poderá acontecer.

A culpa inconsciente, para o neurótico, está intimamente ligada à necessidade da realização de tais práticas obsessivas. Entretanto para o religioso geralmente o impulso instintual reprimido não está ligado à sexualidade, e sim ao ego.

A formação de uma religião parece basear-se igualmente na supressão, na renúncia, de certos impulsos instintuais. Entretanto, esses impulsos não são componentes exclusivamente do instinto sexual, como no caso das neuroses; são instintos egoístas, socialmente perigosos, embora geralmente abriguem um componente sexual. Afinal, o sentimento de culpa resultante de uma tentação continua e a ansiedade expectante sob a forma de temor da punição divina nos são familiar há mais tempo no campo da religião do que no da neurose.(FREUD1907. p. 115).

A culpa surge no indivíduo quando ele se depara com a necessidade da realização do instinto pulsional reprimido. Pulsão esta que constantemente vêm exercendo pressão à consciência para sua concretização.

Freud, na época que escreveu este texto, ainda não tinha desenvolvido o conceito de narcisismo, porém durante o seu desenvolvimento é possível notar esboços de tal conceito que futuramente seria melhor elaborado. No ritual religioso são evidentes os ganhos narcísicos que são adquiridos, pois diferentemente do neurótico obsessivo, os impulsos instintuais que são reprimidos no religioso são egoístas. Surge então a importância da repressão de tais instintos, pois se não reprimidos a punição divina é uma possibilidade. Mais adiante em suas obras, Freud irá falar com mais detalhes a importância de ter um deus. Esta importância virá do sentimento infantil. Sentimento este proveniente do narcisismo ferido do homem que, mesmo depois de adulto, ainda não consegue controlar as forças naturais, assim necessitando de um deus que o consiga, e também a necessidade da aproximação desse deus para que o proteja das forças em comento. A formação desse deus e a aproximação dele faz com que o narcisismo do homem seja restaurado, assim fazendo com que sua existência, em um mundo onde as principais forças fogem a seu poder, seja menos dolorosa.

As pulsões egóicas seriam moralmente erradas para o indivíduo civilizado.

A cada nova vivência de desejos reprimidos, surge culpa e ansiedade. Desta maneira a ansiedade estaria adstrita à percepção da presença de tal pulsão primitiva, assim tendo a necessidade de punição desenvolvida pelo indivíduo devido à sua moralidade. No início da formulação do ritual obsessivo, o indivíduo tem consciência que é necessário realizá-lo para que o pior não aconteça. O sentimento que algo ruim acontecerá virá com a ansiedade expectante, assim dando a sensação que se tal ato obsessivo não for realizado algo não desejado ocorrerá.

A funcionalidade da neurose obsessiva é que dentro de suas manifestações sintomáticas é possível que o indivíduo consiga reconciliar forças divergentes dentro de sua mente.

Os sintomas auxiliam o indivíduo a ter uma sensação de realização de suas pulsões reprimidas.

Uma outra característica da neurose obsessiva, e de todas as enfermidades semelhantes, é que suas manifestações (seus sintomas, inclusive os atos obsessivos) preenchem a condição de ser uma conciliação entre as forças antagônicas da mente. Essas manifestações reproduzem, assim, uma parcela daquele mesmo prazer que pretendiam evitar, e servem ao instinto reprimido tanto quanto as instancias que o estão reprimindo. (FREUD, 1907. p. 115).

É possível notar que a religião é pautada em renúncias de vontades e desejos humanos, em que para a realização de uma doutrinação será necessário e submeter-se a vários tipos de proibições e práticas, que em sua maioria não são prazerosas. A realização de tais práticas, dentro da religião, seria uma tentativa do indivíduo conviver com menos culpa em relação a seus desejos reprovados pela religião, conseguindo assim ter uma existência mais prazerosa e pacífica consigo mesmo. O temor da punição divina torna-se mais forte quando o indivíduo sente-se culpado por suas pulsões e desejos, por isso a necessidade da realização das práticas religiosas, pois a partir delas o indivíduo redime-se em sua falha, com o pai e consequentemente volta a ser o filho amado. A redenção é possível com a renúncia de vontades e desejos humanos. Esta renúncia é uma forma de punir-se por seus instintos pulsionais. Negando tais pulsões, o indivíduo se sente melhor consigo mesmo, pois está negando suas pulsões egoístas e socialmente danosas. No contexto religioso o indivíduo, que nega tais pulsões egóicas, será melhor aceito entre os membros religiosos, seus líderes que são alvo de identificação e consequentemente e sentir-se-á mais amado pelo deus da religião que professa.

A natureza humana pecaminosa pregada pela religião cristã estará sempre presente no indivíduo, e a necessidade de redenção perante o pai perfeito torna-se real, pois o medo da punição divina e da orfandade, para os religiosos, é insuportável e geradora de ansiedade expectante, por isso é necessário redimir-se privando de uma vida prazerosa por meio de suas práticas religiosas.

Freud (1907, p.115) afirma que, em comparação aos neuróticos, os indivíduos piedosos são mais propícios a se deixarem cair no pecado,pois no perdão é possível fundar-se uma nova atividade religiosa: os atos de penitência que têm seu correlatos na neurose obsessiva.

A partir desta ideia de Freud, este autor pode imaginar uma utilidade das práticas religiosas seus praticantes. Com a possibilidade de terem certas práticas de perdão e alívio, o indivíduo poderia cair em pecado quando quiser, já que as práticas auxiliar-nos a se redimir  consigo mesmo, com a instituição religiosa, e com seu deus.

Sem a prática religiosa, o indivíduo pecaminoso teria uma grande dificuldade em se redimir, a culpa seria mais presente e a ansiedade expectante ganharia mais sentido. Para o religioso é de grande importância ter essa possibilidade de realização de suas pulsões de vez em quando, ganhando um caráter egoísta e de realização narcísica, abandonando, por algum momento, seu agente super egóico, podendo lembrar-se dele novamente quando for realizar seus rituais, e redimindo-se de qualquer culpa que o aflija.

O caráter de conciliação que os atos obsessivos possuem em sua qualidade de sintomas neuróticos não é tão evidente nas práticas religiosas correspondentes. Mas também nestas descobrimos esse aspecto das neuroses quando lembramos a frequência com que são cometidas, justamente em nome da religião e aparentemente por sua causa, todos os atos proibidos pela mesma – ou seja, as expressões dos instintos por ela reprimidos.(FREUD,1907, p. 116).

