Dos Chistes a Gradiva de Jensen ( As subjetividades do Inconsciente)

24 de agosto de 2017 | Artigos | Sem comentários

Dos Chistes a Gradiva de Jensen ( As subjetividades do Inconsciente)

DOS CHISTES À GRADIVA DE JENSEN:

AS SUBJETIVIDADES DO INCONSCIENTE.

 

Nessa primeira parte, será abordado o recorte temático; “Dos Chistes”, esse mecanismo de linguagem tão fidedigno e desafiador.

Após a Interpretação dos sonhos e a Psicopatologia da vida cotidiana, surge a terceira grande obra publicada por Freud, em 1905,“Os Chistes e sua relação com o inconsciente”. Este chamou a atenção para a importância da linguagem – como forma de seguir o fio da palavra, a qual pode ser utilizada para ir além do sentido expresso.

Assim, os chistes derivam dos jogos com as palavras e acaba sendo magistral, pois apresentam uma intencionalidade subjetiva e às vezes adversa do real. Tende causar surpresa e impacto quando é transmitido, tanto para quem expressa quanto para quem ouve, já queos chistes referem-se à algo que não pode ser dito como tal.

Freud então preconizou que:

O chiste, em contrapartida, é a mais social de todas as funções psíquicas cuja finalidade é obter prazer. Frequentemente ele necessita de três pes­soas e requer, para se completar, a participação de um segundo indivíduo nos processos psíquicos por ele desencadeados. Portanto, ele tem de sujeitar-se à condição de inteligibilidade; pode recorrer à deformação por condensação e do deslocamento, possível no inconsciente, apenas na medida em que ela seja recuperada pelo entendimento da terceira pessoa(FREUD, 1905, P.53).

Estes sugerem mensagem subliminar, para evitar que o resultado seja pior e para amenizar o impacto, utiliza-se do chiste para disfarçar a palavra dita (livro – O corpo fala). Porém,o chiste não é pensado e sai espontaneamente, como força irrompendo aquilo que não foi dito conscientemente e que ficou recalcado.

Através dos chistes manifesta-se uma linguagem dos equívocos e dos lapsos e trocadilhos, pois a comunicação revela o desejo de se dizer algo e também outra coisa. Um jogo, compondo um jogo de palavras com intencionalidade subjetiva e não ordenadamente consciente e sistematizado, sem elaboração racionalmente objetiva.

Conforme Dicionário de Psicanálise (ROUDINESCO, 1944, p. 113), os chistes se caracterizam a priori pela atividade da função lúdica da linguagem, como as brincadeiras infantis e os gracejos. Verdade dita de forma mais digerível e em tom de brincadeiradescontraída e livre, conteúdos originários do inconsciente coletivo.

Brasileiro é exemplo disso, considerado um “bom vivam” e um dos povos mais bem humorados do mundo, universo em que se pode deparar com linguagens chistosas cotidianas, como: “por que você não está trabalhando, porque eu não te vi chegando”, “Seu marido foi pescar, ah ele está comendo piranhas”, “Hum vai deitar na cadeira do dentista, não a maltrate doutor”.

Diferente do ato falho, o qual se observa uma ruptura e troca do discurso por uma palavra que não deveria ter sido dita, sugerindo um retorno do recalcado e reprimido; no chiste escapa-se inopinadamente a verdade na realidade, retira-se a mascara.

De acordo com Lipps (1898), um chiste é:

 ‘algo cômico de um ponto de vista inteiramentesubjetivo’, isto é ‘algo que nós produzimos que se liga a nossa atitude como tal, e diante de quemantemos sempre uma relação de sujeito, nunca de objeto, nem mesmo objeto voluntário (ibid. 80). Segue-se melhor explicação por um comentário de que o efeito daquilo, que, em geral,chamamos um chiste, é qualquer evocação consciente e bem-sucedida do que seja cômico, seja acomicidade devida à observação ou à situação’ (ibid. 78)(LIPPS, 1898 apud FREUD, 1905, p. 21).

