{"id":1114,"date":"2019-03-20T15:02:47","date_gmt":"2019-03-20T18:02:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.abmpdf.com\/?p=1114"},"modified":"2019-03-20T15:02:47","modified_gmt":"2019-03-20T18:02:47","slug":"forclusao-psicose","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.abmpdf.com\/?p=1114","title":{"rendered":"FORCLUS\u00c3O &#038; PSICOSE"},"content":{"rendered":"<p>O que \u00e9 forclus\u00e3o ou foraclus\u00e3o<\/p>\n<p>(* Psicose* )<\/p>\n<p>Conceito comumente descrito pelo psicanalista franc\u00eas Jacques Lacan para desig\u00adnar\u00a0<em>um mecanismo espec\u00edfico da psicose.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><em>A forclus\u00e3o \u00e9 o mecanismo \u201cps\u00edquico\u201d na qual se produz rejei\u00e7\u00e3o de um significante (imagem ac\u00fastica e simb\u00f3lica) que \u00e9 fundamental\u00a0(neurose) para fora\u00a0do universo simb\u00f3lico do sujeito (neur\u00f3tico) e isso leva o sujeito direto a \u201cPsicose\u201d<\/em><\/p>\n<p>Quando essa rejei\u00e7\u00e3o se produz, o signi\u00adficante \u00e9 \u201cforaclu\u00eddo\u201d expulso.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 integrado no inconsci\u00adente, como no\u00a0recalque (neurose)\u00a0e retorna sob forma\u00a0alucinat\u00f3ria no real do sujeito.\u00a0(Psicose).<\/p>\n<p>No Brasil tamb\u00e9m se usam foraclus\u00e3o, forclus\u00e3o, rep\u00fadio,rejei\u00e7\u00e3o e pre\u00adclus\u00e3o visto que o termo foraclus\u00e3o foi introduzido por Jacques Lacan em 1956, na sess\u00e3o de seu semin\u00e1rio dedi\u00adcado \u00e0s psicoses e \u00e0 leitura do coment\u00e1rio de\u00a0Sigmund Freud sobre a paran\u00f3ia do jurista Daniel Paul Schreber.<\/p>\n<p>Para compreender a g\u00eanese desse conceito, h\u00e1 que relaciona-Io com a utiliza\u00e7\u00e3o que Hip\u00adpolyte Bernheim fez, em 1895, da no\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>alucina\u00e7\u00e3o negativa: esta designa a\u00a0aus\u00eancia de percep\u00e7\u00e3o de um objeto presente no campo do sujeito\u00a0ap\u00f3s a hipnose<\/em>.<\/p>\n<p>Freud retomou o termo, por\u00e9m n\u00e3o mais o empregou a partir de 1917, na medida em que, em 1914, prop\u00f4s uma nova classifica\u00e7\u00e3o\u00a0das neuroses, psicoses e per\u00advers\u00f5es no \u00e2mbito de sua teoria da castra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Deu ent\u00e3o o nome de\u00a0<em>Verneinung<\/em>\u00a0ao mecanismo verbal pelo qual o conte\u00fado recalcado (ics) \u00e9 reconhecido de maneira negativa pelo sujeito, sem no entanto ser aceito: \u201cN\u00e3o \u00e9 meu pai.\u201d Em 1934, o termo foi traduzido em franc\u00eas por\u00a0<em>n\u00e9gation<\/em>\u00a0\u00a0[nega\u00ad\u00e7\u00e3o].<\/p>\n<p>Na forclus\u00e3o h\u00e1 (nega\u00e7\u00e3o da inscri\u00e7\u00e3o do nome do pai (ics) que privil\u00e9gio \u00e9 outorga da fala da m\u00e3e)<\/p>\n<p>Quanto \u00e0\u00a0<em>renega\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0(<em>Verleugnung<\/em>), Freud a caracterizava como a recusa, por parte do sujeito, a reconhecer a realidade de uma percep\u00e7\u00e3o negativa \u2013 por exemplo, a aus\u00eancia de p\u00eanis na mulher.<\/p>\n<p>Paralelamente, na Fran\u00e7a, Pichon intro\u00adduzia o termo \u201cescotomiza\u00e7\u00e3o\u201d, para designar o\u00a0mecanismo de enceguecimento inconsciente pelo qual o sujeito faz desaparecerem de sua mem\u00f3ria ou sua consci\u00eancia fatos desagrad\u00e1\u00adveis.\u00a0Em 1925, uma pol\u00eamica op\u00f4s Freud a Ren\u00e9 Laforgue a prop\u00f3sito dessa palavra. La\u00adforgue propunha traduzir por escotomiza\u00e7\u00e3o tanto a renega\u00e7\u00e3o (<em>Verleugnung<\/em>)\u00a0quanto um outro mecanismo, pr\u00f3prio da psicose e, em especial, da esquizofrenia.\u00a0Freud recusou-se a aceitar e distinguiu, de um lado, a\u00a0<em>Ver\u00adleugnung<\/em>, e de outro, a\u00a0<em>Verdrangung<\/em>\u00a0(recalque).