MÉTODO PSICANALÍTICO & TRATAMENTO ANÍMICO

19 de março de 2019 | Artigos | Sem comentários

MÉTODO PSICANALÍTICO & TRATAMENTO ANÍMICO

 MÉTODO PSICANALÍTICO &  TRATAMENTO ANÍMICO.

 

Aspirante de Psicanálise: Profª.Gema Galgani da Fonseca –Aluna do Curso de Formação em Psicanálise pela ABMP-DF/Brasília – DF, Doutoranda do Curso de Doutorado em Psicologia – UCES/ Buenos Aires, Mestre em Formação de Professores pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Especialista em Psicoterapia Psicanalítica pela Universidade de Uberaba (UNIUBE), graduada em Pedagogia e Psicologia. Docente de cursos de graduação e pós-graduação da FPM – Faculdade de Patos de Minas/MG.

 

TURMA: N/2015

 

MÉTODO PSICANALÍTICO & TRATAMENTO ANÍMICO.

 

Este trabalho tem como princípio inicial, buscar o olhar original “Da clínica médica à clínica psicológica” através da essência do termo “clínica”, o qual diz respeito àobservação que se faz à cabeceira do doente. Porém doente não no sentido restrito ao organismo biológico, mas aqui compreendido como parte de um processo em que se encontra um sujeito em adoecimento e/ou passível de análise,

Investigação do humano a partir de um encontro de observaçãocertamente interessada, porque predispõe questões e formula hipóteses, tentando verificá-lasconforme certas regras. Na posição deitada, o doenteestá involuntária e passivamente impotente e, no limite,desprendido de tudo que o rodeia, momentaneamenteexpulso da comunidade dos que estão erguidos (Canetti,1960/1983).

Deitado, regredido a sua mais tenra infância, o homem se depara com as reminiscências de um psiquismo atemporal;

Nossas lembranças infantis mostram-nos nossos primeiros anos não como eles foram, mas como nos apareceram nos períodos posteriores em que as lembranças foram despertadas. Nesses períodos do despertar, as lembranças infantis, como nos acostumamos a dizer, não emergiram; elas foram formadas nessa época (Freud, 1898/1969, p.354).

Inspirado pelas bases epistemológicas do Iluminismo, Freud abordou o inconsciente não-racional, procurando compreender o domínio da razão para o entendimento das emoções. Como no estudo Lembranças encobridoras (1899)(Deckerinnerung), ele sugere uma guinada na apreensão da realidade psíquica das recordações, pois esta abarca além de uma representação heterogênea das demais lembranças da infância, mergulhando o conjunto das lembranças na dimensão da fantasia.

A memória – essa narrativa que situa os acontecimentos, os lugares e os caminhos por aonde cada ser humanovai confirmando sua história,ela suscita indagação sobre as relações entre o advento de uma lembrança e o preenchimento das lacunas da memória. Processo que determina o ser do sujeito, influenciando-o até o fim de sua vida – se faz através de esquecimentos que, por vezes, são de forma absoluta e recalcada no inconsciente.

Daí, a importância de se compreender que o mero surgimento de uma lembrança não constitui uma possibilidade de avanço no processo analítico, entretanto pode até significar um aprisionamento ao demarcar o sujeito capturado e congelado pela representação de uma imagem. Isto implica que lidar com a análise de uma lembrança requer entendimento e capacidade associativa livre, pois esta é decalcada pela própria estrutura da memória inconsciente multifacetada.

Nesse sentido, Freud fundamenta em diversas passagens de seus estudos sobre o saber dos poetas, os escritores criativos;

cujo testemunho deve ser levado em alta conta, pois costumam conhecer toda uma vasta gama de coisas entre o céu e a terra com a qual a nossa filosofia ainda não nos deixou sonhar. Estãobem adiante de nós, gente comum, no conhecimento da mente, já que se nutrem em fontes que ainda não tornamos acessíveis à ciência (Freud, 1907/1976c, p. 18.)

Inicialmente anterior a Psicanálise, Freud usou o método catártico de Breuer, baseado na hipnose e gradativamente modificado a partir de tentativas de intervenções diferenciadas na clínica analítica. O paciente era hipnotizado e levado até a cena traumática com o objetivo de revivê-la de forma adequada, a fim de liberar a reação afetiva na época da vivência do trauma, porém o método apresentava limitações já que algumas pessoas não eram hipnotizáveis e se mantinham resistentes (psicose histérica).

Fundamentado numa das mais conhecidas compreensão sobre o que seja a Psicanálise, preconiza que é um método de tratamento das neuroses e de suas causas, uma teoria sobre os processos anímicos e um processo de investigação desses mesmos processos. Em oposição às críticas que se fazem a cientificidade da psicanálise, esta se estabelece como um procedimento de observação – de escuta flutuante e de associação do “ver” na espera do que vem do analisado.