Considerando as semelhanças presentes na neurose obsessiva e os correlatos patológicos de uma formação religiosa, Freud (1907, p. 116) parece considerar então a neurose como uma religiosidade individual, e a religião como uma neurose obsessiva universal, pois esta não é privada para o indivíduo que a pratica, mas sim compartilhada em templos, ideologias e filosofias de vida, compartilhando as mesmas crenças e regras. A maior semelhança entre as neuroses em comento seria a renúncia de instintos pulsionais primitivos, que, na neurose obsessiva, tais pulsões seriam, em sua maioria,de origem sexual, enquanto que na religião seria de origem egoísta.É possível analisar esta ideia de Freud como uma inicial ideia de narcisismo, que por enquanto não estaria desenvolvida pelo autor, porém mais à frente, em seus textos religiosos, fica mais claro tal semelhança, dando a entender que a religião, na verdade, está a serviço de um narcisismo ferido do indivíduo que professa a religião. A religião exerce um papel importante na reestruturação do narcisismo do indivíduoque se vê na impossibilidade de lidar com certos desconhecimentos presentes na vida, fazendo com que a existência do indivíduo que tem um deus seja menos desamparada, ajudando a reconstruir um narcisismo que foi machucado pelo sentimento de desamparo, comparando o indivíduo ferido narcisicamente com uma criança precisando de um pai, frente ao desconhecido e a impossibilidade de controlá-lo.

Com essa citação de Freud, é possível perceber a relação íntima entre a religião e os ganhos egóicos que tem o indivíduo praticante, sendo possível compartilhar as práticas, que inicialmente podem não ter um sentido claro, mas quando compartilhadas e aprovadas por um grande número de pessoas, tais práticas ganham mais sentido. A realização pulsional de instintos e desejos socialmente nocivos é parcialmente possível por meio da renúncia. Esta renúncia será feita para os deuses, assim proporcionando prazer ao ego. O pecado moral instituído torna-se realizável, devido à possibilidade de redimir penalizando-se e o sentimento que acompanha a religião desde o início, identificação com o pai transcendental, é possível.A renúncia progressiva aos instintos constitucionais, cuja ativação proporcionaria o prazer primário do ego, parece ser uma das bases do desenvolvimento da civilização humana. Uma parcela dessa repressão instintual é efetuada por suas religiões, ao exigirem do indivíduo que sacrifique à divindade seu prazer instintual: ‘a vingança é minha, diz o Senhor’. No desenvolvimento das religiões antigas, pode-se ver que muitas coisas a que a humanidade renunciou como sendo ‘iniquidades’ havias sido abandonas à divindades e ainda eram permitidas em seu nome, de modo que a atribuição a ela dos instintos maus e socialmente nocivos era o meio com o homem se libertava da dominação deles. Por isso, e não por causalidade, todos os atributos humanos, inclusive os crimes que deles derivam, foram imputados, num grau ilimitado, aos deuses antigos. Nem tampouco é uma contradição que, apesar disso, não fosse permitido ao homem justificar suas próprias iniquidades com o exemplo divino.(FREUD,1907, p. 117).

4.2. O futuro de uma ilusão

Freud (1927), em sua obra “O Futuro de uma Ilusão” irá descrever sobre seus pensamentos em relação ao futuro da religião na sociedade. Segundo ele, a religião seria uma ilusão, não por ser um elemento que não existe, mas por que é um elemento necessário para o ser humano. Freud considera a religião como algo criado pelo homem por pura necessidade, para fazer com que sua existência na terra, diante de várias forças como a morte e os fenômenos naturais que não são compreendidas ou controladas, sejam menos perturbadoras e desamparadas.         No início de sua obra, Freud (1927, p. 16) começa falando sobre a civilização humana, como é doloroso e sacrificante para o homem viver em sociedade devido a seus impulsos hostis, sexuais e agressivo.  Para a civilização existir seria necessário manter esses impulsos contidos e controlado por regras sociais, leis e instituições, para ser possível a vida civilizada e em sociedade. Os impulsos hostis do homem visam conquistar e subjugar a natureza conforme seus desejos, porém em sociedade é necessário que o homem contenha seu impulso que seja possível acivilização, propagação e continuação da vida humana.    

Pensar-se-ia ser possível um reordenamento das relações humanas, que removeria as fontes de insatisfação para com a civilização pela renúncia a coerção interna, os homens pudessem dedicar-se à aquisição da riqueza e à sua fruição. Essa seria a idade de ouro, mas é discutível se tal estado de coisas pode ser tornado realidade. Parece, antes, que toda civilização tem de se erigir sobre a coerção e a renúncia ao instinto; sequer parece certo se, caso cessasse a coerção, a maioria dos seres humanos estaria preparada para empreender o trabalho necessário à aquisição de novas riquezas. Acho que se tem de levar em conta o fato de estarem presentes em todos os homens tendências destrutivas e, portanto, anti sociais e anti culturais, e que, num grande número de pessoas, essas tendências são suficientemente fortes para determinar o comportamento delas na sociedade humana. (FREUD, 1927, p. 17).

Freud fala então sobre a importância de haver líderes dentro da civilização humana, pois segundo ele ‘‘… as massas são preguiçosas e pouco inteligentes…’’(1907, p. 17).

A massa necessita-se de um líder para continuar renunciando seus instintos, visto que tem a tendência de apoio mútuo entre indivíduos, e dar rédea à indisciplina. O líder com bastante influência com seus liderados é possível influenciar o comportamento da massa por seu próprio comportamento. Se este líder tiver o comportamento de acordo com as regras civilizatórias, a massa seguirá seu exemplo e consequentemente irá conseguir renunciar a seus instintos com mais facilidade, assim tornando suportável esta renúncia. É necessário que tais líderes tenham uma compreensão interna superior quanto às necessidades da vida e que sejam capazes de dominar seus desejos instintuais. Porém, se estes líderes sentirem sua posição ameaçada, é possível que comecem a ceder ao desejo da massa para satisfazer seus instintos e manter seu posto. Para evitar que tal fato ocorra, é necessário que o líder seja independente da massa e possa exercer seu poder independentemente. Para tanto, o que será necessário? Que este líder esteja egoicamente bem estruturado a ponto de não temer perder tal posto? Tenha seus posicionamentos bem estruturados a ponto de não ceder à massa quando pressionado?

A civilização possui meios para defende-se, usa medidas de coerção, punição, entre outras regras de controle, com o intuito de fazer com que o homem consiga sobreviver conforme suas exigências. Punindo-o quando não age de acordo com suas regras e exigências de existência. Quando se corrige o homem, e ele passa a viver no seio da comunidade em obediência,esta recompensa-o pelos seus sacrifícios. Freud chama isto de vantagens mentais da civilização. (FREUD, 1927, p. 20).