<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o descrita por Laforgue despertava a id\u00e9ia de uma anula\u00e7\u00e3o da percep\u00e7\u00e3o, ao passo que a exposta por Freud mantinha a percep\u00e7\u00e3o, no contexto de uma negatividade: atualiza\u00e7\u00e3o de uma percep\u00e7\u00e3o que consiste numa rene\u00adga\u00e7\u00e3o.Do ponto de vista cl\u00ednico, a pol\u00eamica entre os dois homens revelou que faltava engendrar um termo espec\u00edfico para\u00a0designar o mecanis\u00admo de rejei\u00e7\u00e3o pr\u00f3prio da psicose: essa palavra, com efeito,\u00a0n\u00e3o figurava no vocabul\u00e1rio freu\u00addiano, ainda que Freud procurasse elaborar seu conceito.<\/p>\n<p>Embora houve um tempo pol\u00eamico e diversas discuss\u00f5es em torno do termo, as coisas estavam nesse p\u00e9 quando\u00a0<em>\u00c9douard Pichon<\/em>\u00a0publicou, em 1928, com seu tio\u00a0<em>Jacques Damourette<\/em>, um artigo intitulado:<\/p>\n<p>\u201cSobre a sig\u00adnifica\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica da nega\u00e7\u00e3o em franc\u00eas\u201d.<\/p>\n<p>A partir da l\u00edngua, e n\u00e3o mais da cl\u00ednica, ele tomou emprestado ao discurso jur\u00eddico o adje\u00adtivo\u00a0<em>forclusif<\/em>\u00a0 [foraclusivo ou excludente (do uso de um direito n\u00e3o exercido no momento opor\u00adtuno)] para expressar a id\u00e9ia de que o segundo membro da nega\u00e7\u00e3o em franc\u00eas aplicava-se a fatos que o locutor j\u00e1 n\u00e3o encarava como fazen\u00addo parte da realidade. Esses fatos eram como que foraclu\u00eddos.<\/p>\n<p>O exemplo fornecido pelos dois autores n\u00e3o deixou de ter certo humor, tratando-se de dois membros da\u00a0<em>Action Fran\u00ad\u00e7aise<\/em>. Com efeito, eles mencionaram a cita\u00e7\u00e3o de um jornalista, extra\u00edda do\u00a0<em>Journal<\/em>\u00a0de 18 de agosto de 1923 a prop\u00f3sito da morte de Es\u00adterhazy: \u201cO caso Dreyfus, diz ele [Esterhazy], \u00e9 doravante um livro fechado.<\/p>\n<p>Deve ter-se ar\u00adrependido de algum dia o ter aberto. Os autores sublinharam que o emprego do verbo arrepen\u00adder-se implicava que um fato que realmente existira fora efetivamente exclu\u00eddo do passado.<\/p>\n<p>E aproximaram a escotomiza\u00e7\u00e3o do foraclusi\u00advo: \u201cA l\u00edngua francesa, atrav\u00e9s do foraclusivo [<em>forclusif<\/em>], exprime esse desejo de escotomiza\u00ad\u00e7\u00e3o, assim traduzindo o fen\u00f4meno normal do qual a escotomiza\u00e7\u00e3o, descrita na patologia mental pelo Sr. Laforgue e por um de n\u00f3s [Pi\u00adchon],\u00a0constitui o exagero patol\u00f3gico.\u201d (psican\u00e1lise)<\/p>\n<p>Em 3 de fevereiro de 1954, Lacan come\u00e7ou a atualizar a quest\u00e3o do foraclusivo e da esco\u00adtomiza\u00e7\u00e3o, por ocasi\u00e3o de um debate com o fil\u00f3sofo hegeliano Jean Hyppolite (1907-1968), ele pr\u00f3prio confrontado com essa quest\u00e3o por interm\u00e9dio da\u00a0<em>Verneinung<\/em>,<\/p>\n<p>a qual propunha tra\u00adduzir por denega\u00e7\u00e3o, em vez de nega\u00e7\u00e3o. La\u00adcan inspirou-se no trabalho de Maurice Mer\u00adleau-Ponty (1908-1961)\u00a0<em>Ph\u00e9nom\u00e9nologie de la perception<\/em>, e, sobretudo nas p\u00e1ginas desse livro dedicadas \u00e0 alucina\u00e7\u00e3o como\u00a0\u201cfen\u00f4meno de desintegra\u00e7\u00e3o do real\u201d, componente da inten\u00adcionalidade do sujeito.<\/p>\n<p>Na an\u00e1lise do caso do \u201cHomem dos Lobos\u201d publicada em 1918, Freud explicou que a g\u00ea\u00adnese do reconhecimento e do desconhecimento da castra\u00e7\u00e3o em seu paciente passava por uma atitude de rejei\u00e7\u00e3o (ou,\u00a0<em>Verwerfung<\/em>) que consis\u00adtia em s\u00f3 ver a sexualidade pelo prisma de uma teoria infantil.<\/p>\n<p>Para ilustrar sua coloca\u00e7\u00e3o, ele evocou uma alucina\u00e7\u00e3o que seu paciente Serguei Cons\u00adtantinovitch Pankejeff tivera na inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Este \u201cvira\u201d seu dedo m\u00ednimo cortado por seu cani\u00advete, apercebendo-se em seguida da inexis\u00adt\u00eancia do ferimento.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito da \u201crejei\u00e7\u00e3o de uma realidade apresentada como inexistente\u201d, Freud sublinhou que isso n\u00e3o era um recalca\u00admento,\u00a0porque um recalque \u00e9 algo diferente de uma rejei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Comentando esse texto em seu di\u00e1logo de 1954 com Hyppolite, Lacan forneceu como correspondente franc\u00eas de\u00a0<em>Verwerfung<\/em>\u00a0a palavra\u00a0<em>retranchement\u00a0<\/em>supress\u00e3o, elimina\u00e7\u00e3o. Dois anos depois, retomou a distin\u00e7\u00e3o freudiana en\u00adtre\u00a0neurose e psicose,\u00a0para lhe aplicar a termi\u00adnologia segundo a qual,\u00a0na psicose, a realidade nunca \u00e9 realmente escotomizada.