FORCLUSÃO & PSICOSE

20 de março de 2019 | Artigos | Sem comentários

FORCLUSÃO & PSICOSE

O que é forclusão ou foraclusão

(* Psicose* )

Conceito comumente descrito pelo psicanalista francês Jacques Lacan para desig­nar um mecanismo específico da psicose.

 A forclusão é o mecanismo “psíquico” na qual se produz rejeição de um significante (imagem acústica e simbólica) que é fundamental (neurose) para fora do universo simbólico do sujeito (neurótico) e isso leva o sujeito direto a “Psicose”

Quando essa rejeição se produz, o signi­ficante é “foracluído” expulso.

Não é integrado no inconsci­ente, como no recalque (neurose) e retorna sob forma alucinatória no real do sujeito. (Psicose).

No Brasil também se usam foraclusão, forclusão, repúdio,rejeição e pre­clusão visto que o termo foraclusão foi introduzido por Jacques Lacan em 1956, na sessão de seu seminário dedi­cado às psicoses e à leitura do comentário de Sigmund Freud sobre a paranóia do jurista Daniel Paul Schreber.

Para compreender a gênese desse conceito, há que relaciona-Io com a utilização que Hip­polyte Bernheim fez, em 1895, da noção de alucinação negativa: esta designa a ausência de percepção de um objeto presente no campo do sujeito após a hipnose.

Freud retomou o termo, porém não mais o empregou a partir de 1917, na medida em que, em 1914, propôs uma nova classificação das neuroses, psicoses e per­versões no âmbito de sua teoria da castração.

Deu então o nome de Verneinung ao mecanismo verbal pelo qual o conteúdo recalcado (ics) é reconhecido de maneira negativa pelo sujeito, sem no entanto ser aceito: “Não é meu pai.” Em 1934, o termo foi traduzido em francês por négation  [nega­ção].

Na forclusão há (negação da inscrição do nome do pai (ics) que privilégio é outorga da fala da mãe)

Quanto à renegação (Verleugnung), Freud a caracterizava como a recusa, por parte do sujeito, a reconhecer a realidade de uma percepção negativa – por exemplo, a ausência de pênis na mulher.

Paralelamente, na França, Pichon intro­duzia o termo “escotomização”, para designar o mecanismo de enceguecimento inconsciente pelo qual o sujeito faz desaparecerem de sua memória ou sua consciência fatos desagradá­veis. Em 1925, uma polêmica opôs Freud a René Laforgue a propósito dessa palavra. La­forgue propunha traduzir por escotomização tanto a renegação (Verleugnung) quanto um outro mecanismo, próprio da psicose e, em especial, da esquizofrenia. Freud recusou-se a aceitar e distinguiu, de um lado, a Ver­leugnung, e de outro, a Verdrangung (recalque).

A situação descrita por Laforgue despertava a idéia de uma anulação da percepção, ao passo que a exposta por Freud mantinha a percepção, no contexto de uma negatividade: atualização de uma percepção que consiste numa rene­gação.Do ponto de vista clínico, a polêmica entre os dois homens revelou que faltava engendrar um termo específico para designar o mecanis­mo de rejeição próprio da psicose: essa palavra, com efeito, não figurava no vocabulário freu­diano, ainda que Freud procurasse elaborar seu conceito.

Embora houve um tempo polêmico e diversas discussões em torno do termo, as coisas estavam nesse pé quando Édouard Pichon publicou, em 1928, com seu tio Jacques Damourette, um artigo intitulado:

“Sobre a sig­nificação psicológica da negação em francês”.

A partir da língua, e não mais da clínica, ele tomou emprestado ao discurso jurídico o adje­tivo forclusif  [foraclusivo ou excludente (do uso de um direito não exercido no momento opor­tuno)] para expressar a idéia de que o segundo membro da negação em francês aplicava-se a fatos que o locutor já não encarava como fazen­do parte da realidade. Esses fatos eram como que foracluídos.

O exemplo fornecido pelos dois autores não deixou de ter certo humor, tratando-se de dois membros da Action Fran­çaise. Com efeito, eles mencionaram a citação de um jornalista, extraída do Journal de 18 de agosto de 1923 a propósito da morte de Es­terhazy: “O caso Dreyfus, diz ele [Esterhazy], é doravante um livro fechado.

