{"id":1330,"date":"2021-12-03T21:30:17","date_gmt":"2021-12-04T00:30:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.abmpdf.com\/?p=1330"},"modified":"2023-01-25T12:00:37","modified_gmt":"2023-01-25T15:00:37","slug":"da-biblia-a-psicanalise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.abmpdf.com\/?p=1330","title":{"rendered":"&#8220;Da B\u00edblia a Psican\u00e1lise&#8221;"},"content":{"rendered":"<h4>\u201cDa B\u00edblia \u00e0 Psican\u00e1lise\u201d<\/h4>\n<h4>Sa\u00fade, doen\u00e7a e medicina na cultura judaica<\/h4>\n<h4>(Artigo antigo anos:80)<\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na minha turma m\u00e9dica, cerca de dez por cento dos doutores eram judeus.<\/p>\n<p>Na turma do ano anterior e na turma do ano que se seguiu, a porcentagem era mais ou menos a mesma.<\/p>\n<p>No entanto, a propor\u00e7\u00e3o de judeus na popula\u00e7\u00e3o do Rio Grande do Sul \u00e9 de zero-v\u00edrgula-zero qualquer coisa.<\/p>\n<p>Havia uma clara op\u00e7\u00e3o, dentro da comunidade, pela medicina.<\/p>\n<p>Op\u00e7\u00e3o esta que n\u00e3o \u00e9 nova. Ao longo do tempo, juda\u00edsmo e medicina sempre estiveram associados.<\/p>\n<p>Sobre esta associa\u00e7\u00e3o pretendemos falar no presente artigo.<\/p>\n<p>Que ser\u00e1, necessariamente, uma s\u00edntese, e muito sint\u00e9tica, de um assunto vasto o suficiente para encher bibliotecas.<\/p>\n<p>De maneira geral, a evolu\u00e7\u00e3o da medicina passa por tr\u00eas per\u00edodos: m\u00e1gico-religioso, no qual o cuidado dos pacientes est\u00e1 a cargo do sacerdote, do feiticeiro, do xam\u00e3; o per\u00edodo emp\u00edrico, cuja figura maior foi Hip\u00f3crates e que se caracteriza pela concep\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a como um fen\u00f4meno natural, mas sem que se possa demonstrar a exist\u00eancia de mecanismos fisiol\u00f3gicos ou patol\u00f3gicos, e finalmente o per\u00edodo cient\u00edfico, que corresponde sobretudo a modernidade, e que \u00e9 o per\u00edodo em que estamos at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>A medicina judaica passa por fases semelhantes, por\u00e9m moduladas por uma cultura muito peculiar \u2013 e muito rica. Nesta evolu\u00e7\u00e3o podemos distinguir quatro fases:<\/p>\n<p>1) a fase b\u00edblica, ou sacerdotal;<\/p>\n<p>2) a fase talm\u00fadica ou rab\u00ednica;<\/p>\n<p>3) a fase teol\u00f3gico-filos\u00f3fica<\/p>\n<p>4) a fase moderna ou cient\u00edfica.<\/p>\n<p>Consideremos, inicialmente, a \u00e9poca b\u00edblica.<\/p>\n<p>Do ponto de vista do bin\u00f4mio sa\u00fade-doen\u00e7a, no relato b\u00edblico predomina o modelo religioso (a men\u00e7\u00e3o \u00e0 magia propriamente dita \u00e9 muito rara).<\/p>\n<p>Diferente, por\u00e9m, de outras religi\u00f5es da antig\u00fcidade, aqui n\u00e3o s\u00e3o esp\u00edritos malignos os respons\u00e1veis pela doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Ainda que as concep\u00e7\u00f5es referentes \u00e0 sa\u00fade e enfermidade dos hebreus tenham sido influenciadas por culturas hegem\u00f4nicas, particularmente a eg\u00edpcia, a religi\u00e3o hebraica tem aspectos chamativos.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a quase sempre \u00e9 vista como puni\u00e7\u00e3o, mas esta puni\u00e7\u00e3o vem do Senhor: \u201cSe n\u00e3o me escutardes e n\u00e3o puserdes em pr\u00e1tica todos estes mandamentos, se desprezardes as minhas leis (\u2026) porei sobre v\u00f3s o terror, a t\u00edsica e a febre\u2026\u201d (Lev\u00edtico, 26:16).<\/p>\n<p>Mas aqueles que cumprem os preceitos divinos t\u00eam outro destino: \u201cServireis ao Senhor vosso Deus e ele aben\u00e7oar\u00e1 vosso p\u00e3o e vossa \u00e1gua e afastar\u00e1 de vosso meio as enfermidades.\u201d (\u00caxodo, 23:25).<\/p>\n<p>Deus \u00e9 o m\u00e9dico por excel\u00eancia:<\/p>\n<p>\u201cEu sou o Senhor que te curou (\u00caxodo, 15:26).<\/p>\n<p>A figura do m\u00e9dico praticamente inexiste no Antigo Testamento. Em alguns casos os profetas, intermedi\u00e1rios da divindade, realizam curas, at\u00e9 milagrosas.<\/p>\n<p>Eliseu salva \u2013 ou traz de volta \u00e0 vida \u2013 o filho de uma vi\u00fava (1 Reis: 17); Elias ressuscita uma crian\u00e7a (2 Reis: 4).<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m Elias promove a cura do general s\u00edrio Naaman, que sofria de uma doen\u00e7a de pele (2 Reis: 5).<\/p>\n<p>Quando Ezequias, rei de Jud\u00e1, adoece, o profeta Isa\u00edas, a princ\u00edpio, desengana-o; depois que o rei chora copiosamente e implora a Deus que o salve, o Senhor manda que Isa\u00edas o cure, o que o profeta faz, prescrevendo que um emplastro de figos seja colocado sobre as feridas do enfermo (Isa\u00edas, 38).<\/p>\n<p>Quanto a m\u00e9dicos (rof\u2019im), aparecem raramente.<\/p>\n<p>A primeira men\u00e7\u00e3o ocorre no G\u00eanesis (50:1-3), mas a\u00ed se trata t\u00e3o somente do embalsamento do patriarca Jacob.<\/p>\n<p>Em Jeremias h\u00e1 uma metaf\u00f3rica, e desanimada, alus\u00e3o aos m\u00e9dicos. E no muito citado caso do rei Asa (2 Cr\u00f4nicas 16:12), portador de uma s\u00e9ria enfermidade dos p\u00e9s, o paciente morre por ter consultado m\u00e9dicos ao inv\u00e9s de recorrer ao Senhor.<\/p>\n<p>A aus\u00eancia de m\u00e9dicos, contudo, n\u00e3o significa uma aceita\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a ou da morte. Como o ser humano foi criado \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus, a vida \u00e9 sagrada, e ele \u00e9 obrigado a preserv\u00e1-la.<\/p>\n<p>A exist\u00eancia p\u00f3s-terrena, escassamente mencionada na B\u00edblia , n\u00e3o serve como escusa para abandonar os cuidados com o corpo.<\/p>\n<p>Estes cuidados dizem basicamente respeito \u00e0 higiene, \u00e0s pr\u00e1ticas diet\u00e9ticas e \u00e0 profilaxia de determinadas doen\u00e7as.<\/p>\n<p>A terceira parte do Lev\u00edtico, cap\u00edtulos 11 a 15, especialmente, contem uma s\u00e9rie de prescri\u00e7\u00f5es referentes a uma variedade de situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Uma doen\u00e7a recebe peculiar aten\u00e7\u00e3o: a lepra (tzaraat, em hebraico).<\/p>\n<p>Tanto \u00e9 assim que o diagn\u00f3stico \u00e9 confiado ao sacerdote. Crit\u00e9rios para tal s\u00e3o mencionados, alguns de certeza:<\/p>\n<p>\u201cTumor, p\u00fastula ou erup\u00e7\u00e3o\u201d na qual \u201cos pelos se tornaram brancos e a parte afetada aparece mais afundada que o resto da pele\u201d (Lev\u00edtico, 13: 2,3), outros, de probabilidade (exigindo, neste caso, um novo exame, ap\u00f3s isolamento de sete dias).<\/p>\n<p>Mas a anestesia n\u00e3o \u00e9 mencionada nem o espessamento dos nervos superficiais, que s\u00e3o pontos essenciais para o diagn\u00f3stico, de modo que a avalia\u00e7\u00e3o sacerdotal necessariamente envolvia um grau de imprecis\u00e3o.<\/p>\n<p>Provavelmente sob o r\u00f3tulo de lepra outras situa\u00e7\u00f5es eram inclu\u00eddas, mesmo porque n\u00e3o h\u00e1 muitas indica\u00e7\u00f5es de que a doen\u00e7a fosse freq\u00fcente na antiguidade.<\/p>\n<p>Um estudo de mais de 18 mil esqueletos recuperados em trabalhos arqueol\u00f3gicos n\u00e3o mostrou as les\u00f5es \u00f3sseas da enfermidade antes do sexto s\u00e9culo a.C..<\/p>\n<p>E Celso, o famoso m\u00e9dico romano do primeiro s\u00e9culo d.C., considerava-a rara.<\/p>\n<p>O diagn\u00f3stico da lepra pelo sacerdote do Templo n\u00e3o era exatamente um procedimento m\u00e9dico (no m\u00e1ximo, tratava-se de \u201cinspe\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria\u201d). Nenhum tratamento, mesmo tentativo, era institu\u00eddo.