Em benefícios de uma terminologia uniforme, descrevemos como ‘frustração’ o fato de um instinto não poder ser satisfeito, como ‘proibição’ o regulamento pelo qual essa frustração é estabelecida, e como ‘privação’ a condição produzida pela proibição. O primeiro passo consiste em distinguir entre privações que afetam a todos e privações que não afetam a todos, mas apenas a grupos, classes ou mesmo indivíduos isolados. As primeiras são as mais antigas; com as proibições que as estabelecem, a civilização – quem sabe a quantos anos? – começou a separar o homem de sua condição animal primordial. Para nossa surpresa, descobrimos que essas privações ainda são operantes e ainda constituem o amago da hostilidade para com a civilização. Os desejos instintuais que sob elas padecem, nascem de novo com cada criança; há uma classe de pessoas, os neuróticos, que reagem a essas frustrações através de um comportamento associal. (FREUD, 1927, p. 20).

No curso do desenvolvimento humano, frequência da coerção externas aos desejos instituais do homem, necessária para a própria existência da civilização, essas coerções passam a não serem somente externas, mas sim internas, pois o homem, com o passar do tempo, começa a internalizá-las. Esta internalização é possível pelo agente mental do homem, o superego, fazendo com que essas coerções não sejam agora necessárias a todo o momento para que o homem obedeça às regras e leis civilizatórias, mas sim que seja incluído em seus mandamentos. As crianças passam por este processo de transformação, pois nascem puras e com seus desejos instintuais, porém com o superego internalizando as regras civilizatórias, junto com o desenvolvimento mental da criança, esta criança começa a tornar-se um ser moral e social, sendo de preciosa importância para o fortalecimento deste agente super egóico no campo psicológico para a propagação cultural. (FREUD, 1927, p. 21).

Há regras civilizatórias que Freud descreve Totem e Tabu (1913) que são inibidoras de violações repulsivas e condenatórias desde as primeiras civilizações, comoo assassinato e incesto. Dentro da civilização há inúmeras pessoas que se recusam à pratica de tais violações, porém que não se negam a praticar violações menos graves, como a avareza, impulsos sexuais e mentiras. Tais práticas são mais ‘‘encorajadas’’ se o indivíduo souber que não haverá alguma punição. (FREUD, 1927, p. 21).

Sobre o narcisismo do indivíduo dentro da cultura, Freud faz algumas pontuações.

A satisfação que o ideal oferece aos participantes da cultura é, portanto, de natureza narcísica; repousa em seu orgulho pelo que já foi alcançado com êxito. Tornar essa satisfação completa exige uma comparação com outras culturas que visaram a realizações diferentes e desenvolveram ideais distintos. É a partir da intensidade dessas diferenças que toda cultura reivindica o direito de olhar com desdém para o resto. Desse modo, os ideais culturais se tornam fontes de discórdia e inimizades entre unidades culturais diferentes, tal como se pode constatar claramente no caso das nações. A satisfação narcísica proporcionada pelo ideal cultural encontra-se também entre as forças que alcançam êxito no combate à hostilidade para com a cultura dentro da unidade cultural. Essa satisfação pode ser partilhada não apenas pelas classes favorecidas, que desfrutam dos benefícios da cultura, mas também pelas oprimidas, já que o direito a desprezar povos estrangeiros as compensa pelas injustiças que sofrem dentro de sua própria unidade. (FREUD, 1927, p. 23).

Com a satisfação do narcisismo dentro do âmbito cultural, quando o sujeito percebe que sua cultura faz mais sacrifícios instintuais que a outra, ele acha-se superior ao sujeito da outra cultura, passando a agir com hostilidade diante da outra cultura, mediante ostentação das suas diferenças. Esta satisfação não está adstrita somente aos senhores controladores e opressores da maioria, visto que à medida que a classe oprimida presencia as vitórias dos seus opressores que satisfazem seus desejos narcísicos, começa a admirá-lo e vê-los como ideais a serem seguidos e alcançados, ao invés de voltar-se contra eles.Diante desta constatação, é possível compreender as várias civilizações, embora submetidas a grandes malgrados e hostilidade dos seus senhores, sobreviveram a tanto tempo. Assim conseguimos entender a ligação emocional que as massas têm com seus senhores controladores, vendo-os não como indivíduos que os oprimem, mas sim como ideais a serem seguidos e alcançados. (FREUD, 1927, p. 23).

Freud (1927, p. 23) comenta que a arte seria uma das fontes de satisfação usadas pelo indivíduo para substituir as renúncias instintuais necessárias à civilização, e servindo-se de reconciliação do homem para com seus instintos renunciados. Porém a arte pode elevar seus sentimentos de carência e de identificação para o seio da sociedade, assim servindo como instrumento de partilhas de sentimentos emocionais profundos altamente valorizados.

O narcisismo natural do homem é altamente prejudicado pela vida em sociedade, tanto pela quantidade de privações instintuais, quanto pelo sofrimento impingido por outros homens. Adicionalmente, a natureza que o homem não consegue domar ou impor suas vontades, assim chamado de Destino, também inflige danos à existência do homem. Freud (1927, p. 26) pontua que esta condição de existência resultaria em um permanente estado de ansiedade e consequentemente causaria um grave prejuízo a seu narcisismo natural.

O homem, vendo-se ameaçado em sua existência por sua impossibilidade de compreender e controlar seu destino, exige consolação que será satisfeita quando conseguir despir-se do seu desconhecimento sobre a vida e o universo, adquirindo superação dos seus terrores mediante o entendimento daqueles e compreensão dos seus mistérios. O interesse prático, movido pela curiosidade humana, merece uma resposta. (FREUD 1927, p. 26).

A resposta é encontrada quando da associação dos elementos naturais incontroláveis com uma vontade advinda de sentimentos, da mesma forma que surgem em nossa alma humana,supondo-se que esses elementos partem de uma vontade. A morte agora não é algo espontâneo e inexplicável, mas sim um ato violento de uma Vontade maligna. A natureza não é somente a algo inerte, mas sim Seres que nos rodeiam e os conhecemos na nossa própria sociedade. Compreendendo os fenômenos naturais incontroláveis e indomáveis, o homem familiariza-se com essas formas e adota-as como forças provenientes de vontades conhecidas por ele, com isso, o desconhecimento torna-se mais suportável, auxiliando o indivíduo a sentir-se em casa, por assim dizer, frente ao sobrenatural, e, consequentemente,consegue lidar com a ansiedade da existência e seu narcisismo ferido. Humanizar a natureza e seus fenômenos, foi o melhor meio que o ser humano encontrou para lidar com sua impossibilidade de modificar tais forças, assim conseguindo lidar melhor com seu desamparo frente a isso. (FREUD, 1927, p. 26-27).