Bem cedo (1890) Freud delimitou e caracterizou o que entende por “tratamento psíquico”: é tratamento que parte do anímico e se utiliza de recursos anímicos – recursos esses que acabam por influenciar o próprio anímico. Está aí implicado, no entanto, que a influência sobre o anímico é o meio (a mediação) para se alcançar outras “realidades”. (…)Psico de psicanálise, portanto, se refere ao anímico do qual se parte, da qualidade dos recursos que se utilizam e do anímico que se influencia –trabalhando-se psiquicamente o anímico, modifica-se a alma. Resumem-se, assim, os significados de psico que se elucidaram: trata-se do qualificativo da análise e do material (a partida, o meio e o objeto) que se analisa. Pode-se, então, entender que “psicanálise” exprime: tratamento (cuidado, cura) analítico de perturbações anímicas e corporais que se dá a partir, e por meio, da psique (alma, fala)(CELES, 2005,p. 12).

A partir da investigação dos processos mentais abstratos, o Método Psicanalítico(Freud, 1923 (1922)) constitui-secomo instrumento para o tratamento dos distúrbios neuróticos, proposto pela psicanálise e que tem sua origem na escuta do sujeito. Nesse método, o paciente deve falar sem censura e sem direcionamento, devendo-se se expressar livremente tudo o que lhe vem à mente.

Sob o imaginário e representação da limpeza da chaminé, o analista convida o paciente a se permitir expressar e deixar fluir todo o material inconsciente, podendo-se falar a vontade sobre seus desejos – angústias e temores. As ideias que ocorrem ao paciente, seus sonhos, suas ações inintencionais e desprovidas de planos (atos somáticos), os erros cotidianos (lapsos da fala, chistes, etc.) e as lembranças e esquecimentos compondo as experiências de resistência aos materiais clínicos.

Nesse processo de trabalho psicanalítico, o tratamento revela-se articulado à investigação dos processos anímicos, mas não se limita a intenção visualizadora de fazer o paciente “ver”; uma vez que transpõe o ver, para também “fazer falar” e “fazer ouvir”. O fazer ver é efeito duplo e indissociáveldo trabalho de fazer falar e fazer ouvir, investigação guiada não pelo objetivo metódico da pesquisa científica mas sim uma investigação guiada pulsionalmente e a priori, tateando os materiais psíquicos inconscientes.

Ora, se a Psicanálise parte da possibilidade de conhecimento que não se dá pela consciência, pela razão, privilegiando o afeto, o insight, a intuição, o mito, a arte, como pensar em pesquisa psicanalítica? A empiria psicanalítica tem base no singular, não sendo regular, reproduzível, protocolar, laboratorial. É a realidade intersubjetiva que se impõe, pela implicação entre sujeito e objeto e pela consideração do saber alheio aos ditames do crivo racional(TEIXEIRA, 2003, p. 59-60).

Através do tratamento anímico, o psicanalista consegue vislumbrar além do como e porquê as pessoas se afastam da realidade, as quais num primeiro momento parecem reagir sob tensão face angústias e resguardando o material recalcado no inconsciente. De acordo com Pierre Fédida (1992), refletindo sobre o trabalho do analista e sua relação com a função da linguagem e seus aspectos expressivos, recorre um neologismo em francês, de grande poder ilustrativo e metafórico.

Ele diz que a linguagem dá réson às coisas. A palavra é um neologismo composto das palavras francesas ressonância (résonance) e razão (raison) e sugere que a linguagem do analista é resultado de uma ressonância, isto é, de um som a ser decodificado nos seus aspectos expressivos e comunicativos, que integrem com a vida emocional do analista e com sua razão, e lhe permite construir uma interpretação sugerindo um significado para as vivências emocionais do paciente(BARROS, 2004, p.1).

Nessa dinâmica entre materiais psíquicosdo mundo real – objetivo e concreto e outros diálogos ressoados do universo intersubjetivo – sentido evivenciado pelo paciente, é que se revela a capacidade e responsabilidade do analista em se posicionar “sem memória e sem desejo” ao que está sendo escutado. Pois somente assim, conseguir-se-á manter através da atenção flutuante, captar os discursos racionais conscientes ou inconscientes do sujeito – suas fantasias e sonhos relacionados – seus recalques e defesas manifestas ou latentes a respeito de determinados temas vividos.