Freud ressalta que o humor surge “como um meio de obter prazer apesar dos afetos dolorosos que interferem com ele; atua como um substitutivo para a geração destes afetos coloca-se no lugar deles” (FREUD, 1905/1977, p. 212). O humor seria uma das “operações psíquicas mais elevadas” (p. 212), “um dom raro e precioso”, que se mostra um “recurso para auferir prazer” (p. 212) diante dos embates da vida e da trágica inevitabilidade da morte.

Filósofos como Theodor Vischer, Kuno Fischer e Theodor Lipps, sinalizaram sobre o tratamento dos chistes relacionados à comicidade e/ou “o prazer do humor”, discussões as quais tem sido recorrentemente aceitas e incontestadas ao longo dos anos. O chiste emerge de um afeto “não dito” e se revela na economia psíquica do mesmo, como “necessidade psicológica” que clama por linguagem.

Para Fischer (1889) a relação dos chistes com o cômico é mediada através da caricatura, o feio é característica presente:

Se [o que é feito] for ocultado, deve ser descoberto à luz da maneira cômica de olhar as coisas; se é pouco notado, escassamente notado afinal, deve ser apresentado e tornado óbvio, de modo que permaneça claro, aberto à luz do dia… Desta maneira, nasce a caricatura. (…)Todo nosso universo espiritual, o reino intelectual de nossos pensamentos e idéias, não se desdobra ante a mirada da observação externa, nem pode ser diretamente imaginado de maneira vívida e visível. Além do mais, contém suas inibições, fraquezas e deformidades – uma riqueza de contrastes ridículos e cômicos. A fim de enfatizar estes e torná-los acessíveis à consideração estética, é necessário uma força capaz não simplesmente de imaginar os objetos diretamente mas antes de lançar luz sobre essas imagens, clarificando-as: uma força que possa iluminar pensamentos. A única força dessa ordem é o juízo. Um chiste é um juízo que produz contraste cômico; participa já, tacitamente, da caricatura, mas apenas no juízo assume sua forma peculiar e a livre esfera de seu desdobramento.(Fischer, 1889, p. 45, 49-50)apud (FREUD, 1905, p. 8).

Numa concepção freudiana, devido a falta de significância e de uma linguagem mais elaborada conscientemente, através dos chistes busca-se uma nova representação, em que o cômico traduz uma economia do pensar e o humor uma economia do sentimento. Para esse processo, compreende-se que o chiste não se revela sozinho e imprescindivelmente há a busca do outro, quando a linguagem é mediada pelo;o autor, o objeto que versa o chiste e o ouvinte.

Exemplos desse universo que convida o leitor para além do entendimento do discurso entre ouvinte e narrador,são as linguagensda uma das personalidades humanas mais populares, aMaria do imaginário social; que se revela e se representa num giro pelo cotidiano coletivo das expressões chistosas nas redes sociaiscomo:

Se hoje é o Dia das Crianças, ontem eu disse que criança… o dia da criança é dia da mãe, do pai e das professoras, mas também é o dia dos animais. Sempre que você olha uma criança, há sempre uma figura oculta, que é um cachorro atrás”.

“Então, para mim essa bola é um símbolo da nossa evolução,Quando nós criamos uma bola dessas, nós nos transformamos em Homo sapiens ou “mulheres sapiens”.

“Não vamos colocar meta. Vamos deixar a meta aberta, mas, quando atingirmos a meta, vamos dobrar a meta”. 

Se por um lado, pode-se evidenciar nos estudos freudianos sobre o chiste e servindo-se como uma transgressão da linguagem de forma lúdica e criativa, constructos inconscientes e sofridos de tenra infância. Estas expressões suscitam faltas relacionadas às necessidades primárias, como de proteção – reconhecimento e segurança, ou seja; de defesas para sobrevivência– satisfação e amparo.

Por outro lado, os chistes que inicialmente soam como motivos de intensas críticas e questionamentos, à semelhança dos sonhos e dos atos falhos aludem um pensar de forma mais original e reveladora, já que se traduz através de informações do funcionamento inconsciente. Onde há temores, agressividade e voracidade.

Assim, “um chiste é a conexão ou a ligação arbitrária, através de uma associação verbal, de duas ideias, que de algum modo contrastam entre si” (FREUD, 1905, p. 9).