<\/p>\n<p>O objetivo era rotular o paciente como \u201cpuro\u201d ou \u201cimpuro\u201d.<\/p>\n<p>E, se se tratava de \u201cimpureza\u201d, via-se nas les\u00f5es a evid\u00eancia do castigo divino do qual a pele era um alvo habitual.<\/p>\n<p>Quando o Fara\u00f3 pro\u00edbe a sa\u00edda dos hebreus do Egito, o Senhor diz a Mois\u00e9s e Aar\u00e3o que recolham fuligem do forno e a lancem ao c\u00e9u. Com o que provocam \u201cnos homens e nos animais\u201d, o surgimento de tumores que depois se transformam em p\u00fastulas (\u00caxodo, 9:8-10).<\/p>\n<p>At\u00e9 mesmo Maria (Miriam), irm\u00e3 de Aar\u00e3o e meia-irm\u00e3 de Mois\u00e9s \u00e9 castigada com a lepra por ter criticado a Mois\u00e9s (N\u00fameros, 12: 1-10).<\/p>\n<p>E quando quis por \u00e0 prova J\u00f3 o Senhor feriu-o \u201ccom chagas malignas desde a planta dos p\u00e9s at\u00e9 o alto da cabe\u00e7a\u201d (J\u00f3, 1:7).<\/p>\n<p>Nem todas as doen\u00e7as mencionadas na B\u00edblia resultam de castigo divino mas \u00e9 \u00f3bvio que, quando este castigo ocorre, ele deve ser bem vis\u00edvel: a pele \u00e9 o local ideal para isto.<\/p>\n<p>Mais: implica a segrega\u00e7\u00e3o do pecador.<\/p>\n<p>Que o tabu funcionou, mostra-o o fato de que o cristianismo tamb\u00e9m o endossou.<\/p>\n<p>O estabelecimento de lepros\u00e1rios na Europa j\u00e1 no quarto s\u00e9culo da era crist\u00e3 \u00e9 provavelmente o resultado da cristianiza\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio Romano (McNeill, 1976, p.145). Seguindo os preceitos do Lev\u00edtico, a Igreja assumiu o encargo de combater a lepra.<\/p>\n<p>O Conc\u00edlio de Lyon, em 583, restringiu a associa\u00e7\u00e3o livre de leprosos com pessoas sadias, pol\u00edtica seguida, e refinada, por conc\u00edlios posteriores. Um leproso representava uma amea\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n<p>Assim, a comunidade, no intuito de proteger seus membros sadios, o expulsava.<\/p>\n<p>Sendo a doen\u00e7a incur\u00e1vel, ele se tornava um proscrito para o resto da vida. Muito antes de receber a b\u00ean\u00e7\u00e3o misericordiosa da morte f\u00edsica, j\u00e1 se o considerava, socialmente, morto. (Rosen, 1994, p.60) .<\/p>\n<p>O modelo de diagn\u00f3stico era semelhante ao da B\u00edblia, mas agora era formada uma comiss\u00e3o, composta de um bispo, v\u00e1rios cl\u00e9rigos e \u2013 inova\u00e7\u00e3o \u2013 um leproso, considerado especialista na mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>Rotulado o problema do examinando como lepra, procedia-se ao processo de exclus\u00e3o.<\/p>\n<p>O leproso vinha vestido com uma mortalha, lia-se a missa solene para os mortos, jogava-se terra sobre os doentes; ent\u00e3o os padres o conduziam, acompanhado de parentes, amigos e vizinhos, at\u00e9 uma choupana ou lepros\u00e1rio, fora dos limites da comunidade.<\/p>\n<p>Cuidar dos leprosos nos lazaretos era parte das atribui\u00e7\u00f5es de v\u00e1rias ordens religiosas crist\u00e3s .<\/p>\n<p>Michel Foucault assinala que, desde a alta Idade M\u00e9dia at\u00e9 o fim das Cruzadas os lepros\u00e1rios multiplicaram sobre toda a superf\u00edcie da Europa suas cidades malditas.<\/p>\n<p>Segundo Mathieu Paris haveria at\u00e9 19.000 deles atrav\u00e9s da cristandade (Foucault, 1961, p.13-16).<\/p>\n<p>O conceito de \u201cpuro\u201d e \u201cimpuro\u201d tamb\u00e9m se estende aos animais usados na alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Dos animais aqu\u00e1ticos, por exemplo, s\u00f3 s\u00e3o permitidos os peixes que t\u00eam escamas e barbatanas.<\/p>\n<p>A lista de proibi\u00e7\u00f5es \u00e9 extensa, e inclui aves de rapina, r\u00e9pteis, v\u00e1rios tipos de insetos (Lev\u00edtico, 11: 1-47);<\/p>\n<p>o tabu mais conhecido \u00e9 o do porco, ali\u00e1s comum a outras etnias do Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o que se coloca \u00e9: tinham como objetivo, tais proibi\u00e7\u00f5es, a profilaxia de doen\u00e7as?<\/p>\n<p>Em algumas situa\u00e7\u00f5es, este parece ser o caso.<\/p>\n<p>Ostras e moluscos, que se incluem na categoria dos proibidos, e que freq\u00fcentemente se desenvolvem em \u00e1guas pr\u00f3ximas \u00e0 descarga de esgotos s\u00e3o respons\u00e1veis por brotes epid\u00eamicos de hepatite A (Margolis, 1992, p.132).<\/p>\n<p>E a carne de porco \u00e9 a maior fonte de infesta\u00e7\u00e3o humana por um parasito, Trichinella spiralis (Rausch, 1992, p.269) .<\/p>\n<p>Trata-se, contudo, de doen\u00e7as em que os agentes causadores e os mecanismos de transmiss\u00e3o s\u00e3o de descoberta relativamente recente; o legislador b\u00edblico teria que se ter baseado em observa\u00e7\u00f5es emp\u00edricas bastante acuradas para fazer uma associa\u00e7\u00e3o de causa e efeito.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disto, na maioria dos tabus (aves de rapina, por exemplo) n\u00e3o fica evidente que doen\u00e7a ou doen\u00e7as evitariam; finalmente, o que \u00e9 mencionado n\u00e3o \u00e9 o risco de enfermidade, mas sim a impureza do alimento.<\/p>\n<p>Por todas estas raz\u00f5es sustenta a antrop\u00f3loga Mary Douglas:<\/p>\n<p>\u201cQuanto mais nos aprofundamos nestas regras e em outras similares, mais \u00f3bvio se torna que estamos estudando sistemas simb\u00f3licos\u201d .<\/p>\n<p>Em outras palavras, os animais s\u00e3o proibidos, n\u00e3o por causa dos danos que podem causar, mas por aquilo que simbolizam.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o \u00e9 exclusivo do judaismo Assim, numerosas culturas v\u00eaem com repulsa, ou, ao menos, com ambival\u00eancia, uma s\u00e9rie de animais.<\/p>\n<p>Para Mary Douglas, a simbologia tem a ver com a concep\u00e7\u00e3o b\u00edblica do \u201csagrado como integridade\u201d.<\/p>\n<p>Nada que escape a determinado padr\u00e3o \u00e9 tolerado; no caso dos animais para a alimenta\u00e7\u00e3o, os ungulados ruminantes e de casco fendido s\u00e3o o modelo do tipo adequado. Os outros s\u00e3o tabu.<\/p>\n<p>Exemplo: o camelo, pois, embora rumine, n\u00e3o tem o casco fendido (Douglas, 1966, p.49).<\/p>\n<p>O antrop\u00f3logo Marvin Harris tem outra explica\u00e7\u00e3o, que poderia ser classificada como \u201cecol\u00f3gica\u201d: a B\u00edblia e o Cor\u00e3o condenaram o porco porque a cria\u00e7\u00e3o deste animal era uma amea\u00e7a \u00e0 integridade dos ecossistemas natural e cultural do Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n<p>Os povos que l\u00e1 viviam eram em geral n\u00f4mades que percorriam o deserto, cujo clima quente e seco \u00e9 danoso para o porco, animal que transpira pouco e que, por causa disto, precisa manter a pele \u00famida \u2013 da\u00ed a raz\u00e3o de chafurdarem na pr\u00f3pria urina e fezes se n\u00e3o houver outra fonte de umidade.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disto \u00e9 um animal que se desloca com lentid\u00e3o, o que dificultaria o deslocamento da tribo.<\/p>\n<p>Finalmente, entre as comunidades pastoris e agr\u00edcolas da regi\u00e3o, os animais valorizados eram aqueles que forneciam leite, queijo, adubo e que podiam ser atrelados a um arado.<\/p>\n<p>O porco n\u00e3o fornecia nada disto, mas em compensa\u00e7\u00e3o sua carne \u00e9 tenra, suculenta, adiposa \u2013 tentadora, em suma. Estava ent\u00e3o criado o dilema:<\/p>\n<p>as tribos n\u00e3o deviam ter porcos, mas queriam ter porcos \u2013 para com\u00ea-los. O legislador b\u00edblico resolveu a situa\u00e7\u00e3o declarando o animal tabu (Harris, 1977, p.35).