Frente a estes ‘‘super-homens’’ sobrenaturais, e o desejo de se aproximar deles, para assim controlá-los, Freud cita:

Contra esses violentos super-homens externos podem aplicar os mesmos métodos que empregamos em nossa própria sociedade; podemos tentar conjura-los, apaziguá-los, suborná-los e, influenciando-os assim, despojá-los de uma parte de seu poder. Uma tal substituição da ciência natural pela psicologia não apenas proporciona alivio imediato, mas também aponta o caminho para um ulterior domínio da situação. Por que essa situação não é nova. Possui um protótipo infantil, de que, na realidade, é somente a continuação. Já uma vez antes, nos encontramos em semelhante estado de desamparo: como crianças de tenra idade, em relação a nossos pais. Tínhamos razões para temê-los, especialmente nosso pai; contudo, estávamos certos de sua proteção contra os perigos que conhecíamos. (FREUD, 1927 p. 27).

Neste momento então Freud começa a falar sobre a necessidade do homem em ter um deus. O homem, diante da sua fraqueza e impossibilidade de manipular as forças naturais, associa esta força a um ser dotado de desejos compreendidos e manifestos na sociedade. É uma forma de humanizar a natureza para que seja possível se aproximar dela a ponto de conseguir manipulá-la e subjugá-la conforme seus desejos. Este ser que controla tais forças naturais ganha, pelo homem, um caráter de pai, transformando-o em um deus, porém não é somente um deus que não tem ligação com o homem, mas sim um deus com caráter filogenético, com isso, Freud (1927, p. 27) afirma que o homem, nesta posição, passa a ter um protótipo infantil.            Com o passar do tempo, o homem foi observando e compreendendo que tais forças naturais não têm regularidade e conformidade, com isso o homem perde a possibilidade de associar tais fenômenos naturais com os traços humanos, coisa que tentaram fazer inicialmente. Isso traz um grande sofrimento, por que o desamparo humano continua e com ele perderam o seu deus-pai que controlava essas forças, embora continue seu anseio pelo deus-pai. E continua também o desejo de exorcizar os terrores da natureza, de reconciliar os homens com a crueldade do Destino e de compreender as privações e proibições instintuais necessárias à vida civilizatória. (FREUD, 1927, p. 27-28).

Sobre os deuses que os homens necessitam, Freud fala:

Ficou sendo então tarefa dos deuses nivelarem os defeitos e os males da civilização, assistir os sofrimentos que os homens infligem uns aos outros em sua vida em conjunto e vigiar o cumprimento dos preceitos da civilização, a que os homens obedecem de modo tão imperfeito. Esses próprios preceitos foram creditados com uma origem divina; foram elevados além da sociedade humana e estendidos à natureza e ao universo. Foi assim que se criou um cabedal de ideias, nascido da necessidade que tem o homem de tornar tolerável seu desamparo, e construído com o material das lembranças do desamparo de sua própria infância e da infância da raça humana. Pode-se perceber claramente que a posse dessas ideias o protegem em dois sentidos: contra os perigos da natureza e do Destino, e contra os danos que o ameaçam por parte da própria sociedade humana. (FREUD, 1927 p. 28).

Para suportar a existência, frente a grandes dúvidas, impossibilidades e inúmeros fatores naturais que auxiliam no narcisismo ferido, é de extrema importância os ganhos que o homem consegue adotando deuses. Com seus deuses, a morte não é mais uma extinção, um estado de inexistência, mas sim um novo tipo de existência que fará com que o indivíduo passe por uma evolução assim alcançando algo mais elevado. Suas leis civilizatórias agora se estendem não somente ao seu mundo e ao seu povo, mas, representado pelos seus deuses, se estende ao universo, onde uma corte suprema de justiça poderosa e harmoniosa auxiliam em manter a justiça por toda a existência, com isso, a existência do homem passa a ter mais sentido e ele consegue privar-se de seus desejos instintuais, pois com seu deus o homem será recompensado por esta privação, a justiça divina acompanhá-lo-á por todos os tipos de existência que perdura após a morte, fazendo com que sua privação tenha recompensas. Agora a privação nesta existência faz sentido, e quem não a praticar será punido, talvez não nesta vida, mas sim após a morte. Os terrores que acompanham a existência dolorosa do homem tendem a desfazer-se, e o narcisismo ferido tende a recompor-se. (FREUD, 1927, p. 29).

Descerrara à vista o pai que sempre se achara oculto por detrás de toda figura divina, como seu núcleo. Fundamentalmente, isso constituía um retorno aos primórdios históricos da ideia de Deus. Agora que este era uma figura isolada, as relações do homem com ele podiam recuperar a intimidade e a intensidade do relacionamento do filho com o pai. Mas, já que se fizera tanto pelo próprio pai, desejava-se obter uma recompensa, ou, pelo menos, ser o seu filho amado, o seu Povo Escolhido. Muito mais tarde, a piedosa América reivindicou ser o ‘Próprio país de Deus’, e, com referências a uma das formas pelas quais os homens adoram a divindade, essa reivindicação é indubitavelmente válida. (FREUD, 1927 p. 29).

Essas ideias religiosas, vinculada com seus deuses, são tidas como algo muito precioso dentro da civilização, oferecendo ideias valiosas a seus participantes. Valor este vinculado a todo bem-estar narcísico que a compreensão divina traz, colocando o homem como filho querido e amado de um pai que tudo pode. Ideias estas mais valorizadas que os artifícios para conquistar tesouros na terra, evitar doenças e promover sustento. Pois o homem reconhece que, sem a ideia de deus e o valor reconhecido, a vida seria intolerável. (FREUD, 1927, p. 30).

Freud (1927, p. 31) diz que ‘‘Tentei demonstrar que as ideias religiosas surgiram da mesma necessidade de que se originaram todas as outras realizações da civilização, ou seja, da necessidade de defesa contra a força esmagadoramente superior da natureza. ’’. O homem humaniza a natureza devido a necessidade de pôr um fim a todo desconhecimento dela, no afã de que o desamparo humano também desapareça, para então conseguir entrar em contato com ela e finalmente influenciá-la.

Quando o homem personifica a natureza, dando a ela aspectos humanos e impondo sentimentos que são compreensíveis e observáveis dentro da existência humana, ele põe-se novamente em um lugar infantil onde agora ele próprio busca dar fim a seu desamparo frente a forças que não se podem controlar, querendo achar um pai que o possa salvar de tal desamparo e finalmente controlar tais forças para que não o mate. (FREUD, 1927, p. 32).

