{"id":1127,"date":"2020-01-25T10:27:08","date_gmt":"2020-01-25T13:27:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.abmpdf.com\/?p=1127"},"modified":"2020-01-25T10:27:08","modified_gmt":"2020-01-25T13:27:08","slug":"a-in-certeza-cartesiana-e-a-peste-freudiana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.abmpdf.com\/?p=1127","title":{"rendered":"A (in) certeza cartesiana e a Peste freudiana."},"content":{"rendered":"<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>A (in) certeza cartesiana e a Peste freudiana.<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Je pense, donc je suis. Cogito, ergo sum.<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Mal sabia Descartes que iria provocar tanto barulho na psican\u00e1lise com o seu: penso, logo existo, frase fundadora da modernidade.<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A (in) certeza cartesiana e a peste freudiana.<br \/>\nJe pense, donc je suis.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u00a0Cogito, ergo sum. Mal sabia Descartes que iria provocar tanto barulho na psican\u00e1lise com o seu: penso, logo existo, frase fundadora da modernidade.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Por\u00e9m, ao mesmo tempo, fornece a exata oportunidade para que esta apresente sua contraproposta de formula\u00e7\u00e3o de um estatuto mais radical para o sujeito humano.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Para o pensamento cartesiano, o lugar da verdade do sujeito est\u00e1 na consci\u00eancia, isto \u00e9, o predicado est\u00e1 inclu\u00eddo no sujeito.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>O sujeito cartesiano \u00e9 o sujeito da ci\u00eancia.<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Para a psican\u00e1lise, o sujeito \u00e9 sujeito do desejo.<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Para Descartes ser pensante equivale a ser consciente. H\u00e1 uma identidade entre cogito e consci\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A partir desta forma tradicional de situar o sujeito, a partir do cartesianismo, o estatuto do sujeito humano passou a ser referido como o do universo consciente.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Isto \u00e9, o ser-humano \u00e9 tudo aquilo quanto ele sabe sobre si.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Tudo aquilo que pode dizer de si mesmo e das coisas. Seu consciente, seu pensamento \u00e9 seu mundo, sua verdade, seu limite, sua express\u00e3o final de ser-humano.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>A peste freudiana demolir\u00e1 este fr\u00e1gil patamar.<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Freud costumava referir-se \u00e0 sua descoberta, a psican\u00e1lise, como sendo a peste.<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">E \u00e9 esta, precisamente, a proposta de Lacan.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Recolocar as formula\u00e7\u00f5es freudianas com toda a sua virul\u00eancia, de modo que correspondam fielmente \u00e0s palavras de Freud, i.e., como questionadoras deste sujeito da certeza; deste sujeito que diz: EU.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>A peste freudiana trouxe algo que modifica singularmente o horizonte do conhecimento do homem sobre si mesmo e sobre o seu mundo.<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica, reafirmada em Descartes, assegura a este fr\u00e1gil primata, o homem, que ele \u00e9 senhor de si mesmo, de seus pensamentos, que ele se conhece.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A extens\u00e3o de si mesmo \u00e9 a extens\u00e3o de sua consci\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O mais \u00e9 Deus.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>A radicalidade da descoberta (a peste) freudiana reside exatamente no rompimento desta certeza.<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A partir do reconhecimento da exist\u00eancia de outras formula\u00e7\u00f5es, que est\u00e3o para al\u00e9m do sujeito: sonhos, atos falhos, chistes e sintomas, a psican\u00e1lise procurar\u00e1, ent\u00e3o, este outro sujeito, desta incerteza no sujeito cartesianamente institu\u00eddo.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">At\u00e9 o surgimento de Freud, tratava-se mais de reprimir e negar o desejo do que de estud\u00e1-lo.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>A psican\u00e1lise ir\u00e1, ent\u00e3o, em busca deste outro sujeito; deste sujeito do desejo, deste sujeito do inconsciente.