<\/p>\n<p>A Di\u00e1spora coincide com a ascens\u00e3o do Talmude; o que temos a\u00ed \u00e9 a continuidade \u2013 com grandes modifica\u00e7\u00f5es \u2013 da tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica.<\/p>\n<p>\u201cSe a B\u00edblia \u00e9 a pedra angular do juda\u00edsmo, o Talmude \u00e9 o pilar central que se al\u00e7a dos alicerces e sustenta todo o seu edif\u00edcio espiritual e intelectual\u201d, diz Adin Steinsaltz, grande estudioso dos textos talm\u00fadicos (Steinsaltz, 1989, p.3).<\/p>\n<p>Com a dispers\u00e3o, e a destrui\u00e7\u00e3o do Templo, a vida religiosa passa a girar em torno da sinagoga .<\/p>\n<p>O Templo era operado pela casta sacerdotal, que conduzia o ritual, nele inclu\u00eddo o sacrif\u00edcio de animais. J\u00e1 a sinagoga era um lugar de ora\u00e7\u00f5es, de discuss\u00e3o, realizadas num clima informal, t\u00e3o informal que chegava a surpreender visitantes.<\/p>\n<p>O advento da sinagoga coincide com a expans\u00e3o da lei oral. At\u00e9 ent\u00e3o, todos os preceitos legais, morais e religiosos estavam na Tor\u00e1.<\/p>\n<p>Mas agora, com a dispers\u00e3o e suas vicissitudes, o texto religioso exigia cada vez mais discuss\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o, no que se especializavam os tanaim, mestres.<\/p>\n<p>Com o tempo a tradi\u00e7\u00e3o oral se tornara t\u00e3o extensa a ponto de exigir uma compila\u00e7\u00e3o, que foi feita em dois lugares: Jerusal\u00e9m, onde permanecia uma pequena comunidade judaica \u2013 \u00e9 o Talmud Ierushalmi \u2013 e na Babil\u00f4nia, onde os judeus haviam vivido por v\u00e1rios s\u00e9culos \u2013 \u00e9 o Talmud Bavli.<\/p>\n<p>O processo de elabora\u00e7\u00e3o do Talmude vai mais ou menos do segundo s\u00e9culo a.C. at\u00e9 o quinto s\u00e9culo d.C., quando foi conclu\u00eddo o Talmude babil\u00f4nico.<\/p>\n<p>O texto talm\u00fadico \u00e9 bem diferente do texto b\u00edblico.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, os autores s\u00e3o conhecidos e constantemente citados. Depois, a constru\u00e7\u00e3o textual \u00e9 diferente.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 uma ordem cronol\u00f3gica; \u00e9 antes um trabalho sincr\u00f4nico, que j\u00e1 foi definido como uma imensa reuni\u00e3o p\u00fablica na qual milhares, dezenas de milhares, de vozes, datando de pelo menos cinco s\u00e9culos, s\u00e3o ouvidas em un\u00edssono Ausubel, 1989, p.867-868); a B\u00edblia \u00e9 lac\u00f4nica, o Talmude exuberante.<\/p>\n<p>Cada texto gera mais textos, que s\u00e3o colocados ao redor do primeiro, como se se tratasse do hipertexto gerado em computador. Finalmente, e mais importante, enquanto o texto b\u00edblico \u00e9 prescritivo, o Talmude \u00e9 dial\u00e9tico, cheio de debate, controv\u00e9rsia e casu\u00edsmo que chega aos menores detalhes; um prov\u00e9rbio judaico compara a Tor\u00e1 \u00e0 \u00e1gua, o Talmude ao vinho.<\/p>\n<p>A B\u00edblia gira em torno \u00e0 express\u00e3o \u201co que\u201d: o que o ser humano deve fazer, como servo resignado do Senhor.<\/p>\n<p>O Talmude explica o \u201ccomo\u201d: como fazer as coisas, sobretudo para sobreviver como pessoas e como comunidade.<\/p>\n<p>Mais que isto, observa Nathan Ausubel, n\u00e3o foram poucos os pensadores talm\u00fadicos que revelaram uma forte inclina\u00e7\u00e3o para as ci\u00eancias naturais.<\/p>\n<p>Essa orienta\u00e7\u00e3o intelectual n\u00e3o surgiu subitamente; vinha crescendo constantemente, estimulada, sem d\u00favida, pelo esp\u00edrito cient\u00edfico de pesquisa dos astr\u00f4nomos e m\u00e9dicos eg\u00edpcios, caldeus e persas, e dos matem\u00e1ticos e f\u00edsicos gregos e romanos.<\/p>\n<p>Uma novidade, para o que era antes um pequeno grupo humano que, por se considerar eleito era fechado e, n\u00e3o raro, xen\u00f3fobo, temeroso do dom\u00ednio e da influ\u00eancia de povos e culturas mais poderosos.<\/p>\n<p>Como \u00e9 f\u00e1cil imaginar, sa\u00fade e doen\u00e7a, profilaxia e tratamento recebem aten\u00e7\u00e3o especial no Talmude.<\/p>\n<p>Regras de higiene s\u00e3o objeto de aforismas como :<\/p>\n<p>\u201cA maioria das pessoas morre, n\u00e3o de falta de alimento, mas por comer demais\u201d; \u201cA comida \u00e9 excelente para o ser humano at\u00e9 os quarenta anos; depois, \u00e9 melhor recorrer aos l\u00edquidos\u201d.<\/p>\n<p>Como a B\u00edblia, o Talmude fala na associa\u00e7\u00e3o entre vontade divina e doen\u00e7a ou sofrimento. Contudo, a doen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 um resultado autom\u00e1tico do pecado, assim como a sa\u00fade n\u00e3o \u00e9 resultado autom\u00e1tico da virtude.<\/p>\n<p>Como diz um mestre do s\u00e9culo II, conhecido somente como Ben Azzai: \u201cQual a recompensa por uma boa a\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>A boa a\u00e7\u00e3o. Qual o castigo por um pecado?<\/p>\n<p>O pecado.\u201d (Ausubel, op. cit., p.309-310) A boa a\u00e7\u00e3o e o pecado encerram, em si pr\u00f3prios, a recompensa e o castigo.<\/p>\n<p>A \u00e9poca talm\u00fadica marca a ascens\u00e3o do m\u00e9dico (rofeh), figura escassamente mencionada no Antigo Testamento.<\/p>\n<p>Na Jud\u00e9ia dos tempos de Cristo, por exemplo, era grande o n\u00famero de pessoas que se propunham a tratar e curar doen\u00e7as, atrav\u00e9s do aconselhamento, do curandeirismo ou da f\u00e9.<\/p>\n<p>Dentro deste quadro, diz a historiadora Vivian Nutton, que se deve colocar os relatos evang\u00e9licos das curas de Jesus; suas cuidadosas respostas \u00e0 quest\u00e3o de ser o pecado a causa da doen\u00e7a refletia os debates rab\u00ednicos da \u00e9poca (Nutton, 1996, p.73-75).<\/p>\n<p>O reconhecimento da pr\u00e1tica m\u00e9dica aparece v\u00e1rias vezes no Talmude. Por exemplo numa historieta envolvendo o famoso mestre Rabi Aquiba, que viveu entre o primeiro e o segundo s\u00e9culo d.C.<\/p>\n<p>\u201cUm homem dirigiu-se ao Rabi Aquiba, dizendo que estava doente e perguntando o que devia fazer.<\/p>\n<p>O Rabi Aquiba orientou-o a respeito, mas o homem resolveu interpel\u00e1-lo a respeito de uma outra quest\u00e3o: se o corpo humano pertence a Deus, t\u00eam os homens o direito de nele intervir?<\/p>\n<p>&#8211; Qual a tua ocupa\u00e7\u00e3o? \u2013 perguntou Aquiba.<\/p>\n<p>&#8211; Sou vinhateiro \u2013 respondeu o homem, mostrando o pod\u00e3o que levava.<\/p>\n<p>Aquiba ent\u00e3o replicou:<\/p>\n<p>&#8211; Assim como podas e cuidas de tua vinha, que tamb\u00e9m foi criada por Deus, tamb\u00e9m pode o ser humano tratar de suas doen\u00e7as.\u201d (Browne, 1959, p.119)<\/p>\n<p>Chama a aten\u00e7\u00e3o, neste texto, a compara\u00e7\u00e3o entre o corpo e a planta; em ambos os casos, trata-se da natureza, sobre a qual o ser humano tem a possibilidade de intervir, sem necessariamente recorrer \u00e0 media\u00e7\u00e3o divina: \u201cQuem sente dor deve procurar o m\u00e9dico\u201d, diz o Talmude (Berger, 1995, p.17) .<\/p>\n<p>O tratado Sanhedrim enumera as condi\u00e7\u00f5es para que uma cidade possa receber um s\u00e1bio: ela deve ter um tribunal, uma caixa de aux\u00edlios m\u00fatuos, banho p\u00fablico, a casa de estudo e de ora\u00e7\u00e3o e m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Na historieta de Aquiba, a medicina \u00e9 igualada a uma outra ocupa\u00e7\u00e3o (vinhateiro), ou seja, \u00e9 encarada como uma atividade profissional que, inclusive, faz jus \u00e0 remunera\u00e7\u00e3o \u2013 e deve exigi-la: \u201cO m\u00e9dico que n\u00e3o aceita honor\u00e1rios, n\u00e3o os merece\u201d (Browne, op.cit., p.196) .