Interpretação Sonhos / Freud

2 de fevereiro de 2018 | Artigos | Sem comentários

Interpretação Sonhos / Freud

CURSO DE ESTUDOS DAS OBRAS DE FREUD E PÓS FREUD:
André Luiz Cerri da Silva
TURMA: K/2017

RESENHA – MÓDULO 4

Aspectos centrais acerca da interpretação dos sonhos em Freud

Conceitos-chave: sonhos, restos diurnos, texto, interpretação, experiência, conteúdo manifesto, conteúdo latente, transferência, sintomas, psicanálise.

Desde a antiguidade, o sonho tem sido objeto de investigação filosófica, na medida em que ele coloca interessantes problemas céticos quanto à possibilidade de termos um conhecimento real do mundo externo. Tal como sugerido por Descartes, os sonhos impõem uma ameaça à possibilidade do conhecimento porque pareceria impossível excluir, em um dado momento, que alguém estaria sonhando naquele mesmo momento. Já a psicanálise, por outro lado, desde os primórdios do seu nascimento, parte do pressuposto de que é importante o conhecimento das funções dos sonhos e seus significados. Freud, até o fim de sua vida, compreendeu os sonhos como fenômenos resultantes de desejos provenientes da infância e que, quando proibitivos ou interditos, acabam reprimidos.
A tarefa de interpretar os sonhos tornou-se, então, de grande importância à psicanálise, uma vez que os sonhos representam uma importante via de acesso ao inconsciente. Durante os primórdios da psicanálise, o critério para avaliar um psicanalista consistia na condição de uma maior ou menor habilidade de interpretar os sonhos, dando significado aos conteúdos simbólicos manifestos. Mas hoje existem outras formas de acesso ao inconsciente, tais como comunicações não-verbais, somatizações, manifestação espontânea de ideogramas, narrativa de livros etc.
A decodificação dos símbolos no sonho é essencial para a interpretação. Zimerman alerta para o risco de o analista acabar ficando menos interessado no paciente e mais ligado nas suas capacidades de fazer “belas interpretações” de um determinado aspecto parcial, dissociado da totalidade.
Qual a relação dos sonhos com o desejo? De alguma forma, todo sentimento humano está direta ou indiretamente em relação com o desejo. Ainda mais se levarmos em conta o fato de que a formação dos desejos se origina de inevitáveis “faltas” ocorridas no passado, à espera de serem preenchidas. Mas a partir de teóricos como M. Klein, os sonhos passam a ser considerados como forma de comunicação, às vezes de sentimentos bastante primitivos, por meio de um código estabelecido entre o par analítico. Freud alegou que “o sonho infantil é a reação a uma experiência vivida durante o dia quedeixou algum arrependimento, algum anseio ou um desejo não realizado. Osonho traz a realização direta, não encoberta, desse desejo” (Freud, 1916, p.138).
O sonho é uma experiência sensória, visual para a maioria de nós, mas podendo ser também tátil, gustativa, auditiva etc., além de ser também frequentemente uma experiência emocional. Assim que tentamos a nos lembrar de um sonho, começamos a traduzir, em uma maneira de falar, essa experiência sensorial e afetiva em palavras. Começamos, assim, a contar uma história sobre o que ocorreu no sonho.
Um sonho, na medida em trabalhamos com ele e tentamos interpretá-lo em análise, é uma série de palavras. É, em suma, um texto. O analista trabalha com o texto fornecido pelo analisando. Esse texto é frequentemente adicionado à medida que o analisando começa a se associar ao sonho. Freud nos adverte a levar a sério as versões apresentadas, tanto a original quanto a corrigida.
Independente de suas possíveis imperfeições este texto é o principal material com o qual o analista e o analisando trabalham. O sonho em si mesmo está desaparecido ou ainda parcialmente, se não vividamente, presente na mente do analisando; mas, de qualquer forma, não pode ser “transferido” de forma direta para o analista. E, mesmo que pudesse ser diretamente “transferido”, o analista não experimentaria necessariamente todo o conteúdo (sons, imagens e outras experiências) “transmitido” pelo analisando exatamente como o analisando o experimentou – afinal, cada um de nós é afetado de maneira diferente por um mesmo filme ou vídeo, por exemplo Se o analisando é um artista e pinta imagens que parecem render partes do sonho, o analista deve, no entanto, perguntar ao artista para falar sobre essas pinturas, pois, mesmo que uma imagem valha mil palavras, não se explica por si mesmo.
O que o principalmente interessa ao analista são as interpretações do analisando sobre as imagens, e não as próprias projeções do analista com base em sua própria personalidade e experiência de vida. Portanto, no que diz respeito à prática psicanalítica, o sonho é um texto ou fala oral (que pode ser transcrita mais ou menos acuradamente) produzida pelo analizando acerca do seu sonho.
Um sonho, na medida em que desempenha um importante papel para a análise, já é uma espécie de tradução: é a representação ou tradução de uma experiência principalmente visual e afetiva em palavras. E com as palavras faladas são o que predominantemente se trabalha na psicanálise.
Pode-se pensar que nosso objetivo é então trabalhar a partir do discurso do analisando de volta à sua experiência inicial do sonho; podemos imaginar isso como na figura a seguir (na qual a seta indica o processo de tradução):