Mas para além do caráter visionário do psicanalista Freud, os chistesrevelam também câmbios entre o intersubjetivo, o afetivo e o simbólico, compondo linguagens a priori “irracionais”, pois;

[...] pensamos nas profundezas do não-dito, do indizível, dos intensos e rudimentares sentimentos, afinidades e temores que disputam conosco o controle de nossas vidas como internos. Somos criaturas com profundezas internas, com interiores parcialmente inexplorados e sombrios(TAYLOR, 1997, p. 155).

 Retomando algumas outras expressões chistosas de Maria, evidenciam-se tentativas de diálogo com outro e outros….:

“A mulher abre o negócio, tem seus filhos, cria os filhos e se sustenta. Tudo isso abrindo o negócio.”

“Eu vi. Você veja… Eu já vi, parei de ver. Voltei a ver e acho que o Neymar e o Ganso têm essa capacidade de fazer a gente olhar.”

O meio ambiente é sem dúvida nenhuma uma ameaça ao desenvolvimento sustentável.” 

“Quero dizer que hoje o Brasil está de luto por uma morte que tirou uma vida.”

Em decorrência, apreende-se que os chistes também cumprem esse desejo (inconsciente)de realçar algumas singularidades do humano, que num primeiro momento ficam subjugadas às crenças moralistas e estigmatizadoras, tão vívidas no imaginário coletivo e social. Tempo em que muitos falam, gritam e berram avidamente por tentar serem escutados e compreendidos, mas sem muita receptividade em supremacia do reinado das pessoas “modernas”com suas caricaturas estereotipadas e humoradamente perversas.

Assim nos chistes a caricatura se circunscreve como recurso peloexagero na expressão da linguagem, trata-se de uma,  “exageração de traços que não seriam de outro modo marcantes (…), e envolve também a característica da degradação” (Freud s/d). Bem como, na alusão do termo quiproquó para mediar a compreensão das diferenças de sentidos entre os atores de peças teatrais e público; “a caricatura, que tem algo de diabólico, ressalta o demônio que venceu o anjo” (Bergson, 1983, s/p). (DUARTE, 2012, p. 25).

Neste movimento, a caricatura atravessa e extravasa o feio para compor a comicidade dos chistes, os quais se colocam no centro das comunicações humanas para dar vasão às especificidades das pessoas e objetos que até então estavam omissas ou recalcadas. Porém Bergson alerta para não se confundir exagero com ironia, uma vez que ambos estão presentesnos chistes. O primeiro cumpre funções de pulsões que rompem o pensar racionalmente elaborado, e a segunda vem colorir de forma sorrateira o pensar mais veraz.

Continuando a temática deste estudo, “dos chistes à Gradiva de Jensen: as subjetividades do inconsciente”, segue-se nessa segunda parte, o olhar sob a dimensão “à Gradiva de Jensen”. Quandonuma concepção freudiana a arte pode ser ou é, testemunha do inconsciente,como se existisse uma inspiração da pessoa acessando os subterrâneos departes da psique e dos materiais mais escondidos no recôndito da alma humana.

Freud, no início da sua metodologia arqueológica – retirando camadas de terra – rocha e pedras, até se ter acesso ao objeto em si, a busca de compreensão do homem se ligava a uma lógica articulada com o psiquismo, lugar de tantos mecanismos de defesa e resistências.Seguindo-se posteriormente, os diálogos entre Freud e Jensen, o trabalho da Gradiva trata-se de uma moça que desperta no personagem principal que ainda não tinha conhecimento desses sentimentos, uma inquietação extraordinária; evidenciando o nome da obra Delirius – Gradiva originalmente.

Ao publicar, em 1907, o estudo “Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen”, Freud transformou esse romance em uma celebridade e deu-lhe uma popularidade que se estendeu para além das fronteiras da literatura. A história de um jovem arqueólogo na conturbada busca de si mesmo e da mulher amada ganhou um alcance certamente jamais imaginado por Jensen. (…)Pois, a partir da publicação do estudo de Freud, seu livro passou a influenciar uma elite intelectual formadora de opinião, e a imagem de Gradiva – a jovem de vestes esvoaçantes, sandálias e andar gracioso e sedutor – incorporou-se ao imaginário de uma época e foi difundida por meio de outras formas artísticas. Foi pintada por Salvador Dali e por André Masson e deu nome a uma galeria de arte surrealista inaugurada, em Paris, por André Breton(LOBO, 2000, p. 99-100).