<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, o m\u00e9dico deveria mostrar considera\u00e7\u00e3o para com os pobres. Aparentemente, nem sempre estes preceitos eram seguidos. Uma frase talm\u00fadica, muito discutida, diz que \u201cmesmo o melhor dos m\u00e9dicos merece a Gehena (inferno ou purgat\u00f3rio)\u201d; uma interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 de que isto se constitui em desabafo contra a comercializa\u00e7\u00e3o da profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Os m\u00e9dicos n\u00e3o eram a \u00fanica categoria a se ocupar dos problemas de sa\u00fade e de doen\u00e7a. Disto se encarregavam tamb\u00e9m os umanim (hebraico: artes\u00e3os), a quem competia o tratamento de abscessos e feridas e a sangria. Diferente dos m\u00e9dicos-rabinos, os umanim n\u00e3o gozavam de muito prest\u00edgio; o Talmude dizia que deles jamais deveria sair um rei ou um rabino.<\/p>\n<p>Como em outras culturas, esse tipo de pr\u00e1tica, embri\u00e3o da moderna cirurgia, era considerada caudat\u00e1ria da medicina propriamente dita, uma atividade muito mais nobre.<\/p>\n<p>De qualquer modo, o m\u00e9rito dos umanim era reconhecido, e o Talmude elogia especificamente um deles, Abba Uma, que, ao praticar sangrias, tinha o cuidado de separar homens de mulheres, fornecendo a estas um abrigo para que pudessem preservar sua mod\u00e9stia, abstendo-se de cobrar dos mais pobres e at\u00e9 alimentando alguns pacientes.<\/p>\n<p>Muito valorizadas eram tamb\u00e9m as parteiras (Hayoun, 1983, p.12-13).<\/p>\n<p>Muitos rabinos passaram a exercer a medicina que, numa \u00e9poca de escassos recursos diagn\u00f3sticos e terap\u00eauticos, restringia-se principalmente a conselhos sobre o modo de vida, para o que a sabedoria era a pr\u00e9-condi\u00e7\u00e3o b\u00e1sica.<\/p>\n<p>A alternativa dos doentes seria recorrer \u00e0s pr\u00e1ticas m\u00e1gicas; embora o Talmude n\u00e3o estivesse isento de supersti\u00e7\u00f5es, os rabinos procuravam lutar contra elas.<\/p>\n<p>Assim, proibiam recitar passagens talm\u00fadicas com o objetivo de obter curas milagrosas.<\/p>\n<p>A figura do m\u00e9dico-rabino foi se tornando cada vez mais freq\u00fcente; por volta do d\u00e9cimo-primeiro s\u00e9culo esta categoria abrangia cerca de metade dos rabinos. Temas referentes ao assunto foram inclu\u00eddos nos curr\u00edculos da ieshivot (escolas rab\u00ednicas).<\/p>\n<p>Com o tempo, as duas atividades se separaram; a profiss\u00e3o m\u00e9dica que, muitas vezes, passava de pai para filho, adquiriu autonomia; os m\u00e9dicos eram \u00e0s vezes at\u00e9 criticados pelos rabinos por alegada rapacidade.<\/p>\n<p>De qualquer forma, a associa\u00e7\u00e3o medicina-sabedoria persistiu; sabedoria rab\u00ednica primeiro, sabedoria filos\u00f3fica ap\u00f3s.<\/p>\n<p>No in\u00edcio do s\u00e9culo VII os judeus eram preponderantemente um povo de di\u00e1spora \u2013 uma teia de comunidades espalhadas da Espanha \u00e0 P\u00e9rsia e da Europa Central ao Saara.<\/p>\n<p>Apesar da perda de sua p\u00e1tria, mantinham uma identidade e uma interconex\u00e3o social. Como diz Seltzer: \u201cO judaismo era a religi\u00e3o de um povo e os judeus eram o povo de uma religi\u00e3o\u201d (Seltzer, 1989, p.209).<\/p>\n<p>Esta situa\u00e7\u00e3o mudou dramaticamente com a dissemina\u00e7\u00e3o do islamismo e as conquistas territoriais das tropas mu\u00e7ulmanas, que em 644 j\u00e1 dominavam P\u00e9rsia, Egito, Palestina e os atuais Iraque e S\u00edria \u2013 regi\u00f5es em que se concentrava a maioria da popula\u00e7\u00e3o judaica.<\/p>\n<p>Em princ\u00edpio os dominados deveriam se converter ao Isl\u00e3, mas foi aberta uma exce\u00e7\u00e3o para crist\u00e3os e judeus, reconhecidos como \u201cPovos do Livro\u201d. Seguidores de Escrituras de inspira\u00e7\u00e3o divina, eram os dhimi (dependentes): tinham direito \u00e0 vida, \u00e0 propriedade, \u00e0 autonomia judicial e religiosa, desde que se submetessem \u00e0s autoridades mu\u00e7ulmanas e pagassem impostos \u2013 especialmente pesados no caso dos agricultores, o que estimulou a migra\u00e7\u00e3o judaica para as cidades, agora em expans\u00e3o.<\/p>\n<p>Nos centros urbanos, os judeus experimentaram um processo de ascens\u00e3o social; surgiu uma crescente classe m\u00e9dia de comerciantes, pequenos fabricantes, banqueiros, m\u00e9dicos, intelectuais que proveu um estimulante campo social para novas tend\u00eancias que estavam surgindo na cultura intelectual judaica.<\/p>\n<p>Para este desenvolvimento colaborou a toler\u00e2ncia dos primeiros governantes mu\u00e7ulmanos que, inclusive, facilitaram a unifica\u00e7\u00e3o das comunidades judaicas. Os eruditos judeus agora dispunham de uma base social e geogr\u00e1fica ampliada; seus interesses intelectuais se alargaram para incluir ci\u00eancias naturais, medicina, filosofia e poesia.<\/p>\n<p>Este fen\u00f4meno foi particularmente vis\u00edvel na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica mu\u00e7ulmana. Ali havia, desde os \u00faltimos tempos do Imp\u00e9rio Romano, uma comunidade judaica, perseguida de forma intermitente, mas brutal, pelos reis visigodos.<\/p>\n<p>Depois que a regi\u00e3o foi conquistada (entre 711 e 715) por um ex\u00e9rcito \u00e1rabe-b\u00e9rbere, essa comunidade cresceu consideravelmente, com o afluxo de migrantes vindos do norte da \u00c1frica e do Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n<p>Surgiu assim a cultura sefardita (o termo vem de Sefarad, a designa\u00e7\u00e3o b\u00edblica para a Espanha; os judeus que l\u00e1 viviam eram os sefaradim ou sefarditas). Sob a dinastia om\u00edada os judeus chegaram a alcan\u00e7ar altas posi\u00e7\u00f5es na corte. Assim, Hasdai ibn Shaprut (915-970?) foi empregado por dois grandes califas om\u00edadas, Abd al-Rahman III e Hakam II, como diplomata, administrador da aduana \u2013 e m\u00e9dico da corte.<\/p>\n<p>Ibn Shaprut n\u00e3o foi o \u00fanico m\u00e9dico conhecido, nem o \u00fanico a combinar a profiss\u00e3o m\u00e9dica com outras ocupa\u00e7\u00f5es. De fato, esta foi uma marca da medicina neste per\u00edodo.<\/p>\n<p>N\u00e3o se tratava, observa Ron Barkai, de uma \u201cmedicina judaica\u201d; ao contr\u00e1rio, o que ocorreu foi um processo de abertura, de interc\u00e2mbio cultural (Barkai, 1995, p.45). Os mu\u00e7ulmanos traduziam os textos gregos que eram tamb\u00e9m lidos pelos judeus.<\/p>\n<p>Teve assim continuidade o trabalho dos chamados helenistas, que, durante o per\u00edodo de domina\u00e7\u00e3o greco-romana na Palestina haviam tido acesso \u00e0s obras de Plat\u00e3o, Arist\u00f3teles, Pit\u00e1goras e outros.<\/p>\n<p>Este movimento intelectual fora encarado com desconfian\u00e7a pelas lideran\u00e7as judaicas tradicionais, que viam nos helenistas uma esp\u00e9cie de \u201centreguistas\u201d e rejeitavam os costumes gregos (como a nudez nas competi\u00e7\u00f5es esportivas), considerados imorais.<\/p>\n<p>A influ\u00eancia aristot\u00e9lica foi importante do ponto de vista da medicina.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do neoplatonismo, que se voltava exclusivamente com o esp\u00edrito, a filosofia de Arist\u00f3teles partia da observa\u00e7\u00e3o do mundo natural para, sobre ela, construir sua metaf\u00edsica.