O que se busca na psicanálise não é outra coisa que a própria fala do analisando, quando não se prevê e nem se retém qualquer objetivo ou alvo que se queira chegar;interessando-se como fala o analisando e não se privilegiando a visão e sim a escuta. E nesse como o paciente dialoga sobre acontecimentos, pessoas ou relacionamentos, é que a figura do “divã” – símbolo do trabalho da psicanálise e condição para este se realiza e se revela no campo da linguagem, é o berço onde o “não ver”permite o falar – o escutar e o interpretar necessários ao trato com as outras realidades intersubjetivas.

Daí, ao contrário da hipnose, a associação livre é fundamentada por permitir que o paciente acesse com maior facilidade os elementos que poderiam liberar-lhe os afetos, as lembranças e as representações, dizimando as resistências.

Você vai observar que, durante o seu relato, vão surgir diversas ideias, ideias que gostaria de rejeitar porque passaram pelo crivo de sua crítica. Será tentado a dizer: “Isto ou aquilo não tem nada a ver com o que estou contando” ou então “Isto é uma coisa que não tem importância nenhuma”, ou ainda. “É um absurdo e não tinha porque falar nisso”. Não ceda a esta crítica e fale, apesar de tudo, mesmo quando lhe repugne fazê-lo ou justamente por causa disso. (…) Comporte-se à maneira de um viajante que, sentado a uma janela do trem, descreve a paisagem, tal como se desenrola aos seus olhos, para uma pessoa situada atrás de si. Enfim, nunca esqueça a sua promessa de ser inteiramente franco, não omita nada do que, por uma razão qualquer, lhe pareça desagradável dizer (Freud, 1913b, p. 136).

Dos discursos conscientes que emergem das aparas do tempo às lembranças que se traduz das horas que ficaram cheiras, os relatos dos pacientes se despontam carregados de racionalizações e substratos sensoriais. Conforme o relato de Freud (1899/1969) que gira em torno do episódio autobiográfico em que um menino retira o buquê de flores das mãos de uma menina e, em seguida, se desfaz das mesmas para saborearum pedaço de pão.

Portanto, através do Método Psicanalítico e o Tratamento Anímico dos materiais psíquicos, conscientes e inconscientes, analista e analisando tem a possibilidade de entrar numa dimensão não palpável, mais simbolicamente imaginária e sentida a partir do vivido na experiência analítica. O que cada um apresenta de materiais psíquicos varia de pessoa para pessoa, quando o trato e manejo com o humano não tem formulas e nem caminhos pré-estabelecidos, já que cada conversação guarda em si o inaudível aos olhos e o assimétrico desafio do descortinar das palavras e dos sentidos.

Nessa linguagem de gente que analisa e se analisa – entre psicanalista e analisando, novos cenários se traduzem e se edificam de forma muito particular e inigualável, pois há quem busque….pelo calor dos afetos perdidos, pela lembrança doce de determinada persona, pelo aconchego de um contato corporal, pelo encontro da reciprocidade de um diálogo tecido ao acaso, pelo sabor de uma comida sinalizando satisfações mais primitivas,  pela autodescoberta.

Dedico este trabalho,a todos os psicanalistas e analisandos do Percurso da ABMP-DF & PARCERIAS.

Referências Bibliográficas:

Barros, Elias Mallet da Rocha. Método Psicanalítico. Cienc. Cult. [online]. 2004, vol.56, n.4, pp.22-25. ISSN 2317-6660.
Psicanálise/Artigo. Retrieved July 28, 2017, from http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252004000400013&lng=en&tlng=pt.

Canetti, E. (1983). Massa e poder.São Paulo: Melhoramentos. (Original publicado em 1960).

Celes, Luiz Augusto. “Psicanálise é o nome de um trabalho.” Psicologia Clínica 17.2 (2005): 157-171.

COSTA, André Oliveira.Esquecimentos, fantasias e sexualidade infantil: efeitos da autoanálise de Freud. Estilos clin. [online]. 2016, vol.21, n.1, pp. 200-217. ISSN 1981-1624.  http://dx.doi.org/10.11606/issn.1981-1624.v21i1p200-217.

Freud, S. (1976c). Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. 9). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1907).

Freud, S. (1969). Lembranças encobridoras. Em J. Salomão (Org.), Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud (Vol. III, pp. 329- 354). Rio de Janeiro: Imago. (Original publicado em 1899).

Freud, S. (1913b). Sobre o Início do Tratamento. (Novas recomendações sobre a técnica da psicanálise I). In: S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. XII). Tradutores Diversos. Rio de Janeiro: Imago.

Freud, S. (1923 a). Dos artículos de enciclopédia: “Psicoanálisis” Y “Teoria de la libido”, em: Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund. Buenos Aires: Amorrortu, vol. 18, p. 231 (Original publicado em 1922).

Teixeira, Leônia Cavalcante. “Escrita autobiográfica e construção subjetiva.” Psicologia USP 14.1 (2003): 37-64.          

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