Recontar um sonho: experiência visual/afetiva  texto/discurso
Analisando um sonho: texto/discurso  experiência visual/afetiva

Se pudéssemos “desfazer” a tradução ou reverter o processo de tradução, isso provavelmente permitiria que outras pessoas experimentassem o sonho tal como o sonhador o teve – isto é, ter o mesmo sonho.No entanto, da mesma forma como ocorre nos filmes, nem todos experimentamos um filme da mesma maneira, mesmo que o vejamos lado a lado no mesmo cinema, pois cada um nos situa de forma diferente em relação aos vários personagens e dificuldades no filme dependendo de nossos próprios antecedentes, identificações, desejos, fantasias, e assim por diante.
A tese fundamental de Freud aqui é que o que precisamos, para interpretar um sonho, não é uma imagem tão precisa quanto possível, ou uma réplica da experiência visual/afetiva inicial que o sonhador teve. Em vez disso, precisamos obter os pensamentos e desejos inconscientes iniciais que entraram na construção do sonho como uma experiência visual/afetiva. Em outras palavras, o que é mais importante para nós do que o sonho (exatamente como ele é lembrado) é o que fez com que o sonho surgisse em primeiro lugar. A hipótese de Freud pode ser ilustrada da seguinte maneira (onde a seta indica novamente um processo de tradução):