<\/p>\n<p>Como os fil\u00f3sofos, os m\u00e9dicos \u00e1rabes e judeus basearam primariamente seu trabalho na literatura grega, traduzida para o \u00e1rabe por volta dos s\u00e9culos oitavo e nono e cuja origem era a escola hipocr\u00e1tica-gal\u00eanica.<\/p>\n<p>A influ\u00eancia hipocr\u00e1tica \u00e9 vis\u00edvel na obra de Asaf Judaeus, talvez o mais antigo dos m\u00e9dicos judeus, que viveu na Mesopot\u00e2mia, no s\u00e9timo s\u00e9culo e tamb\u00e9m no trabalho de Isaac ben Solomon Israeli, tamb\u00e9m conhecido pelo nome \u00e1rabe de Abu Yakub Ishak ibn Suleiman Al-Israeli (830?-932?), que nasceu no Egito e viveu no norte da \u00c1frica.<\/p>\n<p>Como Hip\u00f3crates, ele recorre a aforismos, o segundo dos quais (\u201cA ci\u00eancia da medicina \u00e9 extensa e a vida do homem \u00e9 curta\u201d) reproduz, quase literalmente, o \u201cA vida \u00e9 curta, a arte, longa\u201d hipocr\u00e1tico. Eis alguns outros aforismos:\u201c Assim como o m\u00e9dico n\u00e3o deve agir apressadamente, ele tamb\u00e9m n\u00e3o pode ser negligente e procastinador, porque no caso de muitas doen\u00e7as, n\u00e3o h\u00e1 tempo a perder.<\/p>\n<p>Em se tratando de doen\u00e7as agudas deve pensar e agir r\u00e1pido.\u201d<\/p>\n<p>\u201c O m\u00e9dico n\u00e3o cura; ele prepara e aplaina o caminho para a Natureza, da qual vem a cura verdadeira.\u201d<\/p>\n<p>\u201cA miss\u00e3o do m\u00e9dico \u00e9 dupla, preservar a sa\u00fade e curar a doen\u00e7a. A primeira \u00e9 mais importante.\u201d (Friedenwald, 1967, p. 22-26).<\/p>\n<p>Preceitos \u00e9ticos similares s\u00e3o encontrados no testamento de Judah ibn Tibbon (1120-1190), que viveu em Granada, na Espanha mu\u00e7ulmana, e dirigido a seu filho: \u201cQue tuas palavras sejam uma cura para os doentes (\u2026).<\/p>\n<p>Se receberes pagamento dos ricos, atende gratuitamente os pobres.(\u2026) Acostuma-te a examinar os rem\u00e9dios e as ervas medicinais que usas ao menos uma vez por semana.<\/p>\n<p>N\u00e3o receites algo cuja a\u00e7\u00e3o n\u00e3o conhe\u00e7as\u2026\u201d (Friedenwald, op.cit., p.27)<\/p>\n<p>O mais famoso dos m\u00e9dicos-fil\u00f3sofos judeus no mundo \u00e1rabe foi Mois\u00e9s ben Maimon (1135-1204), tamb\u00e9m conhecido por Maim\u00f4nides (a forma grega de seu nome) ou Abu Imran Musa ibn Maimun (a forma \u00e1rabe) ou ainda Rambam, acr\u00f4nimo para Rabi Mois\u00e9s ben Maimon.<\/p>\n<p>Nasceu na C\u00f3rdoba \u00e1rabe, importante centro filos\u00f3fico e m\u00e9dico, tanto \u00e1rabe como judaico: ali vivia, entre outros, Hasdai ibn Shaprut. Maim\u00f4nides era de uma fam\u00edlia de ju\u00edzes e eruditos cuja confort\u00e1vel exist\u00eancia foi bruscamente interrompida quando a regi\u00e3o passou a ser controlada pela intolerante dinastia \u00e1rabe dos Alm\u00f4adas.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia teve de fugir, primeiro para o Marrocos, depois para a Palestina e finalmente para o Egito, ent\u00e3o governado pelo sult\u00e3o Saladino, muito mais conciliador em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s minorias. Um novo desastre ocorreu ent\u00e3o: o irm\u00e3o de Maim\u00f4nides, que comerciava com j\u00f3ias, pereceu num naufr\u00e1gio, o que n\u00e3o apenas enlutou a fam\u00edlia como a arruinou financeiramente.<\/p>\n<p>Maim\u00f4nides viu-se obrigado a buscar o sustento para si e os seus.<\/p>\n<p>Tornou-se m\u00e9dico, profiss\u00e3o em que mostrou tanta compet\u00eancia, e na qual obteve tanto \u00eaxito, que um poeta da corte escreveu que, se a lua se submetesse aos cuidados de Abu Imram, ele a livraria das manchas e at\u00e9 impediria que minguasse.<\/p>\n<p>Estabeleceu-se em Fostat, perto do Cairo. Sua clientela, imensa, inclu\u00eda o Sult\u00e3o Saladino e v\u00e1rias outras pessoas importantes.<\/p>\n<p>Seu livro mais importante \u00e9 o Guia dos Perplexos, um comp\u00eandio para principiantes em filosofia religiosa.<\/p>\n<p>O principal objetivo de Maim\u00f4nides era demonstrar que juda\u00edsmo e filosofia \u2013 sobretudo a filosofia aristot\u00e9lica \u2013 n\u00e3o eram incompat\u00edveis. Maim\u00f4nides afirma o primado da raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Sua concep\u00e7\u00e3o de f\u00e9 significava que o indiv\u00edduo tinha de alcan\u00e7ar uma prova das cren\u00e7as centrais do juda\u00edsmo t\u00e3o completa quanto a mente humana possa atingir (Seltzer, op.cit., p.381).<\/p>\n<p>Algumas de suas declara\u00e7\u00f5es a respeito beiram o agnosticismo.<\/p>\n<p>Comprovam-no os crit\u00e9rios que estabeleceu para se testar a veracidade de uma id\u00e9ia ou de uma informa\u00e7\u00e3o: \u201cO homem n\u00e3o deve acreditar em nada que n\u00e3o seja evidenciado pela raz\u00e3o, como as ci\u00eancia matem\u00e1ticas, por seus sentidos, ou pela autoridade de profetas e santos.\u201d (Friedenwald, op.cit., p.201). A ordem destes crit\u00e9rios fala por si s\u00f3.<\/p>\n<p>A obra m\u00e9dica de Maim\u00f4nides, menos conhecida, est\u00e1 longe de ser desprez\u00edvel.<\/p>\n<p>Escreveu sobre uma variedade de assuntos, indo de hemorr\u00f3ides a coment\u00e1rios sobre Hip\u00f3crates, de temas administrativos ao tratamento da impot\u00eancia. Seu texto mais importante \u00e9 Aforismos segundo Galeno. S\u00e3o 1500 aforismos que resumem a obra gal\u00eanica, com coment\u00e1rios do pr\u00f3prio Maim\u00f4nides.<\/p>\n<p>Os assuntos abordados d\u00e3o uma id\u00e9ia do que era a medicina naquela \u00e9poca: \u00f3rg\u00e3os do corpo humano, humores, bases e m\u00e9todos da arte m\u00e9dica, pulso e sua interpreta\u00e7\u00e3o, sinais de doen\u00e7a na urina, causas e sinais de doen\u00e7as, febres, sangria, purgas, vomit\u00f3rios, cirurgia, doen\u00e7as das mulheres, regras para a sa\u00fade, exerc\u00edcio, banho, comida e bebida.<\/p>\n<p>V\u00ea-se, por exemplo, que a urinoscopia era uma parte importante do diagn\u00f3stico. Com Galeno, Maim\u00f4nides ensina que \u00e9 preciso olhar tanto a urina como o sedimento. Urina clara com sedimento normal mostra que o organismo est\u00e1 funcionando bem, que a natureza completou seu trabalho.<\/p>\n<p>Urina turva, que, contudo, se torna clara, formando-se ent\u00e3o o sedimento, mostra que o organismo j\u00e1 come\u00e7ou a trabalhar. Urina turva que clareia sem que nenhum sedimento se forme indica que o organismo n\u00e3o come\u00e7ou o seu trabalho.<\/p>\n<p>Boa parte dos textos de Maim\u00f4nides constam de conselhos sobre sa\u00fade \u2013 aquilo que hoje se classificaria como \u201cauto ajuda\u201d, mas que ele entendia de outra maneira: a sa\u00fade \u00e9 express\u00e3o da sabedoria.<\/p>\n<p>A medicina n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 assunto do m\u00e9dico: \u201cO estudo da medicina ser\u00e3o um dos principais empreendimentos humanos\u201d, diz no Tratado dos Oito Cap\u00edtulos.<\/p>\n<p>Esta sabedoria \u00e9 aquilo que tira o homem do dom\u00ednio dos instintos e projeta-o no campo da intelig\u00eancia.<\/p>\n<p>O homem nunca deveria comer, afirma, exceto quando tem fome, nem beber, exceto quando tem sede; e n\u00e3o deve retardar o ato de evacua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o se deve comer at\u00e9 a saciedade; deve-se deixar sempre insatisfeita uma \u201cquarta parte do apetite\u201d.