 Assim como se dá no ato falho e no sonho, a angústia originária tanto do que foi suprimido ou afastado (FREUD, 1905 (1921)),se configura como uma intrusão que se manifesta através do sintoma édenominada de traumas e recalques.  Estes se traduzem na clínica psicanalítica mascarada por inibições, sintomas, fixações, defesas, compulsões, fantasias, idealizações, delírios e fugas; angústias as quais anunciam estados de dor e desamparo face à iminência e imaginário da perda do objeto, primário ou secundário.

No Seminário X (LACAN, 1962-1963/2004), Jacques Lacan considerara a angústia um estatuto diferenciado, a qual é tratadacomo o desejo do Outro e o único dentre todos os nossos afetos que seria sinal do real. Estesconflitos estão depositados e aprisionados no inconsciente, a fim de proteger o ego, já que esta é a única instância que entra em sofrimento. Pois se o EGO era imaturo oufora acometido por algum evento que não tinha condições de lidar, tende sofrer e não conseguir elaborar essa demasiada energia.

Daí, como em Gradiva, Norbert no sentimento da falta;

Ao não encontrar, de início, explicação plausível para seu relacionamento obsessivo com a escultura em relevo da mulher a que ele chama de Gradiva, Norbert revela seu desconhecimento da presença dos fantasmas/recordações/representações em sua vida consciente. Não sabe ainda que Gradiva vem dos espaços que ele deixou de habitar, que ela é espelho que reflete a si próprio e seus desejos não realizados. Espelho que reflete seu corpo não habitado e, por isso mesmo, inacessível ao outro(LOBO, 2000, p .101).

Evidenciando que todo movimento pulsional, leva a desejos – excitação e deflagrações de pulsão, a qual em psicanálise é sofrimento, pois nem toda vontade de prazer encontra objeto. Desponta a necessidade de sublimação significando converter essa energia e essa pulsão socialmente instituída e aceita, alavanca pela qual construímos, nos tornamos pessoas sociais e coletivas, etc..  Porém, outros desejos e pulsões existem e são manifestos em nós, os quais não encontram objeto e nem realização, ambos são transformados em trauma ou recalque.

Configura-se a angústia como um incômodo sem saber a razão, a qual sinaliza que se está aproximando da excitação e que exige que haja uma repressão e defesa necessária; senão ocorre o sintoma, para tentar conter essa pulsão. Porém, tudo aquilo que é reprimido e recalcado, forçando as camadas psíquicas tectônicas ao sujeito se angustiar e sintomatizar, significa que os mecanismos de defesa falharam e as angústias poderão transformar em dor e adoecimentos dos mais diversos – físicos, psicológicos, ou emocionais.

Universo pelo qual, revela-se pela experiência psicanalítica de que nada é destruído no psiquismo, quando o esquecimento e o desaparecimentotende reaparecer como efeito da ação do recalcamento que a análise visa suplantar através da ação terapêutica.

Com seu trabalho sobre a Gradiva, Freud vai dar vazão ao seu desejo de ampliar o espectro de ação de sua teoria do inconsciente, a qual ele quis, desde os seus primórdios (…) situar mais além do contexto restrito da prática clínica com neuróticos. A psicanálise vai além das fronteiras do consultório, incidindo e tentando, interferir nos mais diversos campos do saber. Freud, com o estudo sobre a Gradiva, tem a possibilidade de demonstrar sua teoria do inconsciente, ilustrando-a com a limpidez da qual é capaz uma narrativa poética. Tratava-se aqui para Freud de recolher os achados do escritor e poeta, tornados possíveis pela especial aptidão do artista de se deixar perpassar pelos elementos que, estruturados como uma linguagem (segundo Lacan), apontam para o inconsciente(MENDES, 2005, p. 53).

Assim, a lógica da psicanálise não é criar outros tamponamentos ou bloqueios, pois estes sintomas virão a tona por meio de doenças orgânicas ou psicossomáticas tais como; síndromes do pânico, fobias, identificações, episódios ansiogênicos, comportamentos delirantes, diabetes, psoríases, compulsões alimentares ou de drogas, etc. A ideia é elaborar as razões que certas situações levam o sujeito a estados de fragilidades e sofrimentos, de modo que este consiga viver de modo mais equilibrado e harmônico.