<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Exatamente a subvers\u00e3o da Biologia \u00e9 o que nos indicam as formula\u00e7\u00f5es freudianas, no sentido da indica\u00e7\u00e3o da insufici\u00eancia da plataforma biol\u00f3gica como inst\u00e2ncia garantidora do modo de tornar-se humano.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Nascer com todos os atributos biol\u00f3gicos, de homem ou de mulher, n\u00e3o assegura o exato caminho de ser.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u00a0Este dever\u00e1 ser encontrado em outro lugar (no simb\u00f3lico).<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Aqui est\u00e1 a subvers\u00e3o trazida pelo discurso freudiano.<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O animal humano, provido somente de todo o suporte biol\u00f3gico e apenas dele, n\u00e3o existe como ser-humano, existe apenas como animal.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A biologia, apenas, n\u00e3o garante o ser-humano.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O animal humano, para existir como tal, deve ser submetido a uma opera\u00e7\u00e3o, que todos os demais animais n\u00e3o necessitam sofrer.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Ele deve ser levado de um mundo natural de leis e funcionamentos meramente biol\u00f3gicos, de contacto imediato com o ambiente (como os demais animais), a um mundo artificial, cultural e simb\u00f3lico. Simb\u00f3lico, onde o natural, o imediato, \u00e9 tratado via s\u00edmbolo.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O animal humano para existir como tal, deve passar do natural ao simb\u00f3lico, do imediato ao mediato.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Do objeto ao s\u00edmbolo. Do n\u00e3o verbal ao verbal. Deve atingir a palavra. Deve aceder \u00e0 linguagem.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>A neurose, desta forma, \u00e9 privil\u00e9gio humano.<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Neste processo de passagem do natural ao simb\u00f3lico, a sociedade \u00e9 instalada no sujeito. Neste processo (urverdrangung) nasce o inconsciente.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>A psican\u00e1lise \u00e9 uma antropog\u00eanese, uma descri\u00e7\u00e3o da g\u00eanese do animal humano.<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Prop\u00f5e-se a mostrar que este processo de tornar-se humano n\u00e3o \u00e9 natural, no sentido de que a nossos olhos seria um processo linear, seguro e previamente guiado por coordenadas biol\u00f3gicas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Ela nos mostra que a efetividade do processo de produ\u00e7\u00e3o do humano depende da efic\u00e1cia de determinadas inscri\u00e7\u00f5es que devem ser feitas sobre o infans.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Aqui est\u00e1 o tornar-se humano.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Feitas estas inscri\u00e7\u00f5es sobre o sujeito, i.e., instalando nele a sexualidade, temos a neurose; n\u00e3o instalando temos a psicose (exclus\u00e3o de ser-no-mundo simb\u00f3lico).<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>O Ser \u00e9 humano enquanto \u00e9 um ser sexual. A \u00fanica possibilidade de existir, para o ser humano, \u00e9 existir enquanto ser dotado de sexualidade.<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Aqui est\u00e1 a peste freudiana, de novo.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O infans, ao nascer, nada sabe sobre si, dos outros e do mundo. Al\u00e9m disso, dever\u00e1 ser transferido do natural ao simb\u00f3lico.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 atrav\u00e9s do Outro, seu suporte, que ler\u00e1 o alfabeto que ir\u00e1\u00a0<strong>determinar-lhe seu estatuto de ser-cultural, do existir como humano.<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 este Outro que lhe dir\u00e1 quem ele \u00e9; Temos, neste processo, o primeiro surgimento de uma no\u00e7\u00e3o de si, do primeiro esbo\u00e7o do ego do sujeito.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A primeira e decisiva aliena\u00e7\u00e3o numa imagem enquistada de si-mesmo.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Aliena\u00e7\u00e3o do sujeito de sua verdade, da verdade de seu inconsciente.<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Luiz Carlos Santu\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>(Janela Lacaniana)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A (in) certeza cartesiana e a Peste freudiana. 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