            Sobre as necessidades narcísicas do homem frente a este desamparo, Freud cita que:

A libido segue aí caminhos das necessidades narcísicas e liga-se aos objetos que asseguram a satisfação dessas necessidades. Desta maneira, a mãe, que satisfaz a fome da criança, torna-se seu primeiro objeto amoroso e, certamente, também sua primeira proteção contra todos os perigos indefinidos que a ameaçam no mundo externo – sua primeira proteção contra a ansiedade, podemos dizer. Nessa função [de proteção] a mãe é logo substituída pelo pai mais forte, que retém essa posição pelo resto da infância. Mas a atitude da criança para com o pai é matizada por uma ambivalência peculiar. O próprio pai constitui um perigo para a criança, talvez por causa do relacionamento anterior dela com a mãe. Assim, ela o teme tanto quanto anseia por ele e o admira. As indicações dessa ambivalência na atitude para com o pai estão profundamente impressas em toda religião, tal como foi demonstrado em Totem e Tabu. Quando o indivíduo em crescimento descobre que está destinado a permanecer uma criança para sempre, que nunca poderá passar sem proteção contra estranhos poderes superiores, empresta a esses poderes as características pertencentes à figura do pai; cria para si próprio os deuses a quem teme, a quem procura propiciar e a quem, não obstante, confia sua própria proteção. Assim, seu anseio por um pai constitui um motivo idêntico a sua necessidade de proteção contra as consequências de sua debilidade humana. É a defesa contra o desamparo infantil que empresta suas feições características à reação do adulto ao desamparo que ele tem de reconhecer – reação que é exatamente, a formação da religião. (FREUD, 1927, p. 33-34).

Freud, nesta citação, explicita a semelhança do complexo de Édipo presente na constituição psíquica de todo indivíduo, com a formação da necessidade de um deus. O indivíduo, vendo-se em uma posição infantil em sua existência frente a estranhos poderes superiores, necessita de um pai para protegê-lo, assim como necessitou de seu pai físico em sua infância. Portanto a constituição de um deus é, na verdade, uma defesa que o indivíduo elabora para e defender-se de um desamparo narcísico sentido por ele durante sua trajetória de vida terrena.

A religião traz ideias e ensinamentos a respeito da realidade externa ou interna diante da ignorância dos próprios indivíduos, portanto com o desconhecimento é necessário reivindicar a fé propagada pela crença religiosa. (FREUD, 1927, p. 35).

A impossibilidade de provar a verdade religiosa não é nada nova para Freud, visto que, desde sempre, ninguém conseguirá explicar cientificamente as verdades contidas nas doutrinas religiosas. Essa ausência de verdade científica já foi sentida pelos ancestrais religiosos em todas as épocas. Muitos desses ancestrais provavelmente tiveram várias dúvidas que existem até hoje, porém, o diferencial, é que a pressão em cima deles era forte demais para que eles pudessem falar sobre suas desconfianças. (FREUD, 1927, p. 37).

Freud então explicita a diferenciação da possível crença em uma doutrina religiosa comparada com o dom da razão. Para o autor, para que haja testemunho verdadeiro da verdade doutrinária religiosa, é necessário uma experiência interior individual, porém a problemática seria que nem todos os indivíduos tem a oportunidade de ter tal experiência. Porém, em contrapartida, todo homem tem a capacidade de exercer o dom da razão, assim é incoerente a ideia de que uma experiência vivida por poucos seja colocada como verdade para muitos. Qual seria a validade de uma experiência, por mais real que seja para o indivíduo que a vivenciou, se ele estivesse em um estado de êxtase, fora de sua razão e sua estruturação normal psíquica. Tal êxtase seria necessário para a concretização inabalável de uma experiência religiosa.Para Freud é de difícil aplicação real a validação de referida experiência. (FREUD, 1927, p. 38).

Freud cita sobre as ideias religiosas:

Estas, proclamadas como ensinamentos, não constituem precipitados de experiência ou resultados finais de pensamento: são ilusões, realizações dos mais antigos, fortes e prementes desejos da humanidade. O segredo de sua força reside na força desses desejos. Como já sabemos, a impressão terrificante de desamparo na infância despertou a necessidade de proteção – de proteção através do amor -, a qual foi proporcionada pelo pai; o reconhecimento de que esse desamparo perdura através da vida tornou necessário aferrar-se à existência de um pai, dessa vez, porém, um pai poderoso. Assim o governo benevolente de uma Providência divina mitiga nosso temor dos perigos da vida; o estabelecimento de uma ordem moral mundial assegura a realização das exigências de justiça, que com tanta frequência permaneceram irrealizadas na civilização humana; e o prolongamento da existência terrena numa vida futura fornece a estrutura local e temporal em que essas realizações de desejo se efetuarão. (FREUD, 1927, p. 40).

As experiências religiosas, e consequentemente a religiosidade, vêm de ilusões provenientes de fortes desejos da humanidade que recebe força e concretude no desejo do indivíduo. O indivíduo, diante do desejo de ser amparado novamente, como o fora em sua infância, frente às forças incontroláveis provenientes do desconhecimento do mundo e a impossibilidade de controlá-las, necessita de um pai que o proteja do mal que poderá acontecer com o indivíduo infantil. Este pai que protege através do amor é protagonista de providências divinas, fazendo com que a existência no mundo seja menos desamparada e o homem passa a ter um ganho narcísico frente à impossibilidade de controlar o desconhecido. Este pai poderoso encontrado na religião também fará com que a vida seja mais justa, podendo exercer a justiça aplicando-a navida de seus fiéis, porém se não realizada, poderá exercer tal justiça moral em outra vida. A possibilidade de uma vida futura dá ao indivíduo o amparo de saber que o injusto será punido, se não em vida terrena, em uma pós vida terreal.

Para o indivíduo religioso, a religião ganha mais uma função. Se o complexo paterno não houver sido superado inteiramente ainda, com o deus elaborado nas entranhas da religião, é possível a retirada do conflito e levado a uma solução aceita universalmente. A retirada do conflito será possível por meio de uma identificação paterna com o deus, tendo a possibilidade de superar os conflitos por meio da relação com seu deus. Sendo universalmente aceita por meio da religião. (FREUD, 1927, p. 40).