<\/p>\n<p>Durante a refei\u00e7\u00e3o, se deve beber \u00e1gua pura em quantidade; s\u00f3 pouca, e misturada com vinho.<\/p>\n<p>Devemos comer sentados ou reclinados sobre o flanco esquerdo.<\/p>\n<p>N\u00e3o devemos fazer esfor\u00e7o f\u00edsico ap\u00f3s as refei\u00e7\u00f5es. A alimenta\u00e7\u00e3o deve ser de tal modo balanceada que as fezes jamais sejam duras; a dificuldade de tr\u00e2nsito intestinal, e nisto Maim\u00f4nides cita Galeno, induz \u00e0 doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Para o sono, basta-nos oito horas: o homem deve se levantar antes que o sol surja. N\u00e3o conv\u00e9m dormir de bru\u00e7os nem de costas, e sim de lado, no princ\u00edpio da noite do lado esquerdo, depois do lado direito.<\/p>\n<p>Maim\u00f4nides dedica especial aten\u00e7\u00e3o aos problemas emocionais.<\/p>\n<p>Os fen\u00f4menos psicossom\u00e1ticos n\u00e3o lhe passam desapercebidos; se um homem tem um desgosto s\u00fabito, seu rosto ficar\u00e1 sombrio, sua voz se tornar\u00e1 rouca e fraca, sua cabe\u00e7a pender\u00e1, sua pele se tornar\u00e1 fria; tudo isto, explica, porque o sangue recolhe-se para o interior do corpo, levando consigo o calor natural.<\/p>\n<p>Para evitar a melancolia e outros problemas psicol\u00f3gicos, \u00e9 preciso fortalecer a personalidade com as virtudes filos\u00f3ficas e a moral da Tor\u00e1; quanto mais s\u00e1bio e virtuoso \u00e9 o homem, menos ele sofrer\u00e1 com a infelicidade s\u00fabita, pois ser feliz ou infeliz \u00e9 algo que depende mais do imagin\u00e1rio do que da realidade Bouaniche, 1990, p.39-43) .<\/p>\n<p>Uma quest\u00e3o delicada \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre os conselhos m\u00e9dicos e as prescri\u00e7\u00f5es religiosas. Maim\u00f4nides procura compatibiliz\u00e1-los. No Guia dos Perplexos, justifica algumas leis diet\u00e9ticas da Tor\u00e1: \u201cSustento que todo alimento proibido pela Tor\u00e1 \u00e9 insalubre (\u2026).<\/p>\n<p>A raz\u00e3o principal pela qual a Tor\u00e1 pro\u00edbe a carne de porco baseia-se na circunst\u00e2ncia de serem os h\u00e1bitos e a alimenta\u00e7\u00e3o dos su\u00ednos imundos e asquerosos (\u2026). A graxa empanzina, perturba a digest\u00e3o, torna o sangue frio e denso; \u00e9 mais pr\u00f3pria para combust\u00edvel do que para a alimenta\u00e7\u00e3o humana.\u201d (Browne, op.cit., p.384).<\/p>\n<p>Em outro trecho, contudo, reconhece (antecedendo Mary Douglas) que a proibi\u00e7\u00e3o pode ter um valor principalmente simb\u00f3lico: \u201cCarne cozida em leite \u00e9, sem d\u00favida, um alimento grosseiro, que sobrecarrega o aparelho digestivo; mas, a meu ver, foi mais provavelmente proibida por se relacionar com idolatria.<\/p>\n<p>Era talvez parte de um rito ou de uma solenidade pag\u00e3.\u201d (Browne, op.cit., p.385). Reconhece, ainda, que as caracter\u00edsticas estabelecidas na Tor\u00e1 para tornar um alimento permitido \u2013 por exemplo, o fato de o animal ser ruminante e ter cascos fendidos, ou de o peixe ter escamas e barbatanas \u2013 n\u00e3o explicam a raz\u00e3o desta permiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Maim\u00f4nides n\u00e3o tinha em alta conta o conhecimento cient\u00edfico dos rabinos; o que estes expressavam, em rela\u00e7\u00e3o a fen\u00f4menos naturais, eram opini\u00f5es, n\u00e3o a verdade revelada por Deus.<\/p>\n<p>Maim\u00f4nides era um racionalizador.<\/p>\n<p>Mas era tamb\u00e9m um conciliador: procurava compatibilizar a lei mosaica com os conhecimentos de seu tempo e com a tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica grega. Seu prest\u00edgio no mundo judaico era enorme; ele era um chacham, um s\u00e1bio, e nestas condi\u00e7\u00f5es recebia consultas das comunidades judaicas de todo o mundo, acerca dos mais variados assuntos relacionados \u00e0 \u00e9tica e \u00e0 religi\u00e3o. Suas responsa (latim: respostas) eram reverentemente colecionadas e s\u00e3o parte de sua obra escrita.<\/p>\n<p>A fama dos m\u00e9dicos judeus se manteve durante a Idade M\u00e9dia e no come\u00e7o da Idade Moderna, apesar das persegui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica, era t\u00e3o grande o n\u00famero de profissionais de origem judaica portuguesa ou espanhola que a condi\u00e7\u00e3o de m\u00e9dico tornava imediatamente a pessoa suspeita de juda\u00edsmo..<\/p>\n<p>Exemplos s\u00e3o: Manoel Alvarez, m\u00e9dico em \u00c9vora, executado pela Inquisi\u00e7\u00e3o; Dion\u00edsio Rodrigues, m\u00e9dico do rei Dom Manuel; Antonio Alvares Ribeiro, m\u00e9dico de Afonso VI, Luiz Alves, Francisco de Azevedo, de quem se diz ter obtido do papa Clemente X a bula suspendendo momentaneamente a a\u00e7\u00e3o da Inquisi\u00e7\u00e3o em Portugal, Mois\u00e9s Solomon Azevedo, Diego Barassa, Samuel Leon Benavente, Manuel Bocarro, prisioneiro da Inquisi\u00e7\u00e3o, Manuel Brudo, Abraham Bueno, Joseph Bueno, Efraim Bueno, Salomon Bueno, Isaac Cardoso, Miguel Cardoso; o \u201cgrupo dos Castros\u201d: Benedict Castro, Ezequiel de Castro, Joseph Castro, Balthazar Isaac Orobio de Castro, Moses Orobio de Castro, Andr\u00e9 Antonio de Castro, m\u00e9dico do Duque de Bragan\u00e7a, Juan Rodrigo Nu\u00f1ez de Castro, m\u00e9dico de Felipe IV, Est\u00eav\u00e3o Rodrigues de Castro, Rodrigo de Castro, Baruch Nehemias de Castro, um dos \u201cpais\u201d da ginecologia; Isaac Abravanel, que se tornou ministro na Espanha, Manuel de Melo, m\u00e9dico de Henrique IV de Fran\u00e7a, Garcia d\u2019Orta, m\u00e9dico de D.Jo\u00e3o III e que, refugiado na \u00cdndia, dedicou-se ao estudo da bot\u00e2nica, elaborando enciclop\u00e9dico tratado sobre o assunto, e muitos outros.<\/p>\n<p>Dois nomes merecem destaque especial: Amatus Lusitanus e Abraham Zacuto. Em Portugal era t\u00e3o importante a presen\u00e7a dos crist\u00e3os-novos na medicina que, em 1606, foi fundado \u2013 para se diferenciar deles<\/p>\n<p>\u2013 o \u201cCol\u00e9gio dos M\u00e9dicos Crist\u00e3os-Velhos\u201d.<\/p>\n<p>Um dos lugares para onde Portugal \u201cdespachou\u201d m\u00e9dicos foi o Brasil.<\/p>\n<p>Em sua cl\u00e1ssica Hist\u00f3ria Geral da Medicina Brasileira, Lycurgo Santos Filho examina a presen\u00e7a dos crist\u00e3os-novos no que chama de primeiro per\u00edodo da medicina no Brasil: do s\u00e9culo XVI at\u00e9 princ\u00edpios do s\u00e9culo XIX (Santos Filho, 1991, p.303-304).<\/p>\n<p>Os profissionais habilitados eram os f\u00edsicos, m\u00e9dicos propriamente ditos, e os cirurgi\u00f5es. Os f\u00edsicos, que se localizaram nas principais cidades e vilas, nas sedes das capitanias, ocupando os cargos oficiais, eram crist\u00e3os-novos quase todos.<\/p>\n<p>Vieram em geral depois que, em 1547, D.Jo\u00e3o III conseguiu do papado a instala\u00e7\u00e3o do tribunal do Santo Of\u00edcio em Portugal. Os territ\u00f3rios rec\u00e9m-descobertos poderiam ser um ref\u00fagio para a inevit\u00e1vel persegui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim, crist\u00e3o-novo era o licenciado Jorge Valadares, considerado o primeiro diplomado a exercer a profiss\u00e3o no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Integrando a comitiva do governador-geral Tom\u00e9 de Sousa, foi designado para o cargo rec\u00e9m-criado de f\u00edsico-mor de Salvador.<\/p>\n<p>O sucessor de Valadares, Jorge Fernandes era \u201cmeio crist\u00e3o-novo\u201d, segundo Santos Filho; foi sucedido por mestre Afonso Mendes, \u201ccirurgi\u00e3o-mor das partes do Brasil\u201d, suspeito de juda\u00edsmo.