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“Casamento e a Tensão entre o Ser e o Pertencer”

Casamento exige fusão. Esta exigência é o motivo de muitas dificuldades que os casais encontram na vida a dois. Casamento é uma aliança firmada entre um homem e uma mulher.

Casamento é mais que morar junto, casamento não é como dois colegas dividindo a casa.

Casamento é decisão, vontade e comprometimento que vai exigir investimento, paciência e memória fraca. Lembrei-me da memória fraca porque é uma fala que chamou-me a atenção no filme Frida.

A fala é do pai da Frida Kahlo dirigida a ela quando questionado porque vive há tanto tempo com a esposa que é mostrada como alguém amarga, dura, autoritária em contraponto ao fato dele ser um homem gentil, sensível, paciente.

Ele diz que no casamento é preciso memória fraca, talvez possamos  substituir isto por perdão.

Segundo Edwin Louis Cole em seu livro, Mulher Única, escrito em parceria com sua esposa Nancy Corbertt Cole, o casamento é a relação mais propensa a se aproximar do céu ou do inferno na vivência humana.

Ainda segundo eles, o casamento tem o potencial de nos fazer experimentar o sentimento de suprimento de necessidades sociais e biológicas, bem como de quatro desejos fundamentais: ser, procriar, pertencer e possuir. Pelo contexto do livro observamos que quando falam em pertencer e possuir não se referem a uma relação dividida entre o autoritarismo e a subserviência, mas tratam de entrega e cuidado mútuo, de responsabilidade.


Faremos uma reflexão sobre a chamada crise da fusão, o período do ajuste entre o casal durante o primeiro período da convivência.

A maioria de nós não tem a noção exata daquilo em que está se metendo quando se casa, ao menos, da primeira vez. Ainda há muitos mitos sobre o casamento. O fato é que alguns se casam muitas vezes e ainda assim, não sabem muito bem o que estão fazendo. Talvez, por isso continuem se casando e tendo dificuldade em manter seus casamentos.

Vivemos numa sociedade que não dá valor a compromissos, vínculos, responsabilidades, altruísmo, perdão, investimento de tempo, investimento de energia, disposição em ouvir, disposição em observar e perceber.

A razão é obvia, estas coisas dão trabalho, exigem tempo, exigem paciência, exigem doação.

Nós estamos vivendo numa sociedade imediatista, individualista, arrogante.

As crianças estão crescendo neste  modelo social.

As influências externas tem um poder de persuasão muito forte que acentua uma tendência natural humana para a satisfação de suas próprias necessidades, para a busca de seu próprio prazer, sem importar-se com os demais.

Este cenário dificulta a integração dos casais, atrapalha os ajustes para a convivência harmônica.

No casamento, após a sensação tão gostosa da satisfação pela realização de um desejo vem a necessidade de superação de alguns desafios e cada superação vai aproximando as pessoas daquela experiência de viver um dos tipos de relação mais propensa a fazermos sentir plenos.

E é por isso que as pessoas se casam e vão continuar se casando. Algumas das boas motivações para o casamento são: querer esse vínculo forte, essa confiança no amor do outro e no amor que se sente, que não se limita a sentimentos, mas se compromete com a vontade de fazer dar certo.

É, também, querer ter uma companhia para todas as horas, um suporte nos momentos mais difíceis quando alguém não atura a si mesmo e encontra alguém disposto a fazê-lo. É querer ter alguém a seu lado para compartilhar alegrias, vitórias e sucesso.

Querer alguém que o faça rir, que ria com você, que o deixe a vontade para brincar como criança e compartilhe com você quando quiser pensar, refletir, amadurecer idéias. É estar disposto a estar presente continuamente apoiando projetos enquanto desenvolve os seus, certo de que terá o mesmo suporte.

É verdade que todas essas coisas se podem ter diluídas em amigos, nos filhos, na família. Porém, quando se escolhe viver com alguém numa relação de envolvimento integral, em geral, se acredita que aquela pessoa concentra muitas dessas possibilidades e que se está oferecendo a ela, a mesma coisa. Significa que houve identificação e afinidade nas visões de mundo.

Quando se acredita assim, a superação da questão da consolidação da identidade é possível e, tão mais rápida vai acontecer, quanto for a compreensão de alguns princípios.

Primeiro, não se deixa de ser quem é porque casou-se.

Há toda uma história de formação familiar, de influências culturais e educacionais registradas no percurso, que não pode ser desprezada. Entretanto, é preciso saber e querer ser melhor do que se é, estar aberto ao aprendizado de viver com o outro e passar a investir numa identidade de casal.