Com isso um questionamento: Pôr que sempre viver um martírio existencial, sempre pesado? Se o sujeito pode-se buscar resolutividade das causas dos sofrimentos, fazendo elaborações e adquirindo recursos internos para o processo de superação. Processo pelo qual a transferência entre analista e analisando serve-se com câmbio para liberação do recalcado, enfrentando os desafios de compreensão e análise desde os sintomas mais simples aos conteúdos mais complexos.

Como nos delírios do personagem da Gradiva de Jensen, em que há a necessidade da pormenorização (angústias relativas) destes; “São delírios histéricos, (…) delírios imaginativos, ou ainda de devaneios. Diferentemente do delírio psicótico, que vem para aplacar a angústia, o delírio neurótico é uma manifestação de angústia”(MENDES, 2005, p.57).

Aqui, as fantasias desempenham papel fundamental na formação dos sintomas, pois conforme no caso da Gradiva, estes emergem a partir da nomeação de um objeto (relevo da escultura de gesso) – da imaginação criada (a jovem Gradiva) e no lugar de objeto do outro (como Norbert, sentido como o canário na gaiola). Pulsões libidinais que numa concepção freudiana, é preconizado que o sexo e a busca de realização dos desejos existemdesde a tenra infância, pois as impressões trazidas dessa época revelam conteúdos de sexualidade, mostrando que elas não são inocentes.

Impressões ou recalques da sexualidade manifesta, que são recalcadas e reprimidas, ou seja:

Para romper o recalcamento, a libido encontra as fixações necessárias nas experiências do início da vida sexual, que, por ocorrerem numa época de desenvolvimento incompleto – marcado pelo estado de desamparo e dependência absolutos –, são capazes de ter efeitos traumáticos. Conforme Freud, “de algum modo”, o sintoma repete essa forma infantil de satisfação, deformada pela censura que surge no conflito, via de regra transformada em uma sensação de sofrimento e mesclada com elementos provenientes da causa precipitante da doença (FREUD, 1917/1980, p. 427).

 

Para que a energia pulsional libidinal seja estancada, é indispensável os representantes morais e legais da lei simbólica, como;  Igreja – Escola – Família e Trabalho, instâncias encarregadas de fazer o papel de superego e de evitar um sofrimento e dor maior. Somente assim, nas tentativas recorrentes de mediações entre pulsõese desejos inconscientes às barragens e proibições do superego, que o ego conseguir-se-á mover e adaptar ao princípio da realidade.

Em contraponto a Psicanálise é amoral, existe objeto de desejo instintivamente – consciente ou inconscientemente; e o que vai coibir e promover a castração para sucumbir os desejos já não é natural. Ènecessário a repressão e o tratamento  analítico do sujeito que sofre,  buscando mitigação da dor e da angústia libidinal.Como nos três ensaios da sexualidade infantil (FREUD, 1905),o cientistatransforma as pulsões que ele sentia pela própria mãe em casos clínicos e estudo científico, visando construir respostas para esse enredo.

Através da análise, o outro adquire linguagem, ao Outro;

É na demanda endereçada ao Outro que circula o desejo, escamoteado, escondido, disfarçado na enunciação e nos intervalos do enunciado, nas pausas, nas exclamações e reticências; em suma, é na modulação da fala do sujeito que cabe avalizar a presença do desejo e a verdade que ele oculta. Portanto, é nas entrelinhas que se situa a verdade do inconsciente. A fala, ao ser libertada – “fala plena” (Lacan, 1953/1998, p. 248), verdadeira – deixa escapar, para além do vazio de seu dizer, o apelo do sujeito à verdade, que já está inscrita em alguma parte no inconsciente (DIAS, 2006, p. 403).

A Gradiva de Jensen, retrata o apaixonamento de um homem por uma imagem, em que ele passa a delirar de amor….quando Freud começa estudar sobre a indestrutividade do psiquismo. Esse despertar do desejo e desse sentimento intenso que uma pessoa nutre por outra, completamente circunstancial e inesperado = para Freud isso é altamente explicável e objetivo = reminiscências da infância, experiências la da tenra infância de amor, talvez recalcado.