Deve ter-se ar­rependido de algum dia o ter aberto. Os autores sublinharam que o emprego do verbo arrepen­der-se implicava que um fato que realmente existira fora efetivamente excluído do passado.

E aproximaram a escotomização do foraclusi­vo: “A língua francesa, através do foraclusivo [forclusif], exprime esse desejo de escotomiza­ção, assim traduzindo o fenômeno normal do qual a escotomização, descrita na patologia mental pelo Sr. Laforgue e por um de nós [Pi­chon], constitui o exagero patológico.” (psicanálise)

Em 3 de fevereiro de 1954, Lacan começou a atualizar a questão do foraclusivo e da esco­tomização, por ocasião de um debate com o filósofo hegeliano Jean Hyppolite (1907-1968), ele próprio confrontado com essa questão por intermédio da Verneinung,

a qual propunha tra­duzir por denegação, em vez de negação. La­can inspirou-se no trabalho de Maurice Mer­leau-Ponty (1908-1961) Phénoménologie de la perception, e, sobretudo nas páginas desse livro dedicadas à alucinação como “fenômeno de desintegração do real”, componente da inten­cionalidade do sujeito.

Na análise do caso do “Homem dos Lobos” publicada em 1918, Freud explicou que a gê­nese do reconhecimento e do desconhecimento da castração em seu paciente passava por uma atitude de rejeição (ou, Verwerfung) que consis­tia em só ver a sexualidade pelo prisma de uma teoria infantil.

Para ilustrar sua colocação, ele evocou uma alucinação que seu paciente Serguei Cons­tantinovitch Pankejeff tivera na infância.

Este “vira” seu dedo mínimo cortado por seu cani­vete, apercebendo-se em seguida da inexis­tência do ferimento.

A propósito da “rejeição de uma realidade apresentada como inexistente”, Freud sublinhou que isso não era um recalca­mento, porque um recalque é algo diferente de uma rejeição.

Comentando esse texto em seu diálogo de 1954 com Hyppolite, Lacan forneceu como correspondente francês de Verwerfung a palavra retranchement supressão, eliminação. Dois anos depois, retomou a distinção freudiana en­tre neurose e psicose, para lhe aplicar a termi­nologia segundo a qual, na psicose, a realidade nunca é realmente escotomizada.

Por fim, de­pois de comentar longamente a paranóia de Schreber e Lacan passou a usar o conceito de “Nome-do-­Pai” Lacan propôs traduzir Verwerfung por foraclusão.

Compreende-se com isso que o mecanismo (psíquico inorgânico) es­pecífico de estudo de caso de psicose (na psicanálise), aqui a ser definido é a partir da para­nóia (delirante), que consiste na rejeição primordial de um significante fundamental para fora do universo simbólico do sujeito. (Evitando assim a inscrição da instância da Neurose).

Lacan distinguia o me­canismo do recalque, sublinhando que, no pri­meiro caso, o significante foracluído ou os si­gnificantes que o representam não pertencem ao inconsciente do sujeito, mas retornam (no real) por ocasião de uma alucinação ou um delírio (sem linguagem neurótica, culpa ou remorso) que invadem a fala ou a percepção do sujeito*. * (Psicose)

O conceito de foraclusão, (fora-clusão), ora inserido nos estudos e em seminário de La­can e é um referencial para a investigação do inconsciente inominado do

(Psicótico) que ocupa um lugar não acessível pela via da “neurose” e isso é um desafio ao psicanalista ou aspirante de psicanálise que se deparar com o acolhimento para casos de Psicose.

Fonte consultada / referências Bibliográficas:

História de uma Neurose Infantil  “ Homem dos Lobos” Sigmund Freud – Volume: 14 Ed. Editora: Imago Standart – Versão tradução Inglesa

Dor, J. (1991) – O pai e sua função em Psicanálise. Jorge Zahar Editor.
Lacan, J. (1985) – O Seminário. Livro 3. Jorge Zahar Editor.
Rabinovitch, S. (2000). A Foraclusão – Presos do Lado de Fora. Jorge Zahar Editor.

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