Essa construção deve agregar e não destruir. Vai promover algumas reformas na construção anterior, não uma demolição. Quando se tenta demolir a construção anterior, há uma boa probabilidade da motivação para o casamento ter sido equivocada, pode-se ter enxergado no outro apenas uma projeção de desejos pessoais e não o que ele é de fato. É hora de analisar e refletir. Insistir na demolição é ir rumo ao sofrimento e ao fracasso. Passa-se a conviver com o ressentimento, a frustração e o desapontamento.

Segundo, para se construir a identidade do casal a partir das identidades individuais é preciso algum nível de maturidade e maturidade envolve abrir mão do orgulho e do individualismo. Estas são características de imaturidade. É preciso um desejo de servir ao seu companheiro, estar atento às suas necessidades e desejos para procurar atende-los. É preciso que isto seja uma via de mão dupla, caso contrário àquela parte que continuamente se doa em algum momento pode cansar-se pela falta de reciprocidade ou adoecer por causa desta falta.


Vida de casado não é como a de solteiro, muitos homens e mulheres sofrem e fazem sofrer com esta insistência em querer viver as duas coisas. Casamento implica em opção.

Quando se faz uma opção significa que se abriu mão das outras, que está seguro em querer viver outra experiência.

Hábitos precisam ser revistos, há uma preocupação de alguém com você, com seu bem-estar, há negociações sobre as questões que envolvem a ambos, há entrega pessoal e responsabilidade com a outra pessoa que se entrega. Não se pode fugir disso, tem-se que assumir a responsabilidade. A resposta a este compromisso valerá a pena quando os envolvidos se concentram no mesmo objetivo.

No casamento não se pode nem se deve aceitar uma tentativa de desconstrução da identidade pessoal, isso significa falta de amor que é essencialmente falta aceitação.

Quando alguém se casa não deixou de Ser quem é, apenas se decidiu agregar sua existência a de um outro que também É.

Neste tipo de relação não há lugar para individualismo, para presunção e superioridade. Este é um tipo de relação que exige generosidade.

Necessariamente, ambos terão de trabalhar na harmonia da relação, abrir mão do que for possível, daquilo que se refere a comportamentos aprendidos que podem ser reformulados. Faz parte do viver a dois, faz parte da generosidade de abrir o coração e investir seu melhor na pessoa que foi escolhida para se viver junto.

Faz parte da construção de uma identidade do casal que é observada por quem está de fora.

Por amigos e conhecidos que enxergam as duas pessoas como uma dupla.

Quando se caminha assim: aprendendo, cedendo, sendo presenteado com cessões e atenções; as pessoas acabam vendo semelhanças e marcas que identificam o casal, que o caracterizam. É gostoso e estimulante quando se conhece casais assim.

Quando encontrar, acredite! Levou tempo, houve uma decisão de investimento recíproco, uma intensa participação de ambos para a estabilização da convivência e que este trabalho é contínuo, só que vai ficando mais fácil e mais suave na medida em que as pessoas amadurecem este vínculo. Lembre-se que não foi sem esforço.

O grande desafio do casamento é Ser mesmo estando entregue a outro, disposto a mudanças para o benefício da união que foi estabelecida. Esse talvez seja o mistério sobre o qual a bíblia fala quando compara a relação matrimonial com a relação entre Deus e a igreja. Não há receitas, só se aprende fazendo e chega um momento em que se percebe que houve o  aprendizado.

Edna Cassiano

É Sexóloga, Psicanalista, Escritora Membro da ABMP-DF

 

 

 

 

Artigo: Desorientação Sexual

 

 

Já não há muito sentido em se argumentar quanto a conscientizar as pessoas sobre os prejuízos causados pela repressão sexual, da maneira que foi introduzida em tantas culturas e sociedades historicamente. Se todo excesso é prejudicial, considerar o prazer sexual, em si um, em algo indigno e sujo, teve conseqüências avassaladoras sobre muitos, durante muito tempo.