O personagem viveu uma possível frigidez, até conhecer a gradiva; associando-a a uma mulher que existiu para ele. Freud trabalha com os desejos e as fantasias; experiência psíquica do personagem do livro.Quando o analista passa a ter acesso as memórias do sujeito em tenra infância, vai promovendo o elemento terapêutico e atribuir tratamento psíquico ao indivíduo, e este elaborando conteúdos através da lógica transferencial.

Na infância, Hanold mantinha amizade com uma menina de nome Zoe Bertgang. Essa convivência forneceu a base do interesse posterior do jovem pelos pés e pelo andar das mulheres. Zoe, graciosamente, costumava andar apoiando-se nas pontas dos dedos, deixando os pés numa posição quase perpendicular ao chão, posição reproduzida na peça encontrada pelo arqueólogo. A figura feminina em mármore parecia-lhe atual e viva: era como se seu autor tivesse reproduzido sobre a peça uma visão captada das ruas. Partindo dessa ideia, Hanold confere àquela escultura características que justificam sua origem e contemporaneidade. A ideia de que Gradiva possui aquele andar substitui o seu reconhecimento de que aquele andar pertence a uma mulher da época presente – Zoe Bertgang. “Por trás da impressão de que a escultura era viva e da fantasia de que o modelo era grego, estava a sua lembrança do nome Zoe, que significa ‘vida’ em grego” (FREUD, 1907/1970, p.57). Assim, mais adiante pontua Freud: “(…) existe uma perfeita analogia entre o soterramento de Pompeia – que fez desaparecer, mas ao mesmo tempo preservou o passado – e a repressão, de que ele tinha conhecimento através do que poderíamos chamar de percepção endopsíquica” (p.57).

 

Mas para que a análise aconteça tem de haver transferência, senão não há possibilidade de receptividade e escuta do material recalcado que chega e que demanda releitura, pois somente assim o psicanalista consegue fazer as interpretações necessárias ao paciente.  Se apresentando como objeto (analítico) desse objeto recalcado do paciente, o sujeito desejante encontra no analista através da transferência as conexões para diluir os recalques. Quando aabstinência do analista é mantê-lo sintomatizado, uma vez que lhe cabe não realizar o desejo, senão ocorre a transferência erótica.

Nós psicanalistas, não estamos preocupados com o campo comportamental do sujeito e nem com a lógica, e sim compromissados em estarmos conectados com o que está lhe afetando e o que está lhe causando sofrimento ou dor. É voltar-se para lógica interior do indivíduo com suas especificidades mais secretas e temíveis, propiciando ao indivíduo que sofre no plano das linguagens múltiplas e do simbólico, caminhos para estruturação no modo de existir.

Freud principia sobre a lógica arqueológica, em que cabe ao processo terapêutico o tempo de espera – espera do paciente, que em seu tempo próprio; vai podendo fazer suas próprias descobertas – lentas e de acordo com suas condições.A esfera que sofre dentro do psiquismo – medo,culpa, neurose obsessiva, revolta, angústia, histeria (grita, esperneia, chora, se movimenta de forma muito descontrolada), múltiplas fobias, somática, identificação.

Birman (1993) propõe que se afaste do discurso freudiano sobre o amor uma perspectiva pedagógica e moral. Opta assim por falar da paixão, da relação que ela estabelece com a ruptura e da descontinuidade imposta pela pulsão de morte. O autor destaca os paradoxos da paixão na sua relação com Tanatos:

A dificuldade que impõe a situação analítica é justamente a de conviver com o paradoxo, ou seja, abrir as fendas do ego para a irrupção da paixão e deixá-la falar de maneira interminável, sem satisfazê-la, pois a sua retomada pelo sujeito no plano discursivo implica que este deva dar inevitavelmente um destino à paixão despertada pela transferência. Com isso, a psicanálise devolve ao sujeito o encargo de conviver integralmente com sua paixão, com todos os riscos subjacentes, isto é, com seu fascínio e seus impasses (Birman, 1993,p.87).