Freud, para explicar melhor sua concepção de ilusão, cita ‘‘O que é característico das ilusões é o fato de derivarem de desejos humanos’’ (FREUD, 1927, p. 40).  Tal citação ajuda a entender o porquê o autor classifica a religião como uma ilusão. Dito anteriormente, a religião é uma ilusão não pelo fato de ela não existir, e sim por ela existir pela necessidade proveniente do desejo humano. O indivíduo, em sua posição de narcisismo ferido mesmo em sua fase adulta, vê-se na impossibilidade de entender e controlar as forças naturais da vida, e busca uma forma de reconstituir este narcisismo. Encontrando a possibilidade de conviver com menos angustia frente aos desconhecimentos, constitui um deus para controlar, para ele, essas forças. Personifica a imagem de deus visando ser possível sua a comunicação e aproximação com ele, e se sintam queridos e identificado como filho, e consequentemente possa fazer com que o deus que controla tais forças descomunal não faça maldades contra seus filhos, e os ame de forma a ajudar em sua vida.

Frente a importância da ciência na vida do indivíduo, Freud cita que:

 

Mas o trabalho cientifico constitui a única estrada que nos pode levar a um conhecimento da realidade externa a nós mesmos. É, mais uma vez, simplesmente uma ilusão esperar qualquer coisa da intuição e da introspecção; elas nada nos podem dar, a não ser detalhes sobre nossa própria vida mental, detalhes difíceis de interpretar, nunca qualquer informação sobre as perguntas que a doutrina religiosa acha tão fácil responder. (FREUD, 1927, p. 41).

Para o autor, o conhecimento científico seria o único meio válido para o conhecimento real e sobre o próprio indivíduo, sendo enquadrado novamente como uma ilusão, o pensamento de que qualquer outro tipo de conhecimento advindo de experiências totalmente individuais poderá levar a um conhecimento real e válido. As experiências individuais serão úteis somente quando o objetivo for entender melhor o próprio sujeito que a experiência.

Freud, em seu texto, interpreta um antagonista de suas ideias. Tal personagem traria ideias contrárias do próprio autor fazendo um contraponto e explicita algumas possíveis incoerências encontradas em suas ideias, e que possivelmente surgiria nos questionamentos do leitor. Tais possíveis incoerências seriam mais a frente refutadas novamente por Freud. Neste momento, o antagonista fala que mesmo sabendo que a religião não possui a verdade, seria vantajoso para a humanidade manter essa compreensão religiosa em segredo. (FREUD, 1927, p. 44). Muitas pessoas acham dentro da religião uma consolação necessária para que o próprio indivíduo pudesse continuar vivendo, pois sem a religião provavelmente a existência não seria possível. Freud então seria irresponsável em retirar dos crentes a verdade religiosa e não tendo nada melhor a lhes oferecer. (FREUD, 1927, p. 45). Continuando em seu papel de antagonista, Freud fala que seria o indivíduo religioso possuidor de necessidades que não seriam possíveis saciá-las por meio da ciência, sendo incoerente, então, que um psicólogo, que sempre acha que a inteligência seria de menor valor comparado aos instintos, tirar da humanidade a religião para lhes entregar a intelectualidade, na tentativa de compensar a religião em seu nível de realização de desejo. (FREUD, 1927, p. 45).

Freud em resposta a seu antagonista cita que:

A religião, é claro, desempenhou grandes serviços para a civilização humana. Contribuiu muito para domar os instintos associais. Mas não o suficiente. Dominou a sociedade humana por muitos milhares de anos e teve tempo para demonstrar o que pode alcançar. Se houvesse conseguido tornar feliz a maioria da humanidade, confortá-la, reconcilia-la com a vida, e transformá-la em veículo de civilização, ninguém sonharia em alterar as condições existentes. Mas, em vez disso, o que vemos? Vemos que um número estarrecedoramente grande de pessoas se mostram insatisfeitas e infelizes com a civilização, sentindo-a como um jugo do qual gostariam de se libertar; e que essas pessoas fazem tudo que se acha em seu poder para alterar a civilização, ou então vão até longe em sua hostilidade contra ela, que nada tem a ver com a civilização ou com uma restrição do instinto. (FREUD, 1927, p. 47)

O autor também deixa claro que não tem a pretensão de fazer com que o crente abandone sua fé lendo seu livro, pois a convicção religiosa é forte o suficiente para superar tais argumentos, pois a convicção religiosa vem da necessidade de realização de desejos profundos do indivíduo. (FREUD, 1927, p. 45).

Freud segue em sua defesa falando que:A bondade de Deus deve apor uma mão refreadora à Sua justiça. Alguém peca; faz depois um sacrifício ou se penitencia e fica livre para pecar de novo. A instrospectividade russa atingiu o máximo ao concluir que o pecado é indispensável à fruição de todas as bênçãos da graça divina, de maneira que, no fundo, o pecado é agradável a Deus. Não é segredo que os sacerdotes só puderam manter as massas submissas à religião pela efetivação de concessões tão grandes quando essas à natureza instintual do homem. Assim, concluíram que: só Deus é forte e bom; o homem é fraco e pecador. Em todas as épocas, a imoralidade encontrou na religião um apoio não menor que a moralidade. (FREUD, 1927, p. 47).

Esta citação é importante para entender a concepção da importância da religião e de um deus para o religioso. Ao mesmo tempo que deus é bom e perdoa o pecador, ele é justo. A possibilidade do indivíduo pecar é possível, pois quando o pecado é realizado, logo após pode-se realizar algum sacrifício para que seu deus o perdoe, dando a possibilidade de um novo pecado no futuro, deixando explícito a função da bondade e da justiça. Para que a graça divina seja evidenciada, é necessário que o indivíduo erre, pois somente assim seu deus poderá mostrar sua bondade, agora dando um sentido e uma função ao pecado, sendo necessário para deus mostrar quem ele é. Tais possibilidades de pecado, o que seria o indivíduo se entregar, mesmo que seja por momentos a seus instintos pulsionais, deu a possibilidade do controle das massas pela religião e seus líderes, pois eles são detentores de tal deus, dando a permissão para a realização de desejos instintuais frente a deus. O autor conclui então que a imoralidade é tão agradável e encorajada pela religião quanto a moralidade.

Esta concepção religiosa, demonstrada por Freud na citação acima, ajuda a entender os ganhos narcisismos que dos religiosos ao se deparar com a possibilidade de participar de uma religião, e de ter um deus. Pois, como falado anteriormente, a ideia de um deus personificado, acessível por meio de ritos e orações, e tendo a possibilidade de influenciá-lo conforme a vontade humana, é de extrema importância para que o indivíduo possa conviver com menos ansiedade frente ao desconhecimento do mundo. Um deus pessoal é possível, eauxilia na reconstrução de um narcisismo fragmentado. Com a ideia da bondade de deus frente à realização pulsional do homem, é possível agora praticá-la de forma mais livre, pois é possível o reencontro com este deus, e consequentemente o alívio da ansiedade proveniente da culpa, podendo agora praticar a imoralidade e ao mesmo tempo continuar sendo o filho querido que será ajudado em sua existência pelo pai poderoso. Há ganhos narcísicos significativos para o indivíduo religioso.