<\/p>\n<p>Por fim, de\u00adpois de comentar longamente a paran\u00f3ia de Schreber e Lacan passou a usar o conceito de \u201cNome-do-\u00adPai\u201d Lacan prop\u00f4s traduzir\u00a0<em>Verwerfung<\/em>\u00a0por foraclus\u00e3o.<\/p>\n<p>Compreende-se com isso que o mecanismo (ps\u00edquico inorg\u00e2nico) es\u00adpec\u00edfico de estudo de caso de psicose (na psican\u00e1lise), aqui a ser definido \u00e9 a partir da para\u00adn\u00f3ia (delirante),\u00a0que consiste na\u00a0rejei\u00e7\u00e3o primordial de um significante\u00a0fundamental para fora do\u00a0universo simb\u00f3lico do sujeito. (Evitando assim a inscri\u00e7\u00e3o da inst\u00e2ncia da Neurose).<\/p>\n<p>Lacan distinguia o me\u00adcanismo do recalque, sublinhando que, no pri\u00admeiro caso, o significante foraclu\u00eddo ou os si\u00adgnificantes que o representam n\u00e3o pertencem ao inconsciente do sujeito,\u00a0mas retornam (no real) por ocasi\u00e3o de\u00a0uma alucina\u00e7\u00e3o ou um del\u00edrio (sem linguagem neur\u00f3tica, culpa ou remorso) que invadem a fala ou a percep\u00e7\u00e3o do sujeito*. * (Psicose)<\/p>\n<p>O conceito de foraclus\u00e3o, (fora-clus\u00e3o), ora inserido nos estudos e em semin\u00e1rio de La\u00adcan e \u00e9 um referencial para a investiga\u00e7\u00e3o do inconsciente inominado do<\/p>\n<p>(Psic\u00f3tico) que ocupa um lugar n\u00e3o acess\u00edvel pela via da \u201cneurose\u201d e isso \u00e9 um desafio ao psicanalista ou aspirante de psican\u00e1lise que se deparar com o acolhimento para casos de Psicose.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Fonte consultada \/ refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><\/p>\n<p>Hist\u00f3ria de uma Neurose Infantil \u00a0\u201c Homem dos Lobos\u201d Sigmund Freud \u2013 Volume: 14 Ed. Editora: Imago Standart \u2013 Vers\u00e3o tradu\u00e7\u00e3o Inglesa<\/p>\n<p>Dor, J. (1991) \u2013 O pai e sua fun\u00e7\u00e3o em Psican\u00e1lise. Jorge Zahar Editor.<br \/>\nLacan, J. (1985) \u2013 O Semin\u00e1rio. Livro 3. Jorge Zahar Editor.<br \/>\nRabinovitch, S. (2000). A Foraclus\u00e3o \u2013 Presos do Lado de Fora. Jorge Zahar Editor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que \u00e9 forclus\u00e3o ou foraclus\u00e3o (* Psicose* ) Conceito comumente descrito pelo psicanalista franc\u00eas Jacques Lacan para desig\u00adnar\u00a0um mecanismo espec\u00edfico da psicose. \u00a0A forclus\u00e3o \u00e9 o mecanismo \u201cps\u00edquico\u201d na qual se produz rejei\u00e7\u00e3o de um significante (imagem ac\u00fastica e simb\u00f3lica) que \u00e9 fundamental\u00a0(neurose) para fora\u00a0do universo simb\u00f3lico do sujeito (neur\u00f3tico) e isso leva o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-1114","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.abmpdf.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1114","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.abmpdf.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.abmpdf.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.abmpdf.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.abmpdf.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1114"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.abmpdf.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1114\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1115,"href":"https:\/\/www.abmpdf.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1114\/revisions\/1115"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.abmpdf.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1114"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.abmpdf.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1114"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.abmpdf.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1114"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}