 

Freud na expressão de seus estudos psicanalíticos identificou que os seres humanos nascem com impulso vital para busca do prazer. O prazer nos primeiros anos de vida é atingido através dos órgãos sensoriais. Para o bebê, o prazer consiste em estar seco, bem alimentado e agasalhado. Quanto às sensações prazerosas, vêem do próprio corpo do bebe. Com seu desenvolvimento a fonte de prazer vai deixando de ser exclusivamente aquela advinda do próprio corpo, passando a vir de sensações que tem origem em algo ou alguém que elegemos como nosso objeto erótico. Assim surge o desejo pelo outro. Este desenvolvimento vai acontecendo lentamente e pode ser prejudicado por uma série de fatores culturais, dentre os quais a interferência de figuras significativas mal orientadas, que começam a incutir conceitos negativos sobre sexo e sobre a sexualidade. Conceitos expressos verbalmente ou por exemplos cotidianos. Exemplo de prejuízo causado pela repressão sexual é a dificuldade, ainda persistente para algumas mulheres, quanto ao orgasmo. Freud já assinalava também a imensa dificuldade, do ser humano, de integrar a sexualidade aos demais aspectos de sua vida. Ele identificou que muitos sofrimentos neuróticos eram causados pela repressão sexual.

 

Entretanto, hoje temos um cenário bem diferente na nossa sociedade. A repressão sexual foi substituída pelo excesso de apelo nesta área. A mídia, sem dúvida, teve uma contribuição positiva quando propôs a discussão das questões relacionadas à sexualidade de forma mais ampla e abriu espaço para que educadores e especialistas nas relações humanas, tivessem a possibilidade de esclarecer as pessoas sobre este tema. Porém, ao longo do tempo essa preocupação orientadora deu lugar ao mercantilismo do ibope a chamada apelativa ao sexo irresponsável e ilusório, superestimado. A sexualidade tem se vulgarizado através da mídia. O sexo tem sido banalizado.

 

Médicos, sexólogos, terapeutas, psicólogos e psicanalistas vêem a questão com ressalvas. Todos concordam que a informação é o caminho da aprendizagem. O detalhe que preocupa é que faltam critérios para sua difusão. É notório que poucos programas divulgam informações realmente científicas.

 

O bom senso tem dado lugar a total falta de senso crítico. A programação apelativa superou os limites de estilo e horário. Está disponível em novelas, filmes e revistas, internet, programas de entrevistas, etc. Crianças vêem e não compreendem. Repetem o que vêm de forma desvirtuada de contexto. Os pais ficam sem saber como resolver a questão. Como a criança fantasia muito, pode haver distorções que repercutem ao longo da vida.

 

Para os adolescentes, o estímulo da mídia não gera apenas vontades, mas leva às ações. As personagens eróticas dos programas dirigidos aos jovens exploram partes do corpo e não valorizam a pessoa integralmente.  É preciso que se dê aos jovens o esclarecimento quanto à sexualidade ser a capacidade humana de expressar-se em relação a um outro em especial. Inicia-se na adolescência e prossegue gradativamente até a maturidade, quando se torna plena.  Alguém só está pronto para o exercício dela quando enxerga a pessoa com quem se está junto com afeto, respeito, confiança. Só se está pronto para o exercício dela quando há a percepção de estar maduro para assumir a responsabilidade por seus atos.

 

Enfim, estamos hoje vivenciando outro tipo de excesso que também pode promover conseqüências avassaladoras sobre muitos, por um tempo que não sabemos qual será.

 

 A queixa que chega a clínica com freqüência, diz respeito a questões existenciais causadas por uma desorientação. A sexualidade tratada de forma banal prejudica não somente crianças e jovens, mas, muitos adultos têm sua referência de aprendizado através do que é apresentado na mídia. Entregam-se a fantasias e crêem em mitos que ela estabelece, dando ao sexo uma dimensão difícil de ser alcançada pelos simples mortais. Isso tem gerado angústia e desencontros, frustrações desnecessárias provocadas por dificuldade em atender superexigências pessoais e do parceiro (a). A informação desprovida de realidade desinforma e leva a desorientação que prejudica nossa saúde integral.

 

Acabamos por criar uma dificuldade enorme, para aquilo que poderia ser simples, porque está relacionado a afeto, parceria, diálogo, vontade, ética, sensibilidade, interesse, valorização e compromisso de cuidado recíproco. Chegar a isso, nestes nossos tempos, requer agora, uma revisão de conceitos ou estabelecimento deles através de uma boa orientação e de muita informação esclarecedora.

Elas existem, mas precisam ser garimpadas, peneiradas da forma como se faz para se achar uma pedra preciosa. A boa notícia é que é bem mais fácil do que chegar às tais pedras. Creia que informação que se transforma em conhecimento e sabedoria, tem muito mais valor, principalmente porque promove qualidade de vida.

Edna Cassiano é Escritora e Psicanalista - Membro da ABMP-DF

 

 

 

 

 


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