Freud (1927 p. 48) cita que ‘‘…quanto maior é o número de homens a quem os tesouros do conhecimento se tornem acessíveis, mais difundido é o afastamento da crença religiosa. ’’. Em seguida fala que será um movimento natural da sociedade compreender que deus não existe. A sociedade será levada à intelectualização e consequentemente começará a contar com o saber científico e abandonará a religião. Então se conclui que se a única razão de não matar o próximo for pelo fato de deus proibir e, portanto,infligir a punição, então quando a humanidade chegar no estado de intelectualização o suficiente para abandonar a religião, irá deparar-se com a ausência de deus e consequentemente Seu castigo. O homicídio do próximo não terá qualquer força, a não ser a terrena.Portanto, para parar referida ação, seria necessário que as massas perigosas, que inflige a sociedade, fossem afastadas para não ter contato com a intelectualidade e seu despertar, para ser possível a permanência religiosa nessa massa. Se não será necessária uma revisão no relacionamento entre civilização e religião. (FREUD, 1927, p. 49).

Sobre a origem da religião e os ganhos de seu afastamento, Freud cita que:

Assim, a religião seria a neurose obsessiva universal da humanidade; tal como a neurose obsessiva das crianças, ela surgiu do complexo de Édipo, do relacionamento com o pai. A ser correta essa conceituação, o afastamento da religião está fadado a ocorrer com a fatal inevitabilidade de um processo de crescimento, e nos encontramos exatamente nessa junção, no meio dessa fase de desenvolvimento. Nosso comportamento, portanto, deveria modelar-se no de um professor sensato que não se opõe a um novo desenvolvimento iminente, mas que procura facilitar-lhe o caminho e mitigar a violência de sua irrupção. Decerto nossa analogia não esgota a natureza essencial da religião. Se, por um lado, a religião traz consigo restrições obsessivas, exatamente como num indivíduo, faz a neurose obsessiva, por outro, ela abrange um sistema de ilusões plenas de desejo juntamente com um repúdio da realidade, tal como não encontramos, em forma isolada, em parte alguma senão na ausência, num estado de confusão alucinatória beatifica. Mas tudo isso não passa de analogias, com a ajuda das quais nos esforçamos por compreender um fenômeno social; a patologia do indivíduo não nos provê de um correspondente plenamente válido. (FREUD, 1927, p. 53).

Freud cita novamente que a religião seria uma neurose obsessiva universal, discutida anteriormente neste trabalho, surgindo o complexo de Édipo, que tem importância na formação da identificação do indivíduo com o pai, projetando esta identificação em deus, e também o desenvolvimento do superego, agente moral do nosso aparelho psíquico. Para o autor, o afastamento da religião seria uma possibilidade de crescimento, já que, desta forma, afastáramo-nos de uma posição infantil frente ao desconhecido, assim podendo abandonar o pai poderoso que na religião é necessário. Freud vê a si mesmo e a seus leitores, em uma posição de desenvolvimento. Compara-se a um professor que ajudaria a desenvolver novos conhecimentos em seus alunos que ainda não abandonaram a religião, e que também auxiliaria para que o desenvolvimento não fosse interrompido. Comparando as restrições que a religião dita como nas restrições que os neuróticos obsessivos praticam, porém na religião seria necessária a negação da realidade presente nas alucinações. Porém Freud deixa claro que essas ideias não passam de analogias, já que a patologia do indivíduo, as experiências alucinatórias individuais provenientes na religião, não são instrumentos válidos para uma análise real da mesma.

O neurótico religioso é assegurado pela religião de algumas enfermidades neuróticas, pois a aceitação da religião, neurose universal, poupa-o de elaborar uma neurose individual. (FREUD, 1927, p. 53-54). Ao contrário do neurótico obsessivo, que tem seus rituais individualizados, o neurótico religioso terá sua prática religiosa assegurada por um simbolismo universal, que será compartilhado com diversas pessoas que professam a mesma fé, e legitimado também por elas, auxiliando o crente a evitar os danos narcísicos provenientes da neurose.

Os resíduos históricos ajudam a ver os ensinamentos religiosos como heranças neuróticas. Com a possibilidade da intelectualização, é possível substituir os efeitos da repressão dos instintos pulsionais pela operação intelectual racional. (FREUD, 1927, p. 54). Freud cita que ‘‘Não dispomos, porém, de outros meios de controlar nossa natureza instintual, exceto nossa inteligência. ’’ (FREUD, 1927, p. 56-57). É clara a posição de Freud frente à importância da intelectualidade para a possibilidade de abandono da religião, pois, por meio do intelecto, é possível substituir os efeitos da repressão instintual pela racionalidade, e também, dizendo que a inteligência seria o único meio de controlarmos nossos instintos. Se o indivíduo controlar seus instintos, necessariamente não haverá culpa proveniente da pressão que a pulsão faz na consciência, logo desnecessário as práticas religiosas para se punir e ao mesmo tempo se redimir com seu deus, assim fazendo a religião perder o sentido de sua existência.

Para Freud, seria insensato e impossível a exclusão imediata da religião. O crente não deixará que isso aconteça, independente dos argumentos apresentados ou das proibições impostas. Para o autor, esta tentativa é vista como cruel. Compara a religião como um remédio. O indivíduo viciado em tomar o medicamento, não seria capaz de abster-se de uma hora para outra. O efeito da religião seria algo parecido com isto, tendo um efeito de consolação, e não seria saudável tirar, de forma abrupta, a consolação do indivíduo. (FREUD, 1927, p. 57-58).

Freud argumenta que os homens que se mantêm em uma perspectiva infantil são incapazes de abandonar sua religião, pois, para eles a crueldade da realidade sem a religião seria insuportável. Porém evidencia que para os homens que foram bem criados, e não padecem de uma neurose, não precisará da religião para viver. Será necessário para esses indivíduos que tenham consciência de seu desamparo e insignificância frente ao universo, entendendo que não são o centro da criação e que não será algo de uma Providência beneficente. Porém o destino do infantilismo é de ser superado, pois não é possível e manter-se criança durante todo o sempre sendo possível caminhar para a vida hostil que os espera. Para o autor isso se chama ‘educação para a realidade’ explicitando que o único objetivo de seu livro é indicar a necessidade de dar o próximo passo que seria o abandono de uma posição infantil e desamparada, para a superação desta posição e viver neste mundo de forma mais real. (FREUD, 1927, p. 58).

Para o autor, a única forma de ver o futuro da humanidade de forma otimista é por meio da intelectualidade visto que a voz do intelecto é uma voz suave, porém que nunca cessa até ser ouvida. Freud acredita na possibilidade do intelecto conseguir se sobrepor à vida instintual, mesmo que o instinto seja mais poderoso que o intelecto em relação a sua força de realização. Portanto a única forma de ser otimista quanto ao futuro da humanidade é contar que este intelecto será ouvido. Logo, a solução para seu futuro não virá de um deus ou de uma religião, mas sim da própria humanidade. (FREUD, 1927, p. 62).

Ao final de seu texto, Freud (1927, p. 64) fala novamente sobre a função da ilusão por ele exposto, a religião. ‘‘Não, nossa ciência não é uma ilusão. Ilusão seria imaginar que aquilo que a ciência não nos pode dar, podemos conseguir em outro lugar. ’’

CONCLUSÃO

Analisar e relacionar o narcisismo com a religiosidade do indivíduo, segundo Freud, foi a principal proposta deste trabalho. Para que este trabalho fosse possível foram analisados dois textos do autor, com o intuito de se identificar se há relação entre eles.

Segundo o que foi discutido, é possível concluir que há ganhos narcísicos com a religiosidade. Um grande ganho observado seria a concepção de perdão que há nas religiões, pois o princípio das práticas religiosas estariam em se abster de diversas práticas. O indivíduo, quando se abstém das práticas sente-se superior aos que não se privam e sente-se moralmente superior relação aos outros, vendo-se como um ser humano melhor frente àqueles que não se privam da mesma maneira. Este sentimento de superioridade moral acarreta a suposta aproximação com o deus, buscando sua aprovação. A aprovação deste deus é importante para o indivíduo sinta-se bem.Vendo-se na impossibilidade de controlar sua vida de maneira absoluta, o indivíduo religioso ganha uma possibilidade de viver melhor frente ao desconhecido destino.

O indivíduo se porta de maneira infantil frente ao seu deus, identificando-o como um pai.

Referido posicionamento infantil adotado pelo homem encontra-se diante do universo e fere seu narcisismo, pois, mesmo quando adulto, não é capaz de controlar sua vida e proteger-se dos males do mundo, precisando, assim, de um pai que o controle. Este pai tomará conta de seu filho, beneficiando-o de maneira sobrenatural, controlando seu destino em sua trajetória de vida. Portanto o objetivo final desta abstenção ou adição de práticas dentro da religião está relacionado a abster-se de práticas prazerosas ou acrescentar práticas dolorosas para que se torne um indivíduo moralmente superior aos demais e ser visto como o filho preferido deste deus/pai.

As práticas religiosas auxiliariam o indivíduo a conviver melhor com sua culpa, advinda pela pressão pulsional sofrida pelo sujeito. Com as práticas religiosas, o indivíduo fortalece-se moralmente sentindo a sensação de perdão da sua falha e diminuindo a pressão. Portanto tais práticas religiosas irão fazer com que o indivíduo conviva melhor com sua culpa, tornando-o narcisicamente melhor estruturado e amando-se mais. Esse amor e a aprovação que o indivíduo busca está relacionado com a aprovação do seu deus. Com a aprovação que o deus pode proporcionar, o indivíduo sente-se melhor consigo mesmo e também sabe que será perdoado quando se entregar a tal pressão pulsional que lhe dá a possibilidade de errar. Sem a religiosidade para tal indivíduo, seria muito mais difícil e doloroso conviver com a pressão pulsional por ele sentida, fazendo sua existência mais dolorosa.

A religiosidade também proporciona, pela universalização dos símbolos, uma espécie de compartilhamento de práticas, em que o indivíduo religioso não fará suas práticas de maneira isolada e aparentemente sem sentido. Com esse símbolo compartilhado, suas práticas ganham sentido e podem ser experimentadas em conjunto. Visto também a identificação que há com a autoridade espiritual dentro da religião, podendo se espelhar e tomar para si características que o ajudaram a continuar suas práticas religiosas e tendo alguém físico e palpável para falar o que se deve fazer para se aproximar do deus/pai.

Com as práticas religiosas, é possível o indivíduo realizar-se em seu superego, pois se aproximará com mais facilidade da moralidade que a civilização prega e necessita para continuar existindo. Assim tendo vantagens sociais, como ser bem visto e elogiado pela sociedade, reconfortando o indivíduo diante de seu sentimento de culpa. Diante do sentimento de aprovação, tanto social quanto dentro da comunidade religiosa, o indivíduo consegue se aproximar com mais facilidade da sua idealização de si mesmo, agora não vinculado com a moral, mas sim com a convergência narcísica do sujeito e as identificações com seus pais e ideais coletivos. O indivíduo se sente com mais valor social, diante de seus pais e também com seu deus. Todos esses mecanismos trazem ganhos narcísicos para o indivíduo religioso.

Com a religião, o indivíduo não necessita entregar-se ao cientificismo, pois assim é possível achar explicação a todos os eventos, tanto aos explicáveis dentro da ciência quanto aos não explicáveis. Deparar-se com a racionalidade para o indivíduo religioso, seria de grande angústia, pois com a racionalidade será possível ver-se em uma situação desamparada frente ao universo e o desconhecimento que vêm com ele, reafirmando a impotência do indivíduo. Com a religião esse desamparo perde o sentido, pois agora se tem um deus/pai que controlará tudo para o indivíduo, basta que o mesmo se abstenha de certas práticas que são repugnadas pela religião, e consequentemente para seu deus, para que se aproxime deste deus/pai e assim ser beneficiado pela vontade soberana.

Diante das injustiças no mundo, também há um ganho narcísico, pois com um deus que detém todas as forças universais será possível, conforme sua moral, que o mal que é cometido durante a vida terrena tenha justiça. Tal justiça talvez não seja concretizada durante a vida terrestre, mas agora há a possibilidade de uma justiça que transcende a vida natural, será feita na pós vida material, dando um sentimento de justiça para o injustiçado e ajude-o a conviver melhor com a dor presente ao decorrer da vida terreal.

 

ESTEVÃO SANTOS SÁ

É Psicólogo e Psicanalista do Percurso de Psicanálise da ABMP-DF

Mestrando em Psicanálise – Turma: 2017

www.abmpdf.com

 

 

 

 

 

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