Se os mecanismos de defesa falharam, e o sujeito psicossomatiza – sintomatiza; mas ainda assim o ego busca encontrar uma maneira de não mais se submeter ao objeto de tensão. Ex. hipocondríaco adoece, a mãe traz os filhos de volta para perto, implicando a conquista através dos ganhos secundários. Bem como, opróprio sofrimento me possibilita afastamento do objeto gerador da dor, porque o adoecimento será acolhido.  Síndrome de Bournout.

Concluindo, o texto de Gradiva, também é um tratado da técnica psicanalítica, pois através do estudo Freud permite compreender que a representação do processo de desejo do Jensen não era a Gradiva em si, e sim; algo remanescente de alguém vivido na tenra infância – remetendo a memória recalcada para um desfazimento. Toda a representação de mulher e de sexualidade foi recalcada na infância, a Amiga Zoe, amor do tempo da criança. Quando Jensen, encontra uma garota que o acolhe; o sintoma desaparece, e ele faz a elaboração.

O analista assume a posição de bancar o ser amado e se apresenta através do acolhimento e da escuta – para pontuar e interpretar, mas não é! Por isso a essencialidade da abstinência, pois somente assim, há que a energia pulsional encontrar o objeto, para poder pensar e conseguir fazer as elaborações psíquicas necessárias.Semelhança, com Miguel de Cervantes – O Grande Mentecapto.

Em Gradiva se inspira, aceitar o delírio e acolhê-lo; situar-se no mesmo plano da estrutura delirante, investigar o delíriopara tratá-lo.

Pela eclosão do processo delirante, que Jensen vai em busca da Gradiva,que sendo acolhido pela moça,ele consegue desidealizar o amor da infância. Ele consegue deflagrar e se libertar da situação de latência – voltando a sentir desejo e atração através da liberação dos desejos que estavam reprimidos. DE VOLTA A SUA CONDIÇÃO DE SER DESEJANTE, E PODER SE LANÇAR NA BUSCA DE SEU PRAZER……. O imaginário o libertou da condição delirante.

Freud, ao ser apresentado ao livro – Gradiva de Jensen por Jung, ele se depara com esse amor que se materializa com essa representação que extrapola para o real, interpretando-a; dentro de um direcionamento psicanalítico romanceada e através de um percurso que o propicia ao refinamento da técnica psicanalítica.

Com acesso a Gradiva, Freud consegue certa organicidade nos elementos teóricos da teoria psicanalítica permitindo-o à elaboração de alguns sintomas; como desamparo, perda, paixão e fantasia. Assimque ele já começou a pensar em cura, já que o recalque é desfeito quando o sujeito encontra o objeto do desejo, e as pulsões libidinais buscam novos direcionamentos e ressignificações…E as demandas de amor, novos cenários – histórias e enredos humanos…

 

 

DISCIPLINA: Módulos Nº 8 e9

OS CHISTES E SUA RELAÇÃO COM O INCONSCIENTE & GRADIVA DE JENSEN – Análise da Histeria Masculina.

Profª.Gema Galgani da Fonseca – Curso de Estudos das Obras de Freud e Pós Freud de Psicanálise pela ABMP/Brasília – DF, Doutoranda do Curso de Doutorado em Psicologia – UCES/ Buenos Aires, Mestre em Formação de Professores pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Especialista em Psicoterapia Psicanalítica pela Universidade de Uberaba (UNIUBE), graduada em Pedagogia e Psicologia. Docente de cursos de graduação e pós-graduação da FPM – Faculdade de Patos de Minas/MG. ggalgani.fonseca@gmail.com.

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MENDES, E. R. P. (2005). No Passo da Gradiva. Estudos de Psicanálise, (28), 51-60. Recuperado em 14 de abril de 2017, de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-34372005000100006&lng=pt&tlng=pt.

ROUDINESCO, E. (1944). Dicionário de psicanálise/Elisabeth Roudinesco, Michel Plon; tradução Vera Ribeiro, Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

TAYLOR, 1997, apud SILVA FILHO, W. J. Mente, mundo e autoconhecimento:uma apresentação do externalismo. Trans/Form/Ação, São Paulo, v.30, n.1, p.151-168, 2007.

 

         Dedico este trabalho,

        A todos os “Jensen” (s) pelo mundo afora……..

 

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