Pensamentos/desejos iniciais  experiência visual/afetiva

A experiência visual/afetiva geralmente é confusa e opaca. Mas, na opinião de Freud, pensamentos e desejos que deram origem à experiência visual/afetiva não são assim confusos e opacos. Ele chama a experiência visual/afetiva deconteúdo manifesto do sonho – é o que podemos lembrar ao despertar (e podemos incluir no conteúdo manifesto a subseqüente transformação dele em um texto ou discurso escrito). E ele denomina os pensamentos e desejos iniciais que levaram à construção do sonho deconteúdo latente.
Freud defende a existência de dois processos de transformação: a) pensamentos são transformados em imagens (quando pensamentos abstratos são transformados em quadros de pintura, por exemplo); e b) conteúdos latentes são transformados em conteúdos manifestos. O termo alemão para esses processos de transformação é Übertragung e quer dizer “tradução” ou “transferência”.É o mesmo termo que Freud usa para transferência no sentido psicanalítico da transferência ou deslocamento de uma suspeita ou desconfiança que um analisando tem sobre o pai ou o cônjuge, por exemplo, para o analista.
Freud obteve um avanço na interpretação dos sonhos a partir do fato de que ele formulou e testou a hipótese de que era perfeitamente possível ver os sonhos como sintomas, como estruturados como sintomas, minissintomas eles mesmos. Assim como os sintomas individuais, cada um tinha um significado secreto – desconhecido tanto para aqueles que cercam o sofredor do sintoma quanto para o próprio sofredor – sonhos também, cada um deles com um significado secreto que nem o sonhador nem os que estavam ao redor do sonhador poderiam facilmente adivinhar
Para Freud, sempre havia mais por detrás de qualquer sintoma individual do que os olhos pudessem alcançar. Ele postulou que havia mais por detrás de um sonho específico do que pudessem perceber os olhos ou os ouvidos. Haveriam pensamentos e desejos latentes que se transformam pelos sonhos em um meio ilegível, de modo a ser irreconhecível pela consciência.Vale ressaltar que o que conta como sintoma na psicanálise é algo de que um paciente se queixa – lamentando que algo está entrando no caminho da sua vida ou arruinando-a – e não acredita ser capaz de entender. Os analistas não tomam algum tipo de postura mestre e dizem aos pacientes que esse ou aquele comportamento em que estão envolvidos – seja bebendo, consumindo drogas, compulsão, vômitos etc. – constitui um sintoma baseado em algum suposto “objetivo padrão de comportamento normal “contra o qual se julga o comportamento de qualquer indivíduo. Os psiquiatras e os psicólogos adotam frequentemente essa postura, mas os psicanalistas não (ou pelo menos não devem, como não há base para tal posição na teoria psicanalítica, mesmo que alguns analistas individuais se desviem aqui). Na análise, um sintoma é o que o analisando considera problemático em sua vida, e não o que o analista considera sintomático na vida do analisando.É a sua incompreensibilidade para os pacientes que os constitui como sintomas acessíveis ao tratamento psicanalítico.
Os analisandos que contam seu sonho (e às vezes temos que incentivá-los repetidamente a lembrá-los e a recontá-los), caracterizando-os com adjetivos como “bizarro”, “perplexo” ou “impenetrável”, estão nos dizendo que são sintomas para eles. Microsintomas, talvez, mas quanto mais eles incomodam ou geram desconfiança no analisando, mais nos justificamos em tratá-los como sintomas completos (embora de curta duração).Sua aparente impenetrabilidade é o que nos justifica em assumir a existência de uma camada de significado por trás deles.
O conteúdo latente de um sonho geralmente inclui pensamentos e desejos que poderiam ser tidos pelo sonhador como muito picantes, perigosos ou imorais para representá-los diretamente em um sonho. Isso os leva a ser representados indiretamente, de uma maneira disfaçada. Não são apenas os nossos desejos supostamente “realistas” ou facilmente realizáveis que buscam satisfação; até mesmo nossos desejos secretos e/ou “pouco realistas” pretendem ser encenados nos sonhos de uma maneira que raramente permitimos que sejam encenados na vida cotidiana e vigente.
A hipótese de Freud é que o conteúdo latente dá origem ao conteúdo manifesto através de um processo de tradução complicado em que os pensamentos e os desejos se traduzem em imagens. Esta tradução de idéias em imagens ocorre também num jogo intitulado Rébus. Este jogo era jogadopelos romanos e estes teriam gostado de decifrar seus enigmas durante as refeições.Freud propõe que vejamos um sonho como um jogo deste tipo.
Considerando que o trabalho realizado pelo sonho (conhecido como o trabalho dos sonhos, dreamwork) transforma os pensamentos e desejos latentes em uma experiência visual, o trabalho que é realizado na análise se traduz em direção contrária do texto concebido para descrever a experiência visual para os pensamentos latentes e desejos. A psicanálise, portanto, executa a operação exatamente oposta do trabalho do sonho, “desfazendo” o que o trabalho do sonho fez. O que este faz a psicanálise desfaz; O que o trabalho dosonho vela, esconde, a psicanálise revela.

A figura demonstra a “engenharia reversa” da Psicanálise: dreamwork (trabalhodo sonho); manifest content (conteúdo manifesto); psychoanalytic work (trabalho psicanalítico) e latent content (conteúdo latente).

Bibliografia consultada:

FINK, B.(2017) Aclinical introduction to Freud : techniques for everyday practice, First edition.|New York, NY:W. W. Norton & Company, Inc.
FREUD, S.(1999)A interpretação dos Sonhos, Edição C.100 anos,Imago-RJ.1999.
FREUD, Sigmunde BREUER, Josef [(1916-1917) 2016]: Conferências Introdutórias à Psicanálisein Obras – Vol. 13. São Paulo: Companhia das Letras.
MITCHELL, Stephen A. (1946): Freud and Beyond: a history of modern psychoanalytic thought. New York: Basicbooks.
NETTO, Geraldino A. F. (2010): Doze Lições Sobre Freud & Lacan. Campinas: Pontes Editores.
ZIMERMAN, David E. (2007): Fundamentos Psicanalíticos [recurso eletrônico]: teoria, técnica e clínica: uma abordagem didática. – Dados eletrônicos. – Porto Alegre: Artmed.
ZIMERMAN, David E. (2008):Manual de técnica psicanalítica [recurso eletrônico] : umarevisão/David E. Zimerman. – Dados eletrônicos. – PortoAlegre : Artmed.
ABMPDF (2017). Apostilas e textos do Módulo 4–Curso de Psicanálise Freud/Lacan – Dados eletrônicos – Brasília.

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