<\/p>\n<p>Outro cirurgi\u00e3o-mor de Salvador, mestre Jos\u00e9 Serr\u00e3o, era crist\u00e3o novo. Santos Filho limita-se a estes quatro exemplos, mas Bella Herson, na exaustiva pesquisa que incluiu arquivos em v\u00e1rios pa\u00edses, levantou uma lista muito maior, sobretudo de condenados pela Inquisi\u00e7\u00e3o, lembrando que muitos judaizantes eram deportados de Portugal para o Brasil.<\/p>\n<p>Os m\u00e9dicos judeus tinham um outro problema, este de natureza filos\u00f3fico-religiosa, surgido quando o racionalismo, impulsionado pelos ventos das mudan\u00e7as sociais e culturais, se imp\u00f4s.<\/p>\n<p>Foi uma verdadeira convuls\u00e3o no juda\u00edsmo, pois era tamb\u00e9m a \u00e9poca em que chegava ao auge a corrente m\u00edstico-religiosa representada pelo cabalismo..<\/p>\n<p>Estes movimentos m\u00edsticos mostram uma cis\u00e3o no juda\u00edsmo. Pois, ao mesmo tempo, o racionalismo que informava boa parte do trabalho talm\u00fadico e da obra de um Maim\u00f4nides, continuava em ascens\u00e3o.<\/p>\n<p>Figura significativa, neste sentido, foi Baruch (ou Benedito) Espinosa (1632-1677).<\/p>\n<p>Nascido em Amsterd\u00e3, de pais portugueses, muito cedo iniciou-se na filosofia. Atra\u00eddo pelo racionalismo cartesiano, questionou, a tradi\u00e7\u00e3o rab\u00ednica e foi tamb\u00e9m excomungado; mas prosseguiu em sua carreira como fil\u00f3sofo, teve seu trabalho reconhecido e chegou a ser convidado para ocupar a c\u00e1tedra de filosofia na Universidade de Heidelberg; recusou, para continuar o seu trabalho sem as injun\u00e7\u00f5es de um cargo.<\/p>\n<p>Espinosa afirma a exist\u00eancia de uma subst\u00e2ncia infinita no Universo, que \u00e9 a Natureza ou Deus; n\u00e3o via nenhum sentido em contrapor a eternidade de Deus \u00e0 finitude da mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>Este \u201ccolapso\u201d da divindade no mundo natural, chamado de pante\u00edsmo pelos contempor\u00e2neos, era visto como profundamente her\u00e9tico, e a acusa\u00e7\u00e3o de \u201cespinosismo\u201d podia ser um an\u00e1tema ,inclusive na comunidade judaica.<\/p>\n<p>Espinosa \u00e9 um psic\u00f3logo de primeira grandeza; a sua descri\u00e7\u00e3o dos processos mentais \u00e9 ainda v\u00e1lida, pelo detalhe e pela precis\u00e3o. Em \u00c9tica, ele sustenta que os problemas emocionais t\u00eam causas naturais: \u201cN\u00f3s padecemos, na medida em que somos uma parte da Natureza.\u201d (Espinosa, 1979, p.231).<\/p>\n<p>As id\u00e9ias de Espinosa tiveram repercuss\u00f5es, mais imediatas, na medicina praticada pelos judeus, que tiveram de enfrentar a quest\u00e3o da religi\u00e3o frente \u00e0 ci\u00eancia (Gomes, 1981, p.254).<\/p>\n<p>Alguns, como Rodrigo de Castro, procuravam conciliar as duas coisas: o m\u00e9dico equivale ao sacerdote, quando j\u00e1 n\u00e3o pode salvar o corpo, deve salvar a alma. J\u00e1 Manoel Bocarro Franc\u00eas, que mantinha correspond\u00eancia cient\u00edfica com Galileu Galilei, opunha-se \u00e0s teses m\u00edsticas da Cabala.<\/p>\n<p>Com o advento da modernidade, surge a medicina cient\u00edfica, baseada de in\u00edcio nos conhecimentos de anatomia \u2013 resultantes da dissec\u00e7\u00e3o de cad\u00e1veres, at\u00e9 ent\u00e3o proibida \u2013 e da fisiologia.<\/p>\n<p>Agora o m\u00e9dico n\u00e3o se contentava com a especula\u00e7\u00e3o; dissecava, operava, manuseava esp\u00e9cimes.<\/p>\n<p>Logo estaria tamb\u00e9m percutindo e auscultando. A medicina apoiava-se cada vez mais em dados concretos \u2013 e que come\u00e7avam a ser traduzidos em n\u00famero \u2013 e menos na abstra\u00e7\u00e3o humoral.<\/p>\n<p>A medicina em geral e aquela praticada pelos judeus em particular \u2013 que se apoiava sobretudo na autoridade do conhecimento e da sabedoria \u2013 foi colocada em cheque por estas novas tend\u00eancias.<\/p>\n<p>Grandes mudan\u00e7as \u2013 geogr\u00e1ficas, econ\u00f4micas, sociais, culturais \u2013 ocorreram no judaismo europeu no come\u00e7o da Idade Moderna. Em primeiro lugar, a Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica deixou de ser o centro nevr\u00e1lgico das comunidades judaicas. Com a expuls\u00e3o, os judeus tiveram de procurar outros pa\u00edses. Criou-se assim um juda\u00edsmo da Europa Ocidental, um judaismo da Europa Oriental, e o judaismo sefardita, nos Balc\u00e3s e na bacia do Mediterr\u00e2neo.<\/p>\n<p>Em termos populacionais, os dois \u00faltimos viriam a predominar; de maneira geral exclu\u00eddos do surto de progresso econ\u00f4mico da Europa Ocidental, hostilizados pela Reforma e pela Contra-Reforma, os judeus foram empurrados para as regi\u00f5es mais atrasadas do continente.<\/p>\n<p>A medicina praticada por judeus distanciava-se da religi\u00e3o, e tamb\u00e9m da filosofia.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, porque esta era a tend\u00eancia de toda a medicina, cada vez mais institucionalizada como profiss\u00e3o, cada vez mais envolvida com o m\u00e9todo cient\u00edfico.<\/p>\n<p>O Iluminismo, promovido por fil\u00f3sofos como Voltaire e Condorcet, favorecia a alian\u00e7a da medicina com a ci\u00eancia; de fato, muitos m\u00e9dicos viam-se como leg\u00edtimos representantes da revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica que se registrou no per\u00edodo compreendido entre fins do s\u00e9culo dezesseis e fins do s\u00e9culo dezoito, paralelamente aos descobrimentos mar\u00edtimos, \u00e0 introdu\u00e7\u00e3o da imprensa e \u00e0 nova vis\u00e3o do universo trazida por Galileu e Newton.<\/p>\n<p>Esta revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica tinha um forte componente materialista. A explica\u00e7\u00e3o para doen\u00e7as j\u00e1 n\u00e3o deveria ser buscada no sobrenatural, mas sim na forma de funcionamento do organismo.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre juda\u00edsmo e revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica ainda \u00e9 objeto de controv\u00e9rsia. De um lado existem aqueles que v\u00eaem uma incompatibilidade l\u00f3gica entre o \u201cfixo\u201d racioc\u00ednio rab\u00ednico e a mentalidade do cientista (Neusner, 1987, p.139-160).<\/p>\n<p>Outros sustentam que um importante ingrediente da cambiante cultura judaica foi a valoriza\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.<\/p>\n<p>Para isto contribuiu a dissemina\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de livros e materiais impressos e o ingresso \u2013 apesar das restri\u00e7\u00f5es \u2013 de um crescente n\u00famero de judeus nas universidades e escolas m\u00e9dicas, primeiro na It\u00e1lia e depois no restante da Europa.<\/p>\n<p>Paralelamente a isto ocorria uma verdadeira crise ideol\u00f3gica no juda\u00edsmo. O papel dominante da filosofia na vida judaica era posto em quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Durante a Idade M\u00e9dia a investiga\u00e7\u00e3o da natureza estava ligada a um sistema teol\u00f3gico (judaico, crist\u00e3o ou mu\u00e7ulmano), ou filos\u00f3fico: o estudo do mundo f\u00edsico era uma proped\u00eautica \u00e0 metaf\u00edsica.<\/p>\n<p>Agora, as coisas mudavam: o progresso cient\u00edfico era um fim em si mesmo. A neutralidade pretendida pela ci\u00eancia evitava, ou ao menos minimizava, os inevit\u00e1veis conflitos religiosos (Ruderman, 1993, p.10-11).<\/p>\n<p>As \u00fanicas faculdades em que os judeus eram aceitos eram as de medicina. E para elas acorreram em grande n\u00famero. Por v\u00e1rias raz\u00f5es: em primeiro lugar, pela tradicional e j\u00e1 mencionada associa\u00e7\u00e3o entre medicina e religi\u00e3o judaica. A isto se deve acrescentar o prest\u00edgio dos m\u00e9dicos judeus, e a sua impressionante presen\u00e7a no cen\u00e1rio europeu: no Languedoc, entre o d\u00e9cimo segundo e o d\u00e9cimo quinto s\u00e9culos, mais de um ter\u00e7o dos doutores habilitados eram judeus .<\/p>\n<p>Por causa de seu prest\u00edgio, governantes crist\u00e3os e pessoas de posse auxiliavam-nos no estudo da medicina, especialmente na tradu\u00e7\u00e3o de textos m\u00e9dicos. Com a introdu\u00e7\u00e3o da imprensa, esta tarefa foi grandemente facilitada. Por \u00faltimo, mas n\u00e3o menos importante, a medicina representava, para o intelectual judeu, a porta de entrada para o mundo da ci\u00eancia. (Ruderman, op.cit., p.50-51).<\/p>\n<p>Se os religiosos judeus encaravam o pensamento m\u00e9dico com reservas, o mesmo n\u00e3o acontecia na sociedade como um todo, onde a reputa\u00e7\u00e3o dos profissionais de origem judaica crescia sem cessar. Ilustra-o um epis\u00f3dio. Francisco de Valois, rei de Fran\u00e7a, adoeceu e os m\u00e9dicos da corte n\u00e3o conseguiam resolver seu problema. Pediu ent\u00e3o a Carlos V, Imperador da Espanha que lhe mandasse um de seus m\u00e9dicos judeus. Carlos V mandou-lhe um doutor rec\u00e9m convertido.<\/p>\n<p>Quando Francisco descobriu que o profissional n\u00e3o era mais judeu, mandou-o embora; queria um m\u00e9dico que tivesse a \u201cnatural habilidade dos judeus para a cura.\u201d (Ruderman, op.cit., p.286).<\/p>\n<p>Mas a burguesia em ascens\u00e3o mudaria esta conjuntura, com a cria\u00e7\u00e3o de um clima de liberalismo econ\u00f4mico e pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Na Fran\u00e7a, pensadores como Rousseau, Montesquieu, Diderot, Condorcet, defendiam a id\u00e9ia de igualdade civil para os judeus.<\/p>\n<p>Particularmente veemente foi Mirabeau, um dos arquitetos da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, muito influenciado pelo fil\u00f3sofo judeu Moses Mendelssohn (av\u00f4 do compositor), conhecido como o \u201cPlat\u00e3o da Alemanha\u201d. Mendelssohn era o expoente maior da Haskalah ou Iluminismo, um movimento judaico de liberaliza\u00e7\u00e3o religiosa que era a contrapartida do movimento de liberaliza\u00e7\u00e3o na sociedade em geral. \u00c9 preciso, dizia Mendelssohn, tirar os judeus do estreito labirinto da casu\u00edstica ritual-teol\u00f3gica (ou seja, o Talmude) para lan\u00e7\u00e1-los nas largas avenidas do pensamento moderno.<\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o Francesa endossou estes prop\u00f3sitos liberalizantes. Na Assembl\u00e9ia Nacional, um grupo de deputados lutava pela emancipa\u00e7\u00e3o judaica \u2013 desde que esta emancipa\u00e7\u00e3o conduzisse \u00e0 assimila\u00e7\u00e3o completa.<\/p>\n<p>O resultado destas mudan\u00e7as foi um afluxo ainda maior de judeus \u00e0s faculdades de medicina. Na Universidade de Berlim nove por cento dos graduados de medicina em 1826 eram judeus.<\/p>\n<p>Em 1890, dezesseis por cento dos m\u00e9dicos alem\u00e3es eram judeus, ainda que apenas 1,2 por cento da popula\u00e7\u00e3o fossem de origem judaica. Nem todos assumiam, ou podiam manter, a condi\u00e7\u00e3o judaica; em muitas universidades o t\u00edtulo de professor s\u00f3 era concedido a judeus se estes se convertesse. Nas universidades da R\u00fassia tzarista funcionava o numerus clausus, um sistema de quotas; no final do s\u00e9culo dezenove, os judeus podiam representar at\u00e9 10% dos estudantes universit\u00e1rios na regi\u00e3o \u201cjudaica\u201d, mas s\u00f3 3% em S\u00e3o Petersburgo.<\/p>\n<p>Na Inglaterra, at\u00e9 1871, as universidades de Oxford e Cambridge s\u00f3 aceitavam anglicanos. Os judeus eram, contudo, aceitos nas universidades escocesas, particularmente Aberdeen (Schlich, 1995, p.137-148).<\/p>\n<p>Simultaneamente a esta expans\u00e3o m\u00e9dica come\u00e7avam a surgir, nos s\u00e9culos dezessete e dezoito, hospitais judaicos.<\/p>\n<p>Havia algumas raz\u00f5es religiosas para tal \u2013 o uso de alimentos pr\u00f3prios, o manejo do defunto de acordo com o ritual \u2013 mas, acima de tudo, o hospital judaico era uma institui\u00e7\u00e3o social e, sobretudo, m\u00e9dica; um lugar em que m\u00e9dicos e estudantes judeus, discriminados em outros nosoc\u00f4mios, podiam exercer suas atividades.<\/p>\n<p>Finalmente, muitos membros da comunidade judaica viam o hospital como uma forma de integra\u00e7\u00e3o na sociedade em geral.<\/p>\n<p>Os profissionais judeus agora ganhavam um prest\u00edgio que n\u00e3o se restringia \u00e0s cortes, mas estendia-se ao ambiente cient\u00edfico e ao p\u00fablico em geral \u2013 na Europa, primeiro, e depois na Am\u00e9rica, para onde se registrou um movimento de emigra\u00e7\u00e3o em massa a partir de meados do s\u00e9culo dezenove. De in\u00edcio, dedicavam-se a especialidades \u201cmenosprezadas\u201d pelos m\u00e9dicos em geral tal como a psiquiatria e a dermatologia; depois passaram a se dedicar a todas as \u00e1reas da pr\u00e1tica e da pesquisa m\u00e9dicas.<\/p>\n<p>Desde a introdu\u00e7\u00e3o do Pr\u00eamio Nobel de Medicina, em 1899, at\u00e9 1989, trinta e nove judeus receberam o galard\u00e3o. Por pa\u00eds de origem e ano de recep\u00e7\u00e3o do pr\u00eamio, s\u00e3o eles (Brown, 1995, p.234): Paul Ehrlich (Alemanha, 1908), Elie Metchnikoff (R\u00fassia, 1908), Robert Baranyi (\u00c1ustria, 1914), Otto Meyerhof (Alemanha, 1922), Karl Landsteiner (\u00c1ustria, 1930), Otto Warburg (Alemanha, 1931), Otto Loewi (\u00c1ustria, 1936), Joseph Erlanger (USA, 1944), Ernest Chain (Inglaterra, 1945), Herman Joseph Muller (USA, 1946), Tadeus Reichstein (Sui\u00e7a, 1950), Selman A.Waksman (USA, 1952), Hans Adfolf Krebs (Inglaterra, 1953), Fritz Albert Lipman (USA, 1953), Joshua Lederberg (USA, 1958), Arthur Kornberg (USA, 1959), Konrad Bloch (USA, 1964), Fran\u00e7ois Jacob (Fran\u00e7a, 1965), Andr\u00e9 Lwoff (Fran\u00e7a, 1965), George Wald (USA, 1967), Marshall W.Niremberg (USA, 1968), Salvador Luria (USA, 1969), Julius Axelrod (USA, 1970), Bernard Katz (Inglaterra, 1970), Gerald M.Edelman (USA, 1972), Howard Temin (USA, 1975), David Baltimore (USA, 1975), Baruch Blumberg (USA, 1976), Rosalyn Yalow (USA, 1977), Daniel Nathan (USA, 1978), Baruj Banecerraf (USA, 1980), Cesar Milstein (Inglaterra, 1984), Joseph Goldstein (USA, 1985), Michael S.Brown (USA, 1985), Stanley Cohen (USA, 1980), Rita Levi-Montalcini (USA, 1986), Gertrud Elion (USA, 1988), Harold Varmus (USA, 1989).<\/p>\n<p>A estes nomes muitos outros poderiam se associar, confirmando que a longa hist\u00f3ria da associa\u00e7\u00e3o entre juda\u00edsmo e medicina \u00e9, sobretudo uma hist\u00f3ria de sucesso \u2013 e mostra como um grupo humano, perseguido, oprimido e \u00e0s vezes at\u00e9 exterminado, soube, mesmo assim, dar sua contribui\u00e7\u00e3o para o progresso e o bem-estar da humanidade.<\/p>\n<p>Fonte (antiga) Consultada: <a href=\"http:\/\/kehilah.net\/da-biblia-a-psicanalise\/\">http:\/\/kehilah.net\/da-biblia-a-psicanalise\/<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cDa B\u00edblia \u00e0 Psican\u00e1lise\u201d Sa\u00fade, doen\u00e7a e medicina na cultura judaica (Artigo antigo anos:80) &nbsp; Na minha turma m\u00e9dica, cerca de dez por cento